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A mesma dinâmica mas com um formato inédito

Entrevista com Susana Medeiros – 13º ENIJMF

O Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família vai ter este ano um formato diferente. Em entrevista ao nosso portal, Susana Medeiros, presidente do 13º Encontro, passa em revista algumas das grandes questões socioprofissionais que preocupam os internos e que serão alvo de análise e discussão na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, entre 24 e 25 de outubro. A par desta componente socioprofissional, o Encontro apresenta-se com uma vertente técnico-científica que privilegia a apresentação de comunicações livres e pósteres, assim como a realização de workshop sobre temas relevantes para a prática clínica

 

Na sequência da organização do 19º Congresso Europeu de Medicina Geral e Familiar, entre 2 e 5 de julho passado, este ano a APMGF não vai realizar o seu congresso anual. O Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família, que habitualmente antecede o Congresso Nacional, terá, assim, um formato diferente?

Susana Medeiros – Este ano decidimos alterar um pouco o formato do Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família (ENIJMF) e, de facto, essa alteração está relacionada com a realização da WONCA 2014. Apesar da APMGF não realizar este ano o seu Congresso Nacional, considerámos que não podíamos descurar o ENIJMF porque é um espaço único no país. Reúne internos de todas as regiões, incluindo as comunidades autónomas dos Açores e da Madeira, sendo um espaço de discussão de questões socioprofissionais e outras que nos afetam e interessam particularmente. Nesse sentido, todas as entidades representativas dos internos vão ser convidadas a participar no 13º Encontro Nacional. Reunir todas essas estruturas é muito útil, pois permite a discussão de temas que a todos interessam, assim como um trabalho de continuidade. Uma vez que este ano não se realiza o Congresso Nacional, além da componente socioprofissional resolvemos incorporar no ENIJMF uma vertente mais técnico-científica, no sentido de criar espaço para os internos apresentarem os seus trabalhos. O Internato é, de facto, a fase por excelência de apresentação de comunicações orais e pósteres. Iremos apostar igualmente na realização de workshop sobre temas que são recorrentemente pedidos e procurados pelos internos nos vários Encontros e Congressos. Essencialmente, pretendemos dar muito mais dinâmica ao trabalho em sala do que em auditório. Esperamos, dentro em breve, disponibilizar o programa no site da APMGF e também através do Jornal «MGF Notícias».

Considera que o Internato se encontra num ponto de viragem? O projeto de decreto-lei da Revisão do Programa do Internato ainda está em discussão… Qual a importância do 13º ENIJMF, enquanto espaço de discussão destas matérias?

Certamente que esse vai ser um dos pontos-chave das discussões e debates do 13º Encontro. É importante pensarmos em conjunto o que queremos que seja o nosso Internato e é isso que temos procurado fazer ao longo dos anos. Basta recordar que, em 2013, conseguimos sentar à mesma mesa representantes dos internos de todas as regiões do país, num debate alargado, após o qual foi delineado um documento – que continua a ser construído – de análise e propostas de melhoria.

A qualidade do Internato de MGF é uma questão fulcral. Pensa que essa qualidade poderá estar em risco?

Espero que não, mas é claro que corremos alguns riscos. Alguns locais de formação estão sobrecarregados, quer devido ao aumento do número de internos por orientador, quer pelas próprias condições físicas dos espaços, sem gabinetes em número suficiente para a realização de consultas. Temos de estar todos atentos e chamar a atenção para situações que possam pôr em causa a qualidade de um internato tão bom, tão rico e tão bem construído.

Outra questão importante diz respeito à falta de uniformização do programa do Internato nas várias regiões do país e ao problema da insularidade que se faz sentir na Madeira e, muito especialmente, nos Açores…

A essência do Internato encontra-se presente em todas as regiões do país. A base da Medicina Geral e Familiar é idêntica no Norte, Centro, Sul e nas Regiões Autónomas. Mas claro que há divergências a nível nacional. Daí a importância de criarmos espaços de diálogo, no sentido de percebermos o que de melhor e de pior acontece nas diferentes regiões, com o objetivo de termos um Internato mais uniforme e melhor, independentemente da região onde o interno vai fazer a sua especialidade.

O que pensa sobre a existência de uma classificação mínima na prova de seriação de acesso ao concurso para a realização do Internato?

No formato atual da prova de seriação considero que não faz sentido existir uma nota mínima. Repare que estamos simplesmente a seriar e não a classificar. A nota de saída de curso, essa sim, é importante.

E qual é a sua opinião sobre o modelo da prova de saída do Internato? Em geral, tanto internos como orientadores mostram-se insatisfeitos…

Essa é uma discussão que tem sido levada a cabo ultimamente por muitos de nós. Sem dúvida que há descontentamento, tanto mais que existem formas de avaliação que estão validadas mas não são aplicadas. Provavelmente, deveríamos olhar um pouco melhor para elas e levá-las avante. Mas estamos condicionados pela legislação atual. Não temos um Internato diferente das restantes especialidades médicas e aquilo que podemos fazer não pode ser diferente dos outros. Esta é uma questão que tem de ser legislada e é transversal a todas as especialidades médicas. O problema não é do formato da avaliação em Medicina Geral e Familiar, mas do formato da avaliação final em todas as especialidades médicas.

Tem algumas ideias concretas no sentido da mudança?

Penso que poderiam ser provas muito mais objetivas. O formato curricular acaba por ser quase uma tese ou uma dissertação e não propriamente um curriculum vitae. Na avaliação teórica, provavelmente uma prova escrita com um formato diferente do atual e mais uniforme para todos os candidatos, faria muito mais sentido. E também a prova prática deveria ser alterada. Eventualmente, poderíamos manter as três componentes que existem atualmente mas com um formato diferente.

Preocupa-a o facto de, neste momento, já se poderem estar a formar médicos para o desemprego ou a emigração?

O risco é real. Ao nível da gestão de recursos humanos, tudo indica que isso possa vir a acontecer a médio prazo. Por outro lado, o crescente aumento de alunos nas várias faculdades de Medicina do país poderá agravar esta situação. Muitos ingressam na licenciatura com expectativas elevadas, realizam a sua formação nos melhores centros e no final podem não ter a possibilidade de obter uma especialidade. Aí, o desemprego e a perspetiva de abandonar o país podem tornar-se realidade.

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