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Do Presidente: o valor de Vasco

Wonca News

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A recente viagem a Aveiro, Portugal, para falar numa reunião, demorou 1000 anos. O tempo real de viagem foi de cerca de 24 horas. A reunião durou 3 dias. No entanto, a viagem foi uma oportunidade para reflectir sobre a vida de Vasco da Gama há 500 anos. Ele também me inspirou a olhar para o futuro, 500 anos à frente.

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O verdadeiro propósito da minha visita foi participar no 30 º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF).

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Portugal tem uma população de cerca de 10 milhões de habitantes e 40 000 médicos. A APMGF tem como membros 4000 dos 5700 médicos de família portugueses. As mulheres representam cerca de 80% dos médicos e internos de Medicina Geral e Familiar. A formação pós-graduada dura 4 anos. Há cerca de 400 novos internos por ano, que representam cerca de um quarto dos recém-formados das faculdades de medicina.

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Em Portugal, uma equipa de Cuidados de Saúde Primários é constituída habitualmente por um um médico, um enfermeiro e um assistente administrativo. A última reforma nos Cuidados de Saúde Primários teve início em 2005 e permite várias opções de organização e financiamento. O modelo tradicional chama-se Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados ou “USCP"). Existem ainda três modelos no âmbito do programa de reforma Unidade de Saúde Familiar ou "USF": modelos A, B e C. Em qualquer um destes é da sua responsabilidade a selecção dos seus membros. No Modelo B, há recompensas financeiras, se certas metas de desempenho forem alcançadas. O Modelo C ainda não foi implementado, mas prevê grupos privados de médicos que se juntam para contratualizar com o Governo, semelhante a uma cooperativa.

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Dependendo do modelo em que exercem, o vencimento pode variar entre 1800 (tradicional) e 4000 (Modelo B) euros por mês, em comparação com os 800 euros auferidos mensalmente pelo trabalhador médio Português.

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Mini Hippokrates – at the beach.

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Dias difíceis

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Os últimos anos não têm sido fáceis para Portugal. A crise fiscal motivou uma série de medidas de austeridade. A taxa de desemprego é de cerca de 15%. Os gastos do Governo na saúde reduziram em 9%. Como funcionários públicos, o impacto relativo sobre os médicos de família tem sido ainda maior, com algumas reduções salariais até 30%. Eu esperava encontrar os médicos de família portugueses irritados e desanimados no Encontro ou nos Centros de Saúde que visitei. Estava errado.

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Simultaneamente à preocupação e frustração, o sentimento geral era de confiança e solidariedade. Os médicos de família descreveram as suas tensões financeiras como um reflexo da dor económica compartilhada por todos os portugueses. Referiram uma sensação ainda maior de responsabilidade pela saúde dos seus pacientes e pelo sucesso do sistema de saúde durante estes tempos difíceis. Em suma, eles demonstraram algo que é desesperadamente necessário, mas nem sempre encontrado: liderança.

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Visita a uma Unidade de Cuidados de Saúde Primários

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Visitei o Centro de Saúde de Aveiro, que é a principal unidade de Cuidados Primários em Aveiro. Foi surpreendente encontrar os três modelos operacionais no mesmo local. Havia duas USCP (tradicional) e duas USF (uma modelo A e uma Modelo B), cada uma na sua própria ala do edifício. Cada unidade é constituída por 6-8 médicos e é responsável por cerca de 15 000 pacientes. O Centro de Saúde está aberto das 08h00 às 20h00 diariamente. Os casos que necessitam de cuidados de saúde fora desse horário são encaminhados para o hospital.

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As instalações estavam limpas e bem equipadas. Cada uma das USF tem sua própria cor, o que é reforçado pela cor dos uniformes usados pelos funcionários. No mesmo sistema de saúde e trabalhando no mesmo edifício, aparentemente as unidades mais autónomas e mais focadas no desempenho recebem mais fundos porque presumivelmente obtêm melhores resultados e maior satisfação dos utentes. Alguma preocupação foi expressa sobre as desigualdades potenciais decorrentes desses vários modelos, especialmente quando estão todos sob o mesmo tecto.

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Dra Veronica Colaco and Prof Rich Roberts

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Notice the purple trim on her coat, which is her unit's colour

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Dra Veronica with new born and parents

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Na USF Flor de Sal (Modelo A), Dra. Verónica Colaço foi a minha anfitriã. Durante um dia de trabalho típico, que consiste em 7 horas de consultas, observa entre 20-30 pacientes. Ela mostrou-me o sistema de registo eletrónico de saúde, que permite a troca imediata de informação entre os Centros de Saúde e Hospitais. Ela gentilmente permitiu-me assistir a uma consulta de vigilância a um bebé recém-nascido trazido pelos seus pais. Fiquei satisfeito ao ver que a Dra. Verónica Colaço presta cuidados a utentes de todas as faixas etárias para uma ampla gama de problemas, incluindo pequena cirurgia. Falei também sobre a formação em Portugal com a Dra. Joana Cristina Dias, Diretora de Internato do Núcleo de Coordenação de Aveiro.

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Na altura da minha visita, a USF tinha 8 internas, das quais 6 de Medicina Geral e Familiar e 2 do Ano Comum, e 2 estudantes de enfermagem.

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No geral, fiquei impressionado com o sistema português de Cuidados de Saúde Primários. Os médicos de família pareciam bem treinados e altamente motivados. Eles gostam de fornecer uma ampla gama de serviços para as famílias inteiras, apesar de o tempo médio por consulta (cerca de 15 minutos), por vezes não ser o ideal para prestar os cuidados adequados. Outros sistemas, muitas vezes limitam os médicos de família para determinados grupos etários (por exemplo, apenas adultos) ou limitam o tempo de consulta para 3-5 minutos por paciente. Estes limites reduzem o impacto positivo que os médicos de família podem ter sobre a saúde de seus pacientes e comunidades.

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Voltar ao Vasco

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Outro dos meus deveres agradáveis em Aveiro foi falar com os representantes em Portugal do Movimento Vasco da Gama (VdGM), em homenagem a um dos exploradores mais célebres da era dos Descobrimentos. Fundada em 2005, VdGM (www.vdgm.eu) foi o primeiro grupo internacional no mundo, formado por e para jovens médicos de família da Europa. O VdGM promove a educação e formação, intercâmbios dentro e fora da Europa (especialmente Canadá e América Latina), a pesquisa, e a imagem dos médicos de família e da Medicina Geral e Familiar. Tal como o seu homónimo que descobriu uma rota marítima para a Índia, o VdGM visa descobrir novos rumos para a Medicina Geral e Familiar.

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A reunião VdGM em Aveiro reuniu 30 jovens médicos de família, dos quais 13 tinham participado recentemente num programa de intercâmbio. O programa Hippokrates consiste num intercâmbio de 2 semanas, que permite aos participantes tomarem contato com os Cuidados de Saúde Primários de outro país, e o programa "mini-Hippokrates" está associado ao encontro científico de médicos de família do país anfitrião e oferece uma experiência de 1 semana numa unidade de saúde desse país. As unidades que recebem os colegas dos programas de intercambio, são aprovadas e monitorizadas regularmente, para garantir experiências de aprendizagem de qualidade. Os participantes do intercâmbio que participaram no Encontro vinham da República Checa, França, Luxemburgo, Rússia e Espanha. Foi inspirador ouvir os jovens médicos descreverem as suas experiências de intercâmbio e as perspectivas que ganharam ao passar algum tempo noutro sistema de cuidados de saúde. O seu entusiasmo para a Medicina Geral e Familiar e o seu compromisso em melhorar a saúde das pessoas que servem deu-me esperança para a nossa próxima geração de médicos de família.

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APMGF President João Carlos and

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Prof Rich Roberts in front of the Aveiro Health Center

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Mais sobre Vasco

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Intrigado com o nome escolhido por VdGM, fiz mais pesquisas sobre o Vasco da Gama. Os historiadores consideram a sua viagem à Índia como um momento preponderante na história humana. A sua viagem à vela por 10 000 km em mar aberto era, até então, impossível. É considerado um passo fundamental para a globalização. Mas assim como nas histórias mais heróicas, há muito mais para contar.

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Muitas vezes pensamos em heróis como figuras solitárias que superam grandes desafios. A maioria dos heróis no entanto, dependem de outros para a inspiração e apoio. Grande parte do sucesso do Vasco da Gama foi o resultado de outros que apoiaram ou antecederam.

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D. João II estava ansioso por acabar com a dependência da monarquia em relação à nobreza, construindo o tesouro real por meio do comércio. A Índia parecia ser a solução financeira para um problema político. O comércio de especiarias fora da Índia foi visto como uma oportunidade de ouro, desde que se encontrasse uma rota marítima. Até à expedição de Vasco da Gama, os venezianos controlavam grande parte do comércio europeu com a Índia através de uma rota do Médio Oriente. Consequentemente, o rei estava disposto a apostar num jovem capitão com 20 anos para encontrar uma maneira de contornar a África chegando à Índia. Exploradores anteriores, como o Infante D. Henrique e Bartolomeu Dias mapearam a costa Africana e provaram ser possível contornar o Cabo da Boa Esperança até ao Oceano Índico. Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva viajaram por terra pelo Médio Oriente, para confirmar a riqueza potencial do comércio de especiarias.

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Em 20 de Maio de 1498, Vasco da Gama e seus navios desembarcaram na Índia, mais de 10 meses após a partida de Lisboa em Julho de 1497. Vasco da Gama só regressou a Portugal em Agosto de 1499. Durante os 25 meses no mar, a expedição de Vasco da Gama perdeu mais de metade dos seus homens e dois dos seus quatro navios. As finanças e o poder de Portugal cresceram após a expedição de Vasco da Gama, mas não pelas razões que se poderia esperar.

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Os dois navios que o trouxeram de volta, estavam carregados com especiarias suficientes para produzir um retorno 60 vezes superior aos recursos investidos na expedição.

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O lugar de Portugal como uma força dominante nos mares foi garantido por esta viagem. No entanto, Vasco da Gama acabou por fracassar na missão de garantir contratos na Índia e na África Oriental para o comércio futuro. As suas táticas cruéis, como disparar canhões contra civis e cortar as mãos de comerciantes concorrentes, afastaram potenciais parceiros comerciais, que se recusaram a lidar com ele. Nos 20 anos seguintes, Vasco da Gama foi um político. Em 1519, depois de ameaçar emigrar para a Espanha como tinha feito Magalhães, Vasco da Gama foi nomeado conde de Vidigueria pelo rei D. Manuel I e tornou-se o primeiro conde de Portugal sem linhagem real.

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As lições do Vasco

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Não querendo ir longe demais com a analogia, acredito que a história de Vasco da Gama pode ensinar-nos algumas coisas sobre a Medicina Geral e Familiar. O ato heróico Vasco da Gama foi encontrar inspiração e usar o conhecimento aprendido com os outros para enfrentar um grande desafio e fazer uma ousada conquista. Os médicos de família têm uma visão igualmente ousada: um mundo mais saudável e mais justo, onde cada família tem um médico de família. Nós acreditamos nisso porque sabemos que ter um médico de família melhora a eficácia, eficiência e equidade dos serviços de saúde. Vamos atingir esta visão ao lembrar a sabedoria daqueles que nos precederam, respondendo às novas circunstâncias que possam surgir, e correndo riscos necessários. À medida que crescemos em número e influência, devemos estar conscientes de que nosso poder é conquistado através do nosso serviço aos outros. Não é um direito ou uma herança. O nosso desafio é superar os obstáculos (sem canhões ou amputações!) permanecendo fiéis ao sonho.

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Os jovens médicos de família VdGM em Aveiro fizeram-me lembrar os princípios básicos de liderança e a visão que nos guia. Estou certo de que o seu intelecto, inovação, entusiasmo e comprometimento nos levará a melhores cuidados de saúde e a um mundo melhor. Espero que os nossos descendentes olhem para trás daqui a 500 anos e cheguem à conclusão que os ajudámos a tornarem-se o tipo de médicos de família que precisamos, e que eles podem ser.

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Profesor Richard Roberts

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Presidente de WONCA

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Muito obrigado a Dra Verónica Colaço por sua assistência com o manuscrito ea tradução Português.

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Para aceder à notícia original em inglês, clique aqui
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