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Atualização em matérias que realmente interessam ao MF

Escola da Primavera APMGF 2018

A Escola da Primavera da APMGF voltou a realizar-se na Praia da Consolação neste ano de 2018, desta vez com a presença de 110 participantes, 97 deles formandos (35 integrados no Curso de Nutrição, 34 no de Ortopedia e 28 no de Dor Crónica). As três formações em causa foram desenhadas com o intuito de dar a melhor resposta possível às carências de formação e atualização dos médicos de família e internos da especialidade de MGF, incidindo sobre eixos de atuação centrais para a missão dos médicos que trabalham nos cuidados de saúde primários (CSP).

Encarar a dor crónica como uma doença e não como um sintoma

Uma das novidades deste ano na Escola da Primavera foi a realização pela primeira vez do curso de Gestão da Dor Crónica. O formador e coordenador científico do curso, Paulo Pina, defende que as consultas de dor crónica devem existir nas USF e UCSP, não nos hospitais, o que significa que é necessário que existam médicos de família (MF) “que pensem a dor, não como um sintoma, mas como uma doença. Assim, os conteúdos deste curso foram todos desenhados em torno de uma doença codificada no ICPC-2 e no ICD-10, a síndrome dolorosa crónica. Ou seja, o nosso alerta foi no sentido de que é urgente colocar os MF a pensarem a dor como doença e pesada co-morbilidade e não ver a dor como a consequência de uma artrite, de uma artrose ou de um cancro. Isto porque a presença da dor crónica é independente do dano que a explica”. Aos formandos foi oferecida a possibilidade de, por esta via, chegarem ao final da formação com a capacidade para classificarem bem a dor, analisarem os seus diversos componentes, avaliarem o seu impacto na atividade diária das pessoas e elaborarem um plano terapêutico que coloca o doente e a sua família no centro do sistema. No curso também foram abordados os fármacos usados para o controlo da dor crónica. Um campo de certo modo «minado», refere Paulo Pina: “qualquer MF pode e deve prescrever fármacos para o controlo da dor. Infelizmente, os profissionais deparam-se com muitos obstáculos quando têm o doente à frente, numa USF ou UCSP, como percebi pelo contacto com os colegas neste curso. Percebi que alguns têm acesso a tramadol ou morfina nas suas unidades, enquanto outros não. Deixámos aqui o repto de que quem tem de pedir os fármacos nos ACeS são os médicos, uma responsabilidade que não deve ser delegada nos enfermeiros, com muitas vezes sucede. Percebemos, neste pequeno grupo de formação, que em muitas unidades é o enfermeiro que faz os pedidos de farmácia. Ora um enfermeiro que não tem formação em dor não deve pedir fármacos destinados ao controlo da dor”. Por outro lado, o especialista em dor garante que, durante o curso, ficou a saber que em alguns locais são seguidos protocolos que não constam de nenhuma guideline internacional, que incluem por exemplo administração de tiocolquicosido ou diclofenac por via intramuscular.

Para Paulo Pina, este curso acabou por ser uma espécie de epifania para muitos dos jovens médicos, face à ausência de formação prévia específica nesta dimensão, acreditando que os formandos poderão ser “agentes da mudança nas suas unidades. Para tal têm de ser bem integrados e mostrar resiliência. Mas se levarem todo este contexto da dor como doença e não como sintoma, para os seus locais de trabalho, se derem visibilidade à dor, então teremos seguramente um caminho para trilhar”.

Segundo Regina Sequeira Carlos, coordenadora pedagógica do curso, não restam dúvidas de que o interesse foi manifesto e continuo ao longo dos três dias e meio de formação: “na ARS de LVT já realizámos formações deste cariz, mas mais curtas. Sabia que seria um desafio fazer um curso com tantas horas e com recurso apenas a um formador. Porém, conhecendo a capacidade e a experiência do Dr. Paulo Pina acreditávamos que seria um sucesso. E assim foi… no segundo dia do curso já passava das 20h00 e os formandos não abandonavam a sala, imersos na discussão da sua experiência e dos problemas com que se deparam”.

Um dos participantes do curso de dor crónica foi a interna do 2º ano Sara Reis (Centro de Saúde da Ribeira Grande – Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel). Aqui, descreve as razões pelas quais esta formação é indispensável: “vemos muitos doentes com dor crónica nas nossas consultas e nota-se que a maioria dos MF não está à-vontade com esta temática. O mesmo se passa comigo, que sentia alguma dificuldade para ajudar estes doentes. Por outro lado, tenho familiares com dor crónica, o que significa que a nível pessoal conheço bem os desafios e aquilo porque passa um doente com dor crónica”.

Sara Costa (interna do 4º ano na USF do Castelo – Sesimbra) também fez parte deste curso e explica as suas motivações para se deslocar até à Escola da Primavera e a esta formação em especial: “julgo que muitos MF, por defeito, consideram que o doente com dor crónica será tratado no hospital pelo oncologista ou pelo reumatologista, por exemplo. Este curso vem de certa forma empoderar o MF na abordagem do doente com dor”. Mesmo após ter feito no passado um workshop intensivo e um estágio de dor com a duração de um mês, Sara Costa sentiu que os conhecimentos reunidos por si “para o dia a dia clínico não eram suficientes”. Olha para esta formação como uma forma de “espicaçar ainda mais o interesse sobre a dor, a abordagem integrada do doente e áreas paralelas como a prestação de cuidados paliativos”.

Curso de Ortopedia com uma intensa dinâmica “hands-on

O curso de Ortopedia teve orientação científica de Rui Amaral, diretor do Serviço de Ortopedia do Hospital de Torres Vedras, que congregou à sua volta uma equipa de sete especialistas em temáticas ortopédicas específicas (coluna, ombro, punho/mão, Ortopedia infantil, etc.), com o intuito de abordar matérias realmente importantes para a consulta do MF. Para os fundamentos e construção do curso muito contaram os problemas detetados pelos ortopedistas quando comunicam com os colegas dos CSP ao nível da referenciação. Do ponto de vista prático, a formação envolveu simulações do exame objetivo com voluntários, com recurso a uma marquesa, com vista a apurar técnicas apropriadas de avaliação e de deteção de sinais de alarme. Também foram discutidos casos clínicos. Segundo Vanessa Antunes, uma das coordenadoras pedagógicas do curso, “a formação na área da Ortopedia ao longo do internato é escassa, até porque é encarada como um domínio mais cirúrgico. Todavia, uma enorme franja dos nossos doentes têm doença ortopédica e apresentam várias queixas osteoarticulares que muitas vezes temos dificuldade em gerir”.

Débora Batista, interna do 2º ano da USF Eborae (Évora) e participante no curso de Ortopedia reflete precisamente tal realidade: “sentia algumas falhas de preparação nesta área, após a formação pré-graduada e pensei pois que seria uma excelente oportunidade para consolidar conhecimentos, sobretudo porque o curso tem uma grande componente prática. A minha formação em Ortopedia durante o internato de MGF decorrerá apenas no próximo ano e, desta forma, fazer este curso é também uma maneira de me preparar melhor para esse estágio”, esclarece a jovem médica.

CSP têm de encontrar os mecanismos certos para educar do ponto de vista da nutrição

O curso de Nutrição é sempre muito procurado nas Escolas da APMGF e nesta Primavera a tendência repetiu-se. A equipa liderada José Luís Themudo Barata (docente do Departamento de Ciências Médicas da Universidade da Beira Interior – UBI) encontrou formandos muitos motivados.

“Apesar do surgimento de algumas modas alimentares diferentes nos últimos anos, as necessidades de formação dos médicos e as necessidades de alimentação das populações continuam a manter uma certa constância. Por isso, é tão importante que as faculdades de Medicina comecem a incluir nos seus currículos esta matéria, como acontece com a minha faculdade, a primeira a nível europeu que contemplou uma cadeira anual e obrigatória de Nutrição e Atividade Física no 4º ano do curso de Medicina”, explica Themudo Barata. Contudo, para melhorar o apoio dos CSP ao nível da nutrição não basta melhorar a formação pré-graduada, ou pós-graduada dos MF (como acontece neste curso). É também essencial pensar em formas inteligentes de organizar os cuidados, garante o professor da UBI: “os MF possuem muito pouco tempo disponível e é difícil e extremamente moroso fazer educação alimentar e outro tipo de abordagens na consulta individual com o utente. Temos de evoluir – dentro de uma ótica de literacia em saúde das populações – para a criação de grupos de aconselhamento e treino em estilos de vida. Aí, o MF pode aplicar os seus conhecimentos e realizar a formação nesta área, deixando para a consulta individual apenas aquilo que tem de ser personalizado”.

Para Leandro Fernandes, interno do 4º ano na UCSP de Vila Meã, estar neste curso de nutrição significa introduzir no seu currículo e conjunto de competências algo que estava em falta: “a área da nutrição é fundamental na nossa prática diária e é muito pouco explorada nas faculdades de Medicina e na formação pós-graduada, porque de facto não se aposta muito no ensino desta vertente. O curso da Escola da Primavera acaba por ser uma oportunidade que temos para colmatar tal lacuna”. Para este formando, os participantes do curso saíram “mais preparados para fornecer conselhos alimentares a utentes que têm as suas especificidades e patologias”.

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