Política de saúde
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Médicos lançam fortes críticas à tutela por promover indiferenciação médica

Segundo dia consecutivo de paralisação

No segundo dia consecutivo de greve nacional de médicos (este convocado pela Federação Nacional dos Médicos – FNAM) e com uma taxa de adesão dos profissionais a rondar, de acordo com os dados dos próprios sindicatos, os 80%, na maioria dos serviços de cuidados primários e secundários, ficaram evidentes as fraturas entre a classe médica e a equipa que atualmente gere o Ministério da Saúde. Na concentração de rua promovida pela FNAM em frente à sede do Ministério, João Proença (presidente daquela estrutural sindical) frisou que urge “englobar os jovens médicos que hoje não tem lugares diferenciados de qualificação e fazê-los entrar para os internatos e para os serviços públicos de saúde. É inaceitável termos neste momento 4 mil médicos que não fazem qualificação e uma exigência nacional que participem na substituição dos nossos médicos. Mas para que isto aconteça, é preciso que existam concursos para o grau de consultor e assistente graduado sénior, de outra forma será impossível dar a formação adequada aos jovens médicos”.

Constança Carvalho, presidente da Associação de Médicos pela Formação Especializada, deixou claro nesta manifestação que “o governo – e em particular este Ministério da Saúde – não só têm esquecido o investimento na melhoria das condições de trabalho e na qualidade da formação médica já existente, como também têm aprofundado irresponsavelmente as políticas desastrosas de governos anteriores, que atentam contra a qualidade da formação médica em Portugal, levando a que muitos colegas se vejam impedidos de completar a sua formação. Calculamos que, este ano, cerca de 1200 jovens médicos vão ficar sem acesso à especialidade. São 1200 médicos que podiam ser integrados no SNS, enquadrados em equipas, que daqui a quatro a seis anos se tornariam especialistas, os especialistas que tanto parecem faltar ao SNS e aos cidadãos”. De acordo com Constança Carvalho, estes jovens são antes “lançados a um limbo”, tendo como únicas três opções possíveis “emigrar, trabalhar a recibos verdes para empresas de prestação de serviços ou tentar de novo a sua sorte, num exame que exclui cada vez mais candidatos a cada ano que passa”.

Bernardo Vilas Boas, ex-presidente da USF-AN e dirigente do Sindicato dos Médicos do Norte, sublinhou que é “essencial reforçar o investimento no SNS. Não há Estado social ou democrático sem serviço público de qualidade e proximidade e o SNS é a principal conquista do 25 de Abril, que precisamos de garantir”. Mais, o dirigente declarou que “não há nenhuma limitação da Europa do capital, nenhum suporte às dívidas da banca que justifique a falta de investimento no SNS. Como trabalhadores médicos não reclamamos nada que não seja justo. O que reclamamos é condições de trabalho, organização eficiente nos hospitais e centros de saúde e remunerações dignas para o trabalho que realizamos e responsabilidades que temos”.

O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, também passou pela João Crisóstomo e mostrou-se convicto de que o impacto da greve não passou despercebido, em especial junto dos decisores: “eles sabem porque esta greve teve tão grande adesão e um tão grande apoio por parte de todos quantos trabalham na área da Medicina”. Arménio Carlos, por outro lado, não aceita argumentos de limitação financeira para justificar carências nos serviços públicos de saúde: “não nos venham dizer que não existe dinheiro para investir no SNS ou para responder às vossas reivindicações (…) no tempo da troika não havia condições, depois não se podia dar o passo maior do que a perna. Agora que a economia está a crescer, eles dizem que não há condições para melhorar a vossa carreira, reduzir o número de doentes, reduzir o horário de urgência de 18 para 12 horas mas, curiosamente, há condições para continuarem a contratar empresas de trabalho temporário e pagarem-lhes três ou quatro vezes mais do que pagam aos médicos do SNS”.




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