Carta aberta aos portugueses, de um médico recém-especialista em MGF

Portugueses, sei que muitos de vós estão neste momento sem médico de família. Sei que estão preocupados com a COVID-19 e com todas as outras doenças que continuam a existir e que têm receio de não ter apoio do Centro de Saúde quando tiverem algum problema, porque os médicos que lá trabalham já estão sobrecarregados.

Foi-vos dito nos finais de Julho que seriam colocados 435 médicos de família (recém-especialistas) nos Centros de Saúde de Portugal. Também nos foi dito a nós. E inscrevemo-nos no concurso. E queremos escolher uma vaga. E todos os dias esperamos por novidades. Mas nada. Nós continuamos “presos por um fio” ao Serviço Nacional de Saúde e vocês continuam sem médico de família.

Temos sido cobardes e temos estado calados. Temos aguardado que o SNS avance com o processo. Claro que temos sido úteis e continuamos a “tapar buracos” onde é mais necessário, mas a população vai mostrando o seu descontentamento quando pergunta “Então e o doutor é que vai ser o meu médico de família?” – Não, não vou, estou só aqui temporariamente, mas em breve será colocado alguém que será mesmo o seu médico de família…

E quando dizemos em breve não queremos enganar ninguém, nós achávamos mesmo que seria em breve… Mas na verdade aqui continuamos, pendurados num local temporário, suspensos, em toda a nossa vida profissional e familiar.

Queremos ajudar as pessoas e até o governo no atingir da meta de todos os portugueses terem médico de família… Mas teimam em atrasar essa nossa vontade.

Enquanto isso, atrasamos também o comprar casa, o casar, o ter um filho… porque não sabemos para onde vamos nem quando vamos.

E assim querem que um médico continue a trabalhar no serviço público. Sem comunicação, sem motivação, sem respeito.

Esperemos que em breve haja novidades, que possamos finalmente escolher uma vaga e recomeçar num novo local de trabalho onde os utentes esperam ansiosamente por nós. Porque enquanto isso não acontecer haverá mais um e outro e outro médico a abandonar o SNS. Porque não somos de ferro. Somos pessoas. Seres humanos.

Espero que nos compreendam e que nos apoiem. Continuem a lutar pelo direito que têm de ter médico de família. Pode ser que assim o SNS se lembre que nós existimos, que estamos disponíveis, que estamos à espera.

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