Comunidades compassivas podem ser solução para cuidados paliativos mais próximos e abrangentes

Na mesa «Cidades Compassivas», que marcou o arranque das 2ªs Jornadas do Grupo de Estudos em Cuidados Paliativos (GEsPal) da APMGF, foram dados a conhecer os primeiros projetos de cidades/comunidades compassivas fundados em Portugal, em Borba, Amadora e Porto. As cidades/comunidades compassivas procuram desenvolver redes comunitárias, com o apoio de entidades públicas e privadas locais, para além de voluntários a título individual, com vista a melhorar a qualidade de vida e o suporte aos doentes em fim de vida, respetivas famílias e cuidadores.

De acordo com a moderadora da sessão, Catarina Pazes (enfermeira na Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos Beja+), “as comunidades compassivas levam a uma consciencialização da comunidade em geral para os cuidados paliativos e a uma responsabilização pelo bem-estar dos outros que todos devemos ter”, acrescentando que os projetos descritos nesta mesa-redonda simbolizam “um movimento que está a acontecer já no terreno e que não pode voltar atrás”.

Silvia Corrales Villar, médica de família na USF Quinta da Prata de Borba e presidente da Associação Borba Contigo Cidade Compassiva, testemunhou que todos quanto estão envolvidos ou são tocados pelos cuidados paliativos enfrentam enormes desafios numa base diária e que parte da resposta para os ajudar “reside na comunidade”, já que esta pode desempenhar o papel de “parceiro na complexa tarefa de oferecer apoio a doentes em fim de vida, suas famílias e cuidadores”. Aquela médica de família admite que nem sempre é fácil mobilizar a população e as instituições para esta grande missão: “muitas vezes é difícil sair do nosso cantinho e do nosso conforto para ir ajudar. Mas sabemos que a compaixão pode ser cultivada e sentimo-nos na obrigação de o fazer!”.

Na perspetiva de Elsa Mourão (médica de cuidados paliativos na comunidade na Coop LInQUE e coordenadora do Projeto Amadora Compassiva), o concelho na periferia de Lisboa no qual o seu projeto está a criar raízes surgiu com um território natural para este tipo de iniciativa: “na Amadora não existe ainda equipa comunitária de suporte em cuidados paliativos e a nossa cooperativa tem acompanhado muitos doentes em final de vida neste concelho, pelo que conhecemos as dificuldades de uma comunidade envelhecida e cujos membros não estão preparados para cuidar”. Para Elsa Mourão, avançar com esta ideia significou dar asas a um sonho: “construir uma sociedade em que a solidão não seja a norma, na qual possamos melhorar a qualidade de vida das pessoas com doença avançada e em que as pessoas em final de vida se sintam compreendidas e cuidadas”.

Mariana Abranches Pinto, presidente da Compassio – Associação para a Construção de Comunidades Compassivas (entidade co-responsável em conjunto com o Centro Hospitalar São João pelo projeto Porto Compassivo), ressalvou que “o projeto no Porto tem pouco tempo de existência”, mas frisou também que os seus promotores “acreditam muito nele e neste sonho das cidades compassivas”. Iniciado em janeiro de 2020, antes do confinamento ditado pela pandemia o Porto Compassivo conseguiu desenvolver várias atividades, com destaque para Death Cafes (eventos nos quais os participantes se reúnem para conviver e discutir um tema que já não pode ser tabu, a morte) e workshops de capacitação ao nível dos cuidados paliativos. “Quisemos, sobretudo, mudar mentalidades, reativar redes de cuidados e lembrar às pessoas a importância do cuidar (…) ao mesmo que reforçamos a noção de que todos nos devemos envolver. Não podem ser só os serviços de saúde ou sociais a assumir esta tarefa, já que a comunidade é, por excelência, o terceiro braço dos cuidados compassivos”.

Jornadas do GEsPal «adotam» o digital, sem perder o relacional

Na abertura do evento, a coordenadora do GEsPal e membro da comissão científica das jornadas, Helena Beça sublinhou que “estas 2ªs Jornadas são num formato diferente, mas com o mesmo objetivo, contribuir – ainda que de forma modesta – para a divulgação e o desenvolvimento dos cuidados paliativos em Portugal ao nível dos profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários e dos cuidados paliativos e, ao mesmo tempo, alertar outros profissionais e a comunidade para a importância do acompanhamento adequado e justo dos doentes em fim de vida e das suas famílias”.

Helena Beça agradeceu ainda “a todos os palestrantes, que receberam e aceitaram o nosso convite com grande entusiasmo e disponibilidade, à custa da sua agenda pessoal e apesar de problemas que os afetam neste momento (…) e também aos colegas que abdicaram do seu tempo livre nas últimas semanas e que participaram na organização destas jornadas”.

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