Esperança e espiritualidade são indissociáveis dos cuidados paliativos

Encerraram com chave de ouro as 2ªs jornadas do Grupo de Estudos de Cuidados Paliativos (GEsPal) da APMGF, este ano realizadas num modelo on-line. Na mesa «Esperança e Espiritualidade» foram analisados estes dois conceitos que muitos poderão considerar estranhos ou esotéricos, num universo clínico, mas que na verdade assumem uma grande importância ao nível dos cuidados paliativos.

Enric Benito (oncologista, professor em cuidados paliativos e membro honorário da Sociedad Española de Cuidados Paliativos – SECPAL) começou por recordar nesta sessão que “a realidade é muito mais do que aquilo que a ciência pode entender” e que os profissionais que trabalham em cuidados paliativos não podem perder o foco naquilo que é vital para o doentes: “quando nós, enquanto médicos, nos centramos na leucocitose, nos fervores crepitantes, na febre, no infiltrado pulmonar, quando nos esquecemos que estamos face a face com uma pessoa, então a nossa Medicina é muito pobre, materialista e limitada”.

Para Enric Benito, “espiritualidade é uma palavra que procura englobar a nossa visão mais profunda como seres humanos e a nossa consciência”, sendo como tal algo indispensável no final das nossas vidas, que não pode ser descartado por quem cuida: “a espiritualidade é a dimensão por explorar do campo clínico no século XXI. Julgo que hoje assistimos a todo um despertar da ciência pós-materialista. Com isto, não quero dizer que devemos renegar a ciência, mas antes que é fundamental termos uma ciência que integre a experiência humana e não apenas os fatores objetiváveis e quantificáveis”.

O especialista espanhol ressalvou, nestas jornadas, que espiritualidade não deve ser entendida como sinónimo de religiosidade: “a religião é um veículo, que pode permitir à pessoa conectar-se com esse território que é a profundidade da nossa consciência. Mas, na verdade, cada um de nós pode aceder, ou não, à espiritualidade através da religião”.

Do ponto de vista de Ana Querido (membro do Observatório Português de Cuidados Paliativos e coordenadora do Grupo de Espiritualidade em Saúde da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos – APCP), os “médicos de família são os profissionais de saúde que melhor conseguem olhar para a pessoa doente numa perspetiva holística, colocando de lado o órgão que adoece”, pelo que lhes assenta perfeitamente uma abordagem em cuidados paliativos que inclua o respeito pela espiritualidade e saiba estimular, de forma correta e justa para o doente, a esperança. Ana Querido frisa que é importante para quem cuida de alguém em final de vida compreender o que significa esperança para aquela pessoa em especial: “as pessoas precisam de sentir-se únicas e reconhecidas no seu processo de morte. Se começar a retratar o que é normal e o que expectável que aconteça no processo de morte, estou a colocar todos os doentes num saco e isso não traz esperança às pessoas e não permite que elas tomem uma consciência antecipada do que lhes irá acontecer. Como tal, temos de ouvir as pessoas e depois colocarmo-nos ao serviço daquilo que elas nos dizem que é esperança, para si”.

Por último, a coordenadora do Grupo de Espiritualidade em Saúde da APCP sugeriu aos médicos de família que trabalhem todas estas variáveis relacionadas com a esperança, na medida em que estas são aptidões que não podem ser dadas como adquiridas por um profissional de saúde: “a esperança treina-se, trabalha-se, operacionaliza-se. Não estamos a falar de um conceito abstrato. Isto da mesma forma que a espiritualidade se descobre, se aprofunda, se coloca ao dispor de nós próprios e dos outros”.

Cristina Galvão (médica paliativista e especialista em Medicina Geral e Familiar, além de coordenadora da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos Beja +), moderou este debate e afirmou que os médicos de família apresentam (em comparação com outras especialidades) três vantagens para a administração desta terapêutica não farmacológica que é a esperança: “primeiro, conhecem há muito tempo o doente, a família e o contexto. Segundo, têm a possibilidade de realizar consultas com maior frequência para o doente e para a família e, em terceiro lugar, podem visitar o doente no domicilio, ambiente em que são recebidos, ao invés de abrirem a porta do consultório para receberem o outro”.

No derradeiro dia de trabalhos das 2ªs Jornadas do GEsPal foram também conhecidas as fotografias vencedoras do concurso promovido pela organização. Isabel Chaves e Castro recebeu o terceiro e segundo prémios, pelas fotografias «Em casa, connosco» e «Memórias e Afetos». Já o primeiro prémio foi entregue ao interno de MGF Jorge da Silva, pela fotografia «Um último abraço?».

 

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