Novas formas de fumar não eliminam risco e mantêm muitos dos malefícios do tabaco tradicional

O tabagismo tem-se revelado um inimigo formidável da saúde pública e um enorme desafio, para todos os profissionais que trabalham mais de perto com as doenças respiratórias. Recentemente, com a introdução de novas tecnologias associadas ao consumo de produtos derivados do tabaco (entre as quais se destacam o tabaco aquecido e os cigarros eletrónicos) surgiram dúvidas, mesmo na comunidade médica, sobre o real perigo destes produtos e sobre a possibilidade de haver um benefício na transição do tabaco tradicional para as novas tendências de consumo.

Nas 6ªs jornadas do GRESP, Carlos Gonçalves, médico de família no Millennium BCP e membro da Coordenação do GRESP, expôs de modo elucidativo toda a evidência científica que aponta em sentido contrário e que demonstra como estes novos consumos comportam um risco evidente para saúde dos portugueses e um potencial altamente lesivo para o sistema respiratório. É, portanto, vital começar a clarificar desde logo os contornos deste consumo, a começar pelos chamados cigarros eletrónicos, como explicou Carlos Gonçalves: “é um mito pensarmos que o consumidor ou vapeador está a vapear só nicotina, o que significa que este tabaco não pode ser utilizado para cessação tabágica. Além da nicotina, este tipo de tabaco comporta substâncias químicas comparáveis ao tabaco tradicional, embora em menores quantidades”.

O médico de família recordou ainda, que os fabricantes deste tipo de tabaco foram autorizados a inserir nos seus produtos um conjunto de substâncias habitualmente utilizadas na indústria alimentar e cosmética que comportam um risco significativo, para além de sabores, algo que tem sido vedado ao tabaco tradicional pela razão de que poderá atrair utilizadores de idade mais jovem: “o cigarro eletrónico contém uma combinação de centenas de químicos (sabendo-se que quanto mais químicos combinamos maior o risco para a pessoa), sendo que a maior parte destes químicos não foi testada e termos de uso inalatório (…) Depois, há que perceber por que razão os sabores foram proibidos nos cigarros tradicionais e se permitem no cigarro eletrónico…”. A resposta parece evidente e dados libertados em estudo publicado este ano pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que 78% das mortes e casos de lesões pulmonares graves atribuíveis ao vaping ocorrem em pessoas até aos 34 anos de idade.

Já sobre o designado tabaco aquecido, Carlos Gonçalves recordou que o filtro de polímero que existe nas recargas colocadas nestes dispositivos derrete e liberta cianohidrina a partir do formaldeído em meio alcalino (a 90º), substância muito tóxica mesmo em baixas concentrações: “sabemos, também, que este tipo de dispositivos contém até 84% da nicotina encontrada nos cigarros convencionais e as mesmas substâncias tóxicas e cancerígenas. Mas a propaganda vende e nós permitimos que uma droga que causa dependência pela nicotina seja vendida abertamente num aeroporto como o de Lisboa, em stands colocados em locais de circulação”.

 

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