Pandemia agravou problema da resistência aos antimicrobianos

Durante a sessão «Infeções respiratórias, resistências e antibióticos: o bom, o mau e o vilão», integrada no programa das 6ªs Jornadas do GRESP, Filipe Froes (pneumologista do Centro Hospitalar Lisboa Norte e coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Médicos) defendeu que os recentes meses que atravessámos sob o jugo da COVID-19 intensificaram o problema já reconhecido das resistências aos antimicrobianos, face ao desconhecimento que existia relativamente à doença: “a pandemia originada pelo SARS-CoV-2 desencadeou o aumento da prescrição de antibióticos. Agravámos as resistências aos antimicrobianos no decurso da pandemia, porque como não sabíamos o que fazer e tínhamos medo de falhar, na dúvida prescrevemos antibióticos. Tomemos, por exemplo, a azitromicina, que fazia parte dos esquemas iniciais da abordagem à doença conjuntamente com a hidroxicloroquina. Neste momento, já sabemos que é uma opção sem benefício e eventualmente com perigosidade. Mas a verdade é que em muitos casos deu-se azitromicina e promoveu-se ainda mais as resistências”.

O pneumologista reforçou que as resistências aos antimicrobianos constituem “uma realidade premente, que merece a atenção de todos nós” e acrescentou que os doentes afetados por micro-organismos resistentes a praticamente todos os agentes conhecidos, embora raros, aparecem por vezes nos serviços de saúde e suscitam desafios complexos: “nos últimos três anos, tenho uma média de cinco/seis casos de doentes que são sensíveis a apenas um antibiótico. Recentemente, no meu hospital, tivemos uma doente jovem que sobreviveu graças a um antibiótico que tinha sido licenciado há muito pouco tempo na Europa e que veio de Espanha para a salvar. Este problema das resistências aos antimicrobianos não é um problema sem rosto. Estamos a falar de pessoas que têm nome, que têm face e que podem pertencer à nossa família”.

Filipe Froes sublinhou ainda que a traqueobronquite aguda continua a ser “uma das principais causas de utilização indevida de antibióticos. Isto sabendo-se que na ausência de suspeita de pneumonia, não se justifica a utilização de antibióticos no tratamento desta condição”. Por último, o pneumologista alertou para o facto de que todos os profissionais de saúde e a população em geral deveriam tomar consciência definitiva de que o recurso a antibióticos tem uma dimensão individual, mas também uma dimensão coletiva: “os antibióticos, ao contrário de outros fármacos como os antidiabéticos orais ou os antihipertensores, por exemplo, têm um efeito individual e um coletivo. Reconhecemos que o antibiótico tem grandes benefícios terapêuticos, que devemos salvaguardar, representa um grande avanço civilizacional (…) mas encontramos promoção de resistências no próprio e na comunidade. Este facto distingue o antibiótico de todos os restantes fármacos”.

Eurico Silva, médico de família na USF João Semana e membro da equipa gestora do Programa de Apoio à Prescrição de Antibióticos do ACeS Baixo Vouga, apresentou nesta sessão aquele programa, uma verdadeira experiência de mudança gradual de padrões de prescrição – centrada em monitorização constante – e relembrou: “o bom (o antibiótico) pode deixar de atuar sobre o mau (a infeção) e pode transformar-se em vilão, quando promove as resistências bacterianas. Daí a importância de olharmos para estes caminhos de monitorização e replicá-los em todas as unidades e ficheiros clínicos”.

Já a médica de Saúde Pública e membro da equipa nacional do Programa de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos, Ana Félix, garantiu que todos os médicos de família devem, em conjunto com a sua equipa de saúde, dar passos seguros no sentido de refletir sobre as suas práticas de prescrição de antibióticos e atuar com celeridade para corrigir eventuais desvios: “é preciso sair um pouco da acomodação do dia-a-dia, evoluindo no conhecimento, na atitude e na prática (…) É também necessário o profissional ter resiliência e expor-se para, com alguma humildade, partilhar com os colegas aquilo que se sabe, no sentido de que a sua experiência (de alguém que prescrevia de uma determinada forma e passou a prescrever de outra) fique à disposição dos pares”.

 

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