Os desafios de um início de carreira «pandémico»

Todos os jovens médicos de família tiveram de reajustar a sua realidade profissional e pessoal em 2020 e 2021, face às atividades e responsabilidades COVID, com os utentes à distância, a obrigatoriedade em muitos casos de trabalhar nas ADC e ADR ou, posteriormente envolvimento nos esforços de vacinação e recuperação assistencial. Este foram, de facto, anos muito difíceis para se ser um recém-especialista de MGF, circunstância de que deram nota na primeira pessoa Aldara Braga (UCSP Terras de Bouro), Mónica Fonseca (USF Sofia Abecassis), Inês Madanelo (UCSP Vila Nova de Paiva), Sara Domingues (UCSP Carapeços) e João Girão (USF Salus), na mesa-redonda do 19º ENIJMF intitulada «Ser recém-especialista em tempo Covid».

Para João Girão, que assumiu a sua lista de utentes numa unidade de saúde de Évora no inicio do Verão de 2020, esta foi uma conjuntura terrível e injusta para todos, a começar pelos doentes: “assim que me começaram a conhecer como o seu MF, em junho, de repente são confrontados com dificuldades de acesso, quer pelas restrições impostas pela pandemia, quer pelo facto de eu integrar um equipa Covid e passar a prestar muita da minha atividade fora da unidade. Os problemas para agendar consultas foram imediatos e foi muito constrangedor balancear prioridades, para mais quando estamos a falar de utentes que naturalmente se sentiram frustrados, já que passaram muito tempo sem cuidados e MF e depois se veem obrigados a lidar com estas limitações”.

“A fase mais difícil e desafiante para mim acabou por ser aquela em que tive de realizar trabalho de coordenação nos ADR dos ACeS onde estava colocada. Fazia cerca de 40 horas semanais no ADR e tinha de lidar com todos os problemas que surgiam, quer a nível organizativo, quer da prestação de cuidados. Tive de me capacitar e de ajudar a capacitar uma equipa de profissionais que foram contratados para estas atividades. Na realidade, acabei por desenvolver um espírito de liderança que até ali não sabia que tinha”, confessa Sara Domingues.

Embora tudo o que ficou trás tenha sido penoso e não vá deixar saudades, a verdade é que os recém-especialistas têm, nos meses que se avizinham, outra tarefa hercúlea pela frente, a de procurar recuperar a atividade assistencial perdida durante o período mais crítico da pandemia. A este propósito, Inês Madanelo recorda que tal empreitada de recuperação não pode ser desligada do terreno desnivelado em que muitos médicos de família portugueses atuam: “de uma vez por todas, temos de ter a coragem de dizer que o problema de fundo reside em não termos unidades ponderadas e ajustadas nas nossas listas. As atividades que nos são solicitadas hoje pelos utentes, os contactos indiretos, as vigilâncias, os seguimentos, as intersubstituições, tudo isto se enquadra nas tarefas do MF, nada disto é extraordinário. Agora temos de perceber que não podemos voltar a remedeios e que estamos no limiar das nossas capacidades (…) alguém tem pegar no estudo desenvolvido pela APMGF e pelo colega Tiago Maricoto e perceber que muitos médicos estão hoje em exaustão plena. Precisamos de unidades ponderadas e ajustadas, porque não temos uma situação condigna para a prática da MGF. Em relação ao plano de retoma, o que vamos fazer na nossa unidade é apenas o possível…”.

Ainda a propósito dos planos de retoma e do sistema de incentivos criado para estimular a recuperação assistencial, Mónica Fonseca tem uma opinião muito particular: “este plano de incentivo à retoma assistencial deixou-me vexada e considero que é uma provocação, por tentar contratualizar e impor metas como antigamente (…) até aceitaria uma contratualização e um plano de incentivo à retoma como razoáveis se devolvessem as funções ao médico de família e deixássemos de desenvolver as atividades extra que desenvolvemos hoje, o que não o caso. Na minha unidade vamos pois fazer aquilo que podemos, com as condições que temos”.

Na unidade de Aldara Braga, a equipa de saúde decidiu tomar a atitude mais benéfica para os utentes, sem necessidade de planos especiais de retoma: “percebemos neste momento que ser MF não é tratar de diabéticos, ou hipertensos, mas sim tratar de pessoas. Assim sendo, de uma forma interna decidimos abrir a unidade em pleno e estamos a funcionar em moldes pré-pandemia. Notámos, entretanto, uma clara diminuição dos conflitos com os utentes e uma redução evidente da atividade não presencial (o que melhorou muito a nossa qualidade laboral).

 

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