APMGF garante que aumento de utentes sem MF era expectável e resulta de aposentações, falta de condições de trabalho e de atratividade

Após se ter tornado pública a informação de que, no final do último mês de junho, existiam 1,057 milhões de portugueses sem médico de família – MF – (mais 19,5% do que em junho de 2020 e mais 32,5% do que em junho de 2019), o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) explicou a múltiplos meios de comunicação social (RTP, RDP, TVI, TSF, Porto Canal) as diversas razões que ajudam a explicar este fenómeno, a começar pela falta de atratividade do SNS para muitos recém-especialistas de MGF, a ausência de investimentos sólidos nos cuidados de saúde primários (CSP) e o aumento já antecipado e conhecido de aposentações de MF no ativo. À TSF, Nuno Jacinto ressalvou que “tem havido um grande número de reformas de MF, porque muitos colegas estão na casa dos 65, 66, 67 anos de idade. Portanto, já era expectável e todos sabíamos que existiria um pico de reformas de MF em 2021, 2022 e nos próximos anos”. Todavia, o dirigente associativo acrescenta que o aumento de utentes a descoberto não pode ser apenas explicado pelas aposentações: “nem todos os colegas que acabam a especialidade são colocados porque o SNS, infelizmente, acaba por não ser atrativo para muitos dos jovens colegas que agora iniciam a carreira. Depois, há que não esquecer que no meio desta pandemia e de todo este processo a forma como os MF têm sido tratados deixa muitos colegas descontentes, acabando estes por deixar o SNS e seguir outras opções”. Assim, para Nuno Jacinto todos estes ingredientes indesejáveis contribuem para “uma situação mais preocupante, na qual em vez de estarmos a diminuir o número de utentes sem médico assistimos a um contexto que tende a agravar-se”.

À RTP/RDP, Nuno Jacinto frisou ainda que “as condições de trabalho vividas nos derradeiros meses têm deixado muitas pessoas desiludidas com o SNS, assumindo estas outras opções de carreira”. À estação pública o presidente da APMGF explicou, por outro lado, que embora tenha sido lançado recentemente um novo concurso para ingresso de recém-especialistas de MGF no SNS, “a experiência de anos anteriores diz-nos que nem todos os colegas aceitarão as vagas apresentadas”. Todos estes fatores acumulados resultam no atual panorama, “em que aumenta o número de portugueses sem MF atribuído”. O dirigente relembrou que estes utentes sem MF “representam uma sobrecarga assistencial para os centros de saúde muito difícil de gerir. São pessoas que, na sua esmagadora maioria, estão inscritas em centros de saúde, têm direito a aceder às chamadas consultas sem médico ou serviços de doença aguda, pelo que estas situações têm de ser orientadas e resolvidas pelos nossos colegas, que já têm as suas listas para cuidar e acompanhar. Tudo isto faz com que os centros de saúde, já sob uma grande pressão assistencial (para mais nesta época de pandemia), tenham ainda mais dificuldade em responder”.

Em direto na RTP 3, Nuno Jacinto explicitou ainda que “há um desânimo crescente dos profissionais relativamente às condições de trabalho nos centros de saúde”, recordando que “já antes da pandemia se verificavam grandes carências ao nível das instalações, equipamentos, recursos humanos e tecnológicos”, carências essas que ajudavam e ajudam a explicar o afastamento de muitos especialistas de MGF. O presidente da APMGF vaticinou, inclusive, que “se não forem dadas condições aos profissionais e se a atual situação não for corrigida” é natural que o número de utentes sem MF aumente ainda mais.

Ao Porto Canal, Nuno Jacinto sugeriu que esta época sanitária difícil que atravessamos pode ser aproveitada para um volte-face no que respeita aos recursos médicos nos CSP, às suas missões e incumbências, às suas condições de trabalho: “os momentos de crise são também, tradicionalmente, momentos de mudança. Porém, o que temos visto nos últimos meses é que a situação se tem mantido inalterada e que em alguns casos os problemas pioraram. Os MF têm cada vez mais tarefas colocadas sob a sua responsabilidade, que impedem que possamos manter a vigilância dos doentes crónicos, grávidas e crianças (…) Esta pandemia pode ser um momento de grande reflexão e nós estamos disponíveis para isso, para voltar a delinear qual é o papel dos CSP e dos centros de saúde, o que só nós MF conseguimos fazer, garantindo que estes cuidados abrangem toda a população”.

 

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