Nuno Jacinto – “Existe uma multiplicidade de carências essenciais na MGF que não desapareceu com a pandemia”

No rescaldo dos primeiros seis meses de mandato dos órgãos sociais eleitos no final de 2020, o presidente da Direção Nacional da APMGF, Nuno Jacinto, reconhece que estes são tempos desafiantes, mas acredita que a Associação está a conseguir dar resposta às necessidades dos médicos de família portugueses, aliando os seus valores tradicionais a uma nova visão para o futuro, que passa pela inclusão e valorização de todas as opiniões e contributos. O dirigente sublinha ainda que muitos dos problemas que afetam a especialidade não só não deixaram de se fazer sentir com a pandemia como se aprofundaram, pelo que 2022 (com o expectável declínio da crise sanitária) pode ser um ano decisivo para infletir rumos, transformar processos e influenciar poderes instituídos.

 

Dentro daquilo que seriam as expectativas realistas que uma Direção Nacional teria para o seu primeiro semestre de atividade, num ano difícil como o de 2021, sentem-se satisfeitos com os resultados alcançados?

Nuno Jacinto – O balanço é globalmente muito positivo. É claro que temos sempre de nos adaptar às circunstâncias que vamos vivendo e, aliás, já sabíamos de antemão que seriamos condicionados pela pandemia, quando arrancámos com este projeto. Uma das nossas fortes apostas foi na área da formação e demos vários passos no sentido daquilo que pretendemos, a começar pela garantia de independência do Encontro Nacional de internos e Jovens Médicos de Família, mas também com a organização do Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar (MGF) em moldes um pouco diferentes, em setembro, com as Escolas em formato virtual e com múltiplos webinars, a propósito de temas como a Covid-19 e o processo de vacinação que esta origina. Aprofundámos nesta área também parcerias com outras sociedades e com a indústria farmacêutica. Por outro lado, estamos a dar igualmente passos relevantes num campo vital como o da investigação, uma vez que trabalhamos com afinco para que a breve prazo existam mais apoios à investigação em MGF.

A APMGF não deixou, durante este semestre, de se manter ativa no «jogo de influências» da saúde, apesar das restrições, confinamentos e alterações de rotinas…

Foi significativo relançar aquilo que podemos designar por peso institucional da APMGF. Durante os últimos meses – que foram, de facto, muito intensos – realizámos reuniões com a Sra. Ministra da Saúde, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), a Associação Nacional de USF (USF-AN), a Ordem dos Médicos, os sindicatos médicos e sociedades congéneres. Assim, tivemos a oportunidade de expressar junto destes parceiros as nossas preocupações relativamente ao papel dos cuidados de saúde primários (CSP), às dificuldades que a MGF enfrenta hoje em dia e ao enorme trabalho que a especialidade tem desenvolvido nos últimos meses. Certamente que é possível sempre fazer mais e não vamos agora descansar, olhar para trás e deleitarmo-nos com os êxitos, até porque um determinado grau de insatisfação fará com que queiramos fazer melhor e atingir mais objetivos. Sublinhe-se que fomos eleitos para um triénio, passaram somente pouco mais de seis meses desse mandato e temos perfeita noção de que o nosso caminho é longo. Mas cá estaremos, com toda a vontade e dedicação para o percorrer.

Julga que a APMGF em 2022 (com a pandemia previsivelmente já controlada) conhecerá sucesso em frentes como o fortalecimento de parcerias internacionais ou o contributo para a consolidação da reforma dos CSP?

Quero acreditar que em 2022 o controlo da pandemia já permita que desenvolvamos o nosso trabalho de outra forma. Claro que tais atividades não estão paradas e temos mantido contacto, por exemplo, com a WONCA Mundial, a WONCA Europa, ou com as sociedades representadas na Confederação Ibero-americana de Medicina Familiar. Contudo, não podemos deixar de admitir que um pouco por todo o globo se nota hoje esta dificuldade em desenvolver trabalho associativo de cooperação internacional. Esperamos que estes problemas possam ser ultrapassados daqui em diante, à medida que a pandemia for sendo mais controlada em todas as regiões. A nível sócio-profissional e no nosso país, a realidade é similar. É um facto que as organizações (sejam as ligadas ao Ministério da Saúde, sejam as sócio-profissionais) estão a movimentar-se, mas permanecem muito envolvidas e concentradas no combate à pandemia, preocupadas com as medidas que é necessário tomar de imediato. Isto faz com que se torne complexo intervir nas medidas de fundo e a longo prazo, mas estas não se encontram esquecidas. Falamos, aqui, de aspetos como a dimensão das listas de utentes dos médicos de família (MF), a reforma dos CSP (que continua a evoluir a duas ou três velocidades e que urge modificar), questões relacionadas com o tempo protegido para os orientadores de formação, para a investigação ou docência, os concursos para os recém-especialistas, a contratualização nos CSP (que em 2021 decorre de uma forma estranha ou menos ortodoxa, sem ter em conta a realidade no terreno) ou a evolução dos internatos de MGF. Existe uma multiplicidade de carências essenciais na MGF que não desapareceu com a pandemia. Não há dúvida que esta condiciona muito a ação de todos, mas não podemos ficar imobilizados. Espero mesmo que, em 2022, consigamos desenvolver um trabalho mais profundo, que possibilite avanços em várias destas áreas cruciais, de forma a que as equipas de saúde não saiam prejudicadas no meio de burocracias que pouco levam em conta o seu trabalho quotidiano.

Um dos desígnios apresentados pela vossa lista, aquando das últimas eleições, era o de assegurar uma maior participação e inclusão dos sócios na experiência associativa. Julga que essa meta está a ser atingida, ou ainda é muito cedo para tirar ilações?

Talvez ainda seja cedo para um balanço, mas são evidentes os sinais positivos. Temos conseguido envolver colegas que estavam mais afastados das lides associativas, chamando-os a contribuir nos nossos eventos, por exemplo. No Encontro de Internos e Jovens MF contámos com o apoio das comissões regionais de internos e, no próximo Encontro Nacional de MGF, será a vez das delegações terem uma participação ativa na organização de mesas. Pelo meio, há que destacar os contributos dos grupos de estudos e também de imensos colegas que, a título individual, têm enviado para a Direção Nacional da APMGF críticas, sugestões e ideias…. É muito bom sentir esta ligação. O nosso propósito tem sido o de procurar envolver os sócios em toda a linha, na construção dos programas científicos, realizando sondagens para perceber que temas os MF portugueses querem ver discutidos, sempre com o desejo de ir ao encontro daquilo que eles precisam. Ainda a este nível, estudamos atualmente a possibilidade de realizar uma nova reunião de quadros, num formato ainda a definir, que possa juntar as pessoas das delegações, grupos de estudos e órgãos nacionais, a fim de que em conjunto possamos refletir sobre o papel da Associação. Diria que apesar de termos vivido seis meses num contexto de pandemia, conhecemos uma resposta muito positiva dos sócios e uma total vontade de colaborar, sempre que solicitamos apoio. Por isso digo, com segurança, que se tem vindo a concretizar o tal objetivo de integrar cada vez mais colegas no projeto associativo.

Se tivesse de eleger apenas uma grande conquista a alcançar pelos órgãos nacionais até ao final de 2021, o primeiro ano do vosso triénio, qual seria?

Um dos nossos eixos programáticos era precisamente o da defesa da qualidade do exercício da MGF. Ora a este propósito temos defendido em termos públicos que, independentemente do contexto de pandemia, temos de voltar a ser médicos de família por inteiro, para todos os nossos utentes. Assim, ficaríamos muito satisfeitos se até ao final de 2021 víssemos reconhecida de forma clara a importância da MGF e da APMGF na organização do sistema de saúde e que nos conseguíssemos sentar com quem tem autoridade para decidir e perspetivar a centralidade a dar aos CSP, daqui para a frente. Pensar no que podemos fazer para ajudar nesta fase de pandemia, é certo, mas sobretudo no nosso contributo no pós-pandemia, que há-de chegar. Em acréscimo – e até que se regularize a situação sanitária – era muito importante que ficasse desde já definido que os CSP não podem ser deixados sozinhos na luta pandémica, em prejuízo da população. Obviamente não viramos as costas às nossas responsabilidades momentâneas, mas temos de ter tempo para realizar todas as nossas atividades regulares, tempo para estar nas unidades de saúde, ver os doentes, acompanhá-los em permanência. O objetivo de alcançar essa «normalidade» implica ultrapassar a pandemia que nos afeta mas não só, passa também por garantirmos os recursos humanos, materiais e tecnológicos que nos têm faltado. Seria muito bom que, ainda em 2021, os decisores começassem a ouvir esta nossa pretensão e a dar passos seguros para que isso se concretize no curto prazo.

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