José Mendes Nunes – “Não acredito numa cultura construída exclusivamente no contacto virtual”

De acordo com o presidente da Mesa da Assembleia Geral da APMGF, na primeira metade de 2021 os novos corpos dirigentes da Associação trabalharam muito para manter viva a chama da colaboração inter-pares, com uma aposta forte em figurinos de formação inovadores, sobretudo na dimensão on-line. Ainda assim – e apesar das grandes potencialidades do universo virtual – José Mendes Nunes acredita que os momentos difíceis que ultrapassamos serviram também para relembrar a todos que “o contacto físico é importante para a construção do conhecimento e da cultura de MGF”.

 

Como avalia a transição de órgãos sociais e os primeiros seis meses de atuação dos novos corpos dirigentes, numa fase difícil para o SNS, os médicos de família (MF) e os portugueses?

José Mendes Nunes – Nos tempos que correm, manter a APMGF viva já é obra. No entanto, destaco a manutenção da relação com todas as instituições, a realização do Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos num formato inovador, autónomo e virtual, a preparação do 38º Encontro Nacional de MGF, numa tentativa de retorno à normalidade, para além do retorno à Escola de MGF. Sublinho que estas iniciativas representam um esforço redobrado, pois exigem a criação de cenários alternativos (virtual e presencial). É como se tudo tivesse que ser feito em duplicado. Tudo isto complicado por os novos órgãos não se poderem encontrar presencialmente. Todos compreenderão o quanto isso é importante para criar espírito de equipa, tanto mais que são órgãos novos.

Os MF, em particular, têm conhecido com o desenrolar da atual pandemia enormes alterações à sua rotina profissional e pessoal, com tempo não clínico cada vez mais limitado. Qual deverá ser o papel da APMGF nesta fase, com vista a apoiar os profissionais no âmbito formativo, científico e de investigação?

Defender publicamente e perante as autoridades que devem escutar os cuidados de saúde primários em geral e os médicos de família em especial, perante as decisões que têm e devem tomar. Aquilo que temos visto é que nas decisões se ouvem todos os “especialistas” que não estão no terreno, mas aos médicos de família ou aos enfermeiros de família, nunca lhes é pedida a opinião, quando são eles os reais executantes do maior volume de trabalho no combate à pandemia: prevenir os contágios, seguir os contaminados, vacinar sem descurar os cuidados aos restantes problemas de saúde. Sim, porque há muitos mais problemas para além da Covid e não é mais grave morrer por Covid do que por uma outra causa. Se nos tivessem ouvido (a médicos e enfermeiros de família), alguns erros poderiam ter sido evitados, muito desperdício podia ter sido reduzido e menos disruptivo poderia ter sido o combate à pandemia.

A APMGF tem apostado de forma significativa, durante os últimos meses, nas iniciativas on-line para conservar as “ligações” entre os representantes da especialidade. É este o caminho a seguir a curto e médio prazo?

Não tenho capacidade para prever o futuro, mas não tenho dúvidas que as iniciativas on-line vão fazer parte dele. Todavia, creio que o futuro não pode ser reduzido a essa forma de comunicação. Julgo que as iniciativas presenciais potenciarão os resultados do on-line e vice-versa. Para além disso, os contactos presenciais são fundamentais para a preservação da saúde mental dos profissionais e, creio que todos estão de acordo, garantir a qualidade do “fármaco médico” é do interesse da saúde das populações que temos o dever de servir.

A nível pessoal, teme que o afastamento físico dos MF e internos da especialidade, que cada vez mais contactam apenas com os colegas do seu grupo de trabalho restrito, possa ser lesivo para o avanço da MGF no nosso país e quebre a dinâmica de partilha de boas práticas que a APMGF sempre promoveu?

Desde os primórdios da especialidade que dizemos “não se isolem”. O nosso conhecimento é construído no estudo honesto e na interação com os outros. Construímo-nos mostrando aos outros o que e como fazemos e estando atentos à informação de retorno. O isolamento enfraquece os indivíduos e os grupos. Não acredito numa cultura construída exclusivamente no contacto virtual. O contacto físico é importante para a construção do conhecimento e da cultura de MGF. Sendo a MGF uma especialidade integradora, ou melhor, mais do que uma especialidade é uma forma “especial” de ser médico e de produzir saúde, é importante que crie a sua própria cultura. Se somos uma especialidade de relação temos que nos relacionar e a MGF de qualidade é um fator para que existam bons especialistas hospitalares e para os sistemas de saúde serem inclusivos e sustentáveis. É preciso que cada médico de família tenha um horizonte que vá muito para além da fronteira da sua unidade de saúde. Admiro os colegas que ao longo de anos trabalharam nas unidades de saúde isolados, que resistiram sem abandonarem as suas populações, para mim, são os heróis. E aqui aproveito para lhes prestar a minha homenagem. Mas lamento e repudio as condições que os isolaram e como os abandonaram, sem que as autoridades tenham tido qualquer esboço de mitigação desse isolamento. A APMGF, com a promoção de encontros locais, regionais, nacionais e internacionais, tem uma importante missão em prol dos médicos de família e, assim, da saúde das populações que, afinal, é única razão de existência da MGF.

Nas últimas semanas, a opinião pública em Portugal ficou a conhecer aquilo que já era evidente para quem trabalha diariamente nos centros de saúde, que os profissionais estão exaustos e demasiado envolvidos em atividades não clínicas que os impedem de dar o devido apoio à sua lista de utentes. Será necessário que a APMGF, em conjunto com a OM ou outras organizações do setor, assuma posições de alerta mais enérgicas junto da tutela, para reverter esta situação?

As posições devem ser claras e para as clarificar, mais uma vez, é importante o contacto entre todos os membros das organizações. Podemos sempre dizer que ações de alerta mais enérgicas são fundamentais. Mas a definição de ações enérgicas depende do seu efeito persuasivo. Claro que o nosso objetivo deve ser levar quem tem poder de decisão a compreender que tem um problema importante para resolver. Mas se para nós o problema é a saúde da população (ou a ausência dela) para os dirigentes o problema é não criar ruturas durante o seu mandato, não agitar águas tranquilas (ou populações passivas) e muito menos criar noticias que os média exploram ad nauseam para manter audiências ou leitores. E aqui se levanta outro problema: já não sei se é mais importante persuadir decisores políticos se os média. Veja-se o que tem acontecido em tempo de pandemia, todos dão opinião, todos estão representados nos grupos de “peritos”, mas os médicos de família ou os enfermeiros de família estão completamente ausentes, apesar de serem eles que estão na linha da frente. Claro que são precisas ações mais enérgicas. É preciso que o Médico de Família deixe de ser visto como quem “está lá para quando tudo o mais falha”, para passar a ser visto e assumido como quem “está lá para que tudo o mais não falhe”. Para isso é imprescindível que a alocação de recursos e a organização dos sistemas de saúde tenha esta premissa na sua conceção e construção. Sem assumir este princípio, quem sofre é a população.

 

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