Paulo Santos – “Desejamos ter uma Revista que seja um marco importante na produção científica da MGF a nível europeu e mundial”

Com um corpo editorial reestruturado e uma nova versão da sua plataforma eletrónica a entrar em cena, a Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (RPMGF) mostra cada vez mais ambição, na tentativa de solidificar-se como a grande publicação de referência na área da Medicina Geral e Familiar (MGF) e dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) em Portugal, mas também de captar a atenção de autores e leitores além fronteiras, pela sua qualidade, rigor e pertinência. Nesta entrevista, o Editor-Chefe da RPMGF, Paulo Santos, explica as potencialidades da versão da plataforma estreada neste mês de agosto, a transformação das regras de submissão de artigos operada recentemente e a filosofia que a equipa editorial da Revista pretende imprimir daqui em diante, com vista a estimular mais e melhor ciência enraizada na MGF.

 

A RPMGF conheceu uma extensa renovação a partir do segundo número de 2021, correto?

Paulo Santos – Sim, no segundo número de 2021 avançámos para uma nova estrutura, encabeçada pelo Professor Alberto Pinto Hespanhol. Assumi a função de Editor-Chefe, o Professor Tiago Maricoto continuou como Editor-Adjunto e a Dra. Ana Rita Jesus Maria e a Professora Ana Luísa Neves juntaram-se ao grupo, também como Editoras-Adjuntas. É uma equipa mais alargada na estrutura e também nos objetivos delineados, que passam não apenas pela condução editorial da revista, mas por uma lógica de internacionalização, de conseguirmos estar na mira de autores internacionais, que estejam atualmente a publicar na área dos CSP e da MGF e que possam ver na nossa Revista um veículo interessante para publicar os seus trabalhos.

Mas o que justifica esta vontade de ancorar autores estrangeiros?

Não temos a perspetiva de que os autores internacionais sejam melhores que os portugueses, apenas por serem internacionais! Queremos tornar a revista mais conhecida, fazendo dela um marco da publicação científica internacional, na área dos CSP.

Esse sonho de internacionalizar a revista, com indexação potencial a grandes bases de dados, é uma meta traçada desde há longa data pela APMGF. Como é que a nova equipa dará passos práticos para avançar nesse sentido?

Em primeiro lugar, devemos arrumar a casa do ponto de vista editorial, um processo fundamental neste momento. Aliás, tivemos duas avaliações realizadas pelos indexantes (Scopus e PubMed) que nos apontam um conjunto de problemas que devemos resolver. Há que dizer, a este propósito, que enfrentamos algumas dificuldades no que respeita aos revisores da Revista, uma vez que é difícil encontrar profissionais com experiência em revisão de artigos para revistas científicas, que se abstraiam das questões gramaticais e linguísticas (para as quais temos colaboradores qualificados) e que consigam antes orientar a parte científica. Existe, de facto, neste domínio um grande trabalho ainda por fazer. Outra das lacunas que nos apontaram é a de que temos poucos artigos escritos em inglês e que, como tal, a Revista dificilmente seria citada no contexto internacional. Esta é um aspeto discutível. Sabemos, é verdade, que escrever em português significa chegar a uma audiência relativamente reduzida a nível mundial mas também é certo que existem muitas revistas científicas brasileiras com artigos em português, dispondo apenas de abstracts em inglês, que estão indexadas, o que significa que este não tem sido um grande constrangimento para tais publicações. Inclusive, a Acta Médica Portuguesa publica a maioria dos seus artigos em português e isso não impediu que se tornasse indexada. Portanto, mais importante do que o objetivo final de ter os textos divulgados numa determinada língua, apenas pela língua em si, é a circunstância de esse processo nos aproximar de um público alvo internacional, porque é isso que faz toda a diferença. Ao conseguirmos mostrar a Revista junto do público científico internacional, ao torná-la visível e conhecida junto dos pares de outros países, seremos capazes de estabelecer um networking global e, a partir daí, captar maior interesse de autores com trabalhos de referência que desejem publicar na RPMGF. Este é um esforço que temos tido dificuldade em desenvolver, no passado, mas que é vital prosseguir e aprofundar. Mas para que isso se concretize é igualmente urgente que encurtemos o período global de revisão dos artigos, que tem sido tradicionalmente longo, devido a vários fatores entre os quais se inclui a já referida carência de revisores qualificados.

De que forma podem estimular o aumento dessa pool de revisores qualificados? Através de oferta de formação específica, de algum programa de cooperação com universidades ou centros de investigação?

A formação é uma componente fundamental, claro, até porque ninguém nasce ensinado e, portanto, de alguma forma é preciso aprender como se faz a publicação e a revisão científica. Outro caminho é o de chamar os que já têm experiência de publicação científica e conhecem estes processos por dentro, na medida em que passaram por eles no passado em determinada posição (como autores, revisores, ou nos dois papéis), podendo assim contribuir com o seu know-how para a nossa Revista. E queremos aproveitar a nossa rede de relacionamentos já estabelecida, enquanto forma de chegar também a novos autores e revisores, apoiando-nos neste trabalho em espírito de cooperação e parceria.

Na vossa ótica, reafirmar internacionalmente a RPMGF é também, de certo modo, reafirmar a MGF portuguesa? As duas coisas são indissociáveis…

São, de facto, indissociáveis. A MGF portuguesa fez um percurso notável, no que respeita à implementação das características fundamentais da especialidade. Repare-se o que aconteceu agora durante esta fase critica para os sistemas de saúde com a COVID-19, onde demonstramos uma enorme capacidade plástica, conseguindo absorver com alguma facilidade o choque da pandemia, ajustando prioridades quando foi necessário. Se olharmos aqui para o lado, para os nossos vizinhos espanhóis, vemos aliás que a maior parte dos problemas que sentiram estiveram relacionados com a circunstância de os doentes serem descarregados sobre a rede hospitalar. Em Portugal, conseguimos manter a esmagadora maioria das pessoas infetadas com o vírus (mais de 95%) fora da rede hospitalar. É claro que isto se verificou à custa de descurar outras áreas importantes, mas de qualquer forma percebemos que foi preciso arregaçar as mangas e dar resposta a novas necessidades em saúde: a MGF esteve à altura e respondeu bem.

Registaram-se recentemente alterações às normas de publicação da Revista, certo?

Sim, estamos a dar sequência a um trabalho que já foi iniciado há algum tempo atrás e que agora consolidamos, no sentido de aproximar as normas de publicação da RPMGF àquilo que são os padrões científicos internacionais. Ou seja, pretendemos que as pessoas, quando olharem para as nossas normas, compreendam que as regras são similares à que encontram em publicações como a Family Practice, a American Family Physician ou o European Journal of General Practice, já que a filosofia, a metodologia de avaliação e o tipo de publicação são os mesmos. Estas são as revistas com as quais nos queremos comparar, é o grupo de publicações do qual ambicionamos fazer parte em definitivo, aos olhos dos autores e leitores internacionais.

Um objetivo e uma promessa de longa data da RPMGF é a do encurtamento do intervalo de tempo entre a submissão inicial do artigo e a publicação final do mesmo… Poderemos ter boas notícias, a breve trecho, no que concerne a este aspeto?

Trata-se de algo fundamental e que muito desejamos, mas não faz sentido estar aqui a prometer irresponsavelmente que tal acontecerá já, no imediato, até porque tal depende da reorganização da equipa e do já mencionado “arrumar de casa”. Em primeira linha, o que pretendemos é alcançar um tempo de edição que não ultrapasse os trinta dias, para uma primeira decisão. Foi o desafio que colocámos a nós mesmos há quatro anos e que não conseguimos ainda atingir. Mas continuo a ter esta meta em mente e acredito que podemos lá chegar. Aliás, a única forma de termos connosco autores que habitualmente publicam em revistas de qualidade e referência é assegurarmos um tempo curto de decisão. Isto depende muito da eficácia da nossa equipa, da “gente da casa”, mas também do grupo de revisores. Posso dizer que conseguimos alargar muito, nos últimos anos, a rede de revisores. Quando chegámos à Revista, tínhamos pouco mais de 70 revisores inscritos na plataforma, boa parte deles sem qualquer revisão feita nos últimos meses. No presente, temos cerca de 400 revisores inscritos na plataforma, com um alargamento a profissionais especializadas em determinados processos de doença e áreas setoriais. Agora, depois da fase da quantidade, temos a importante tarefa de aumentar também a qualidade das revisões, cuja fasquia está ainda abaixo dos padrões que gostaríamos de manter. Todas estas variáveis são críticas para atingir o objetivo de uma primeira resposta editorial em trinta dias após todos os documentos serem submetidos.

Falemos então das mudanças que se registam neste mês na plataforma da RPMGF… Que alterações vão ser sentidas?

Temos vindo a trabalhar com a plataforma Open Journal Systems (OJS), que foi implementada há alguns anos atrás. Trata-se de uma plataforma interessante, muito utilizada por publicações de referência (a Acta Médica Portuguesa, por exemplo, também a usa), mas até agora estávamos a operar numa versão mais antiga. A atualização da mesma é um processo complexo, razão pela qual durante este mês de agosto toda a atividade da Revista tem de ser interrompida, no sentido de efetivar a última versão da plataforma. Uma vez atualizada, trará diversas vantagens, entre as quais a possibilidade de uma publicação contínua. Isto é, o artigo é aceite e fica automaticamente com um Digital Object Identifier (DOI) atribuído centralmente, um número de identificação digital único, através do qual qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, poderá aceder ao artigo em causa, muito antes desse mesmo artigo ter uma paginação e um volume associado na Revista. Esta possibilidade é relevante dentro da dinâmica atual de publicação científica e muito valorizada pelos autores, já que assim os seus artigos podem ser acedidos, citados e referenciados pela comunidade científica com maior celeridade, sem que tenhamos de esperar que todo o processo editorial esteja terminado. Outra grande vantagem é a articulação desta nova versão da plataforma não apenas com as redes sociais mais comuns que a generalidade da população usa, mas também com as redes sociais da área científica, tal como a ResearchGate, ou ferramentas de pesquisa como a Google Scholar. No período pós-Covid, a dimensão científica on-line ganhou outra preponderância (não temos hoje dúvidas de que o ambiente virtual de partilha de ideias e ciência veio para ficar) e, por isso, precisamos de uma plataforma de publicação moderna, que responda às novas necessidades e formas de trabalho. Esta última atualização – OJS 3.3 – oferece-nos estas capacidades e coloca-nos mais perto dos leitores, quer os leitores que nos acompanham há mais tempo (a RPMGF continua a ser uma das publicações médicas mais lidas em Portugal), quer os leitores mais recentes que poderão, sobretudo na esfera internacional, começar a citar os nossos artigos para a produção de novo conhecimento.

 

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