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No (Re)Encontro dos MF invoca-se esperança e respeito por quem se dedica à prestação de cuidados de proximidade

Neste final de setembro, o 38º Encontro Nacional de MGF marcou o (Re)Encontro de muitos médicos de família em Braga, forçados a perder ou restringir os seus contactos interpares por força da pandemia. Muitos outros, espalhados pelo país e pelo mundo, por via eletrónica também acompanham e participam nos trabalhos, na procura de se manterem atualizados. O evento conta este ano com aproximadamente 1100 inscritos e foram submetidas mais de 100 comunicações orais e mais de 200 posters.

“Estes últimos meses foram das horas mais negras, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Sendo nós os médicos da linha da frente, como muitas vezes nos apelidam, é natural que tenhamos sido chamados para muitas tarefas relacionadas com a pandemia e nem sempre da forma mais adequada, ou justa. O certo é que estivemos sempre lá e cumprimos sempre o que nos foi pedido. Quando chegou o momento da vacinação, muitos profissionais dos CSP também foram chamados a colaborar e de uma forma inexplicável ficámos sozinhos nessa missão”, recordou o presidente da APMGF, Nuno Jacinto. O dirigente associativo destacou que tudo isto, mais o acompanhamento dos doentes não Covid, foi feito com enorme dedicação, bom senso e entrega e gerou intenso cansaço. Contudo, apesar do inegável esforço dos MF e demais profissionais dos CSP, a gratidão parece não abundar nas esferas mais elevadas do poder, como sugere Nuno Jacinto: “infelizmente, muitas destas atitudes foram apelidadas de cobardes, mas cobardes não fomos certamente nestes momentos”. O presidente da APMGF acredita que mais do que discursos retumbantes são precisas ações concretas de reconhecimento e acrescenta que nos últimos tempos o que os MF mais têm ouvido são “palavras inconsequentes ou até silêncios desrespeitosos”. Agora que a pandemia finda, Nuno Jacinto considera “urgente que exija voltar a ter nas nossas mãos o futuro para os CSP, para que possamos continuar a prestar os cuidados de qualidade a que sempre habituamos os nossos utentes e que eles merecem”. E porque os MF raramente ouviram uma nota de agradecimento, nos últimos anos, o presidente da APMGF fechou a sua intervenção na abertura dos trabalhos com uma declaração de apreço aos participantes no evento: “obrigado pelo vosso trabalho, obrigado por estarem sempre disponíveis para os vossos utentes e colegas, obrigado por estarem connosco”.

Para o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), foi evidente o “excesso brutal de trabalho que os MF tiveram durante esta pandemia” e que estes profissionais de saúde se revelaram fundamentais para evitar o descalabro: “contrariamente àquilo que os políticos às vezes dizem, não foram apenas os médicos de cuidados intensivos a salvarem vidas. Vocês, MF, salvaram milhares de vidas, acompanharam os doentes diariamente e orientaram para os hospitais os doentes que necessitavam de ser orientados. Além de terem tido um papel determinante na gestão de todos os outros doentes, que acabaram por ser prejudicados”.

O bastonário da OM fez ainda questão de recordar o episódio infeliz ocorrido há algumas semanas e que envolveu uma polémica entrevista do ministro Manuel Heitor, que parecia sugerir o encurtamento da formação específica dos MF: “foram declarações dramáticas. Ainda ontem recebi da Federação Europeia de Médicos Assalariados, a organização que representa todos os médicos sindicalizados da Europa, uma manifestação de completo desagrado pelas declarações do ministro da Ciência,Tecnologia e Ensino Superior (…) foi grave a forma como o Sr. Ministro se dirigiu à MGF, para mais quando a nossa organização em termos de MGF é um exemplo para o país. Temos recebido rasgados elogios de várias partes do mundo, dos EUA à Europa, à forma como temos conseguido organizar a Medicina Familiar, à qualidade do programa de formação e do trabalho realizado pelos MF todos os dias, razão pela qual somos copiados em muitos locais. Assim, as palavras do Sr. Ministro são inaceitáveis, não respeitam os MF e não valorizam uma peça central do SNS”.

Convidado a participar na abertura dos trabalhos em Braga, o secretário de Estado da Saúde veio ao 38º Encontro Nacional com a clara intenção de mostrar resultados e empenhamento do governo na evolução dos CSP e da carreira médica, começando por revelar os médicos de família presentes que na véspera fora aberto um procedimento concursal para o grau de consultor e que em breve será iniciado processo de disposição de vagas para o grau de assistente graduado sénior. Frisou também o facto de em 2021 terem sido aprovadas mais 20 USF em modelo A e autorizada neste final de setembro a transição de 20 outras unidades do modelo A para o modelo B. Para o governante, esta é uma demonstração de que o executivo está comprometido com os CSP. E acrescentou que a meta de uma equipa de saúde familiar para cada português, apesar de mais distante em 2021, não caiu por terra: “estamos conscientes da dimensão deste desafio, mas não vacilaremos na procura de mecanismos e ferramentas para cumprir este objetivo e para isso, obviamente, sabemos que precisamos do contributo de todos”.

CSP não podem regressar ao período pré-pandemia, mas sim evoluir para algo mais positivo

Júlio Machado Vaz, psiquiatra, sexólogo e comunicador-mor, considerou na conferência inaugural do 38º Encontro Nacional que o número de portugueses que permanece sem MF “é deprimente” e que “quando nos debruçamos sobre o funcionamento e as condições básicas para melhorar o sistema de saúde, os lamentos sucedem-se. Ora um velho ditado popular, que aqui se justifica, diz-nos que não há fumo sem fogo”. Para esta grande figura da Medicina portuguesa, são hoje evidentes nos CSP em Portugal fatores como “falta de autonomia e efetiva descentralização”, sem esquecer uma “articulação periclitante entre os diversos níveis de cuidados de saúde, sistemas informáticos deficitários, a ausência de articulação eficaz com a segurança social, sem a qual não é possível amenizar as determinantes sociais da doença, como sublinhado pela OMS”.

O psiquiatra sublinhou ainda em Braga que os CSP apresentavam já na fase pré-pandémica um quadro muito negativo, que apenas se acentuou no último ano e meio: “foram-lhe acometidas tarefas burocráticas e de acompanhamento a que deviam ter sido poupados, no interesse da população em geral e da saúde física e mental dos profissionais”. Mais, Júlio Machado Vaz acredita que muita da incompreensão que o povo português possa ter face ao trabalho dos MF e à atividade dos centros de saúde durante a pandemia nasce de uma falta de vontade em comunicar com verdade, por parte das autoridades de saúde: “se o poder não sublinha o trabalho dos CSP, como pode esperar inverter a visão hospitalocêntrica dominante há décadas no país e convencer os cidadãos a valorizar o trabalho exaustivo, mas quase silencioso, das equipas de saúde familiar, sobretudo quando este se compara com as imagens de ambulâncias à porta de urgências ou descrições dramáticas do que se passa nas UCI?”.

Em suma, Júlio Machado Vaz defende que “desconfinar os CSP não pode corresponder ao regresso a uma época já confinada, com os limites e entraves já colocados então” e recordou que a “voz corrente nos diz que as crises abrigam oportunidades”, pelo que será fundamental pensar bem no que aconteceu durante a pandemia para reformular o sistema de saúde e os CSP com uma visão mais integradora.

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