Profissionais dos cuidados paliativos só podem fazer bem se estiverem bem

Na última mesa redonda das 3ªs Jornadas do GEsPal, intitulada «Auto-cuidados do profissional», foram aflorados aspetos de uma dimensão fundamental para a garantia da qualidade dos cuidados paliativos (CP) prestados aos doentes e respetivas famílias: a segurança de que os profissionais de saúde envolvidos têm a sua saúde física e mental preservadas, graças a estratégias que colocam em prática e os protegem de uma atividade clínica que pode ser extenuante.

“Somos muito formatados para cuidar do outro, sermos profissionais, executarmos técnicas e procedimentos. Em todo este processo, perdemos por vezes consciência que, em primeiro lugar, para ser profissional que cuida tenho de me utilizar a mim próprio, enquanto instrumento terapêutico. Portanto, utilizar-me a mim próprio na relação terapêutica implica que eu tenha um tempo de olhar para mim”, defendeu Ana Querido, investigadora do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde da Universidade do Porto – CINTESIS, membro do Observatório Português de Cuidados Paliativos e da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, onde coordena o Grupo de Espiritualidade em Saúde.

Maria Aparício (enfermeira especialista em cuidados paliativos comunitários no St. Christopher’s Hospice – Reino Unido), recorda que no último ano e meio a sua visão de como poderia salvaguardar-se e auto cuidar-se se transformou por completo, face à ausência de muitos dos trunfos que dava como certos: “tinha muito claro o que era o auto-cuidado antes da pandemia e que sabia cuidar de mim própria, mas tal acontecia porque estava em equilíbrio. De repente, a COVID traz-nos um enorme desequilíbrio e confrontei-me com o facto de a forma com que procurava me equilibrar não ser já suficiente. Antes, poderíamos ter esta atividade algo desgastante (já que lidar com o sofrimento pode ser desgastante), mas tínhamos igualmente coisas no nosso dia-a-dia que nos compensavam e sobre as quais nem detínhamos grande consciência”. Assim, para Maria Aparício será crucial que neste momento todos quantos trabalham em CP deem um passo chave: “temos de parar, parar e pensar quem sou eu e como posso agora carregar as minhas baterias”.

A este propósito, Enric Benito (oncologista, professor em cuidados paliativos e membro honorário da Sociedad Española de Cuidados Paliativos) sugere que este carregamento de baterias só será eficaz e duradouro se for feito no próprio contexto profissional: “é certo que devemos auto cuidar-nos através do contacto com os amigos, com a natureza, a arte, a criatividade, ou a meditação, por exemplo, mas é preciso acima de tudo carregar as baterias durante o trabalho. Na relação de ajuda é quando surge a melhor oportunidade para o fazer e o segredo é a autoconsciência, manter-me desperto, atento e lúcido. Isto porque quando tenho um nível muito elevado de consciência estou conectado com as minhas sensações corporais e esta introspeção alerta-me em relação à emoção do outro e permite-me regular essa emoção e, sobretudo, possibilita que fique bem consciente de qual é o meu papel”.

Susana Magalhães (professora auxiliar na Universidade Fernando Pessoa, investigadora auxiliar no i3S e professora convidada no Instituto de Bioética – Universidade Católica Portuguesa) lembrou que muitos profissionais de saúde que trabalham nesta área se queixam de “não ter nenhum espaço dentro da sua instituição onde possam, de forma livre, sem medo de retaliação ou receio de ser colocado à parte, falar daquilo que são más práticas ou erros, ou de sentirem dificuldades em falarem do sofrimento que estão a viver, porque tinham uma relação especial com um doente que morreu (…) é bom que numa instituição que cuida de outros haja espaço para nós sermos cuidados”.

No encerramento dos trabalhos, Helena Beça, coordenadora do GEsPal, considerou ter ficado nestas jornadas “bem evidente a importância do envolvimento dos CSP na prestação deste tipo de cuidados aos doentes em fim de vida e às suas famílias. Percebemos, também, que há um impacto muito grande em termos de qualidade de vida e conforto destes doentes, porque há um maior controlo sintomático, um número mais reduzido de idas ao serviço de urgências e de internamentos e a concretização mais provável de o doente morrer no local da sua preferência”.

A fechar as jornadas foram ainda revelados os prémios do concurso de fotografia associado ao evento. O terceiro prémio foi entregue a Isabel Chaves e Castro, pela fotografia «Juntos numa noite descansada», o segundo foi atribuído a Ana Raquel Borges e à sua imagem «Memória física» e o primeiro prémio coube também a Isabel Chaves e Castro, graças à fotografia «Gostava de poder passear contigo!».

 

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