Comunicado – Médicos de Família sublinham incoerências na luta contra a Covid-19

Lisboa, 29 de dezembro de 2021 – Com a brutal escalada de novos casos de Covid-19 verificada entre a população portuguesa – que nos poderá levar até perto de 40 mil novos casos diários em janeiro de 2022 – a situação vivida nos centros de saúde está a deteriorar-se, colocando em risco a qualidade dos cuidados prestados aos utentes e indo para além dos limites de resistência dos profissionais que ali desenvolvem a sua atividade. Neste contexto, a Direção Nacional da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), que representa os médicos de família que todos os dias dão o seu melhor no terreno, sente-se na obrigação de apontar alguns aspetos cruciais para evitar o descalabro no Serviço Nacional de Saúde e nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), em particular, nas semanas que se avizinham.

Com a subida expressiva de novos casos confirmados de Covid-19 e o surgimento da variante Ómicron (que abriu portas ao registo de seis vezes mais casos do que aqueles verificados em 2020, por esta altura do ano), torna-se indispensável desenvolver uma campanha específica de informação e esclarecimento junto da população portuguesa, capaz de garantir que apenas os casos mais graves e a necessitar de cuidados são canalizados para os centros de saúde e urgências hospitalares. A APMGF relembra que todas as boas práticas e o conhecimento mais atualizado sobre a doença recomendam que os indivíduos assintomáticos e doentes com sintomas ligeiros a moderados fiquem em casa, sem recorrerem presencialmente aos serviços de saúde. Atitudes responsáveis, bem informadas e racionais por parte dos portugueses são neste momento cruciais para evitar a falência do Serviço Nacional de Saúde.

A tutela necessita urgentemente de definir diretrizes sobre como pretende rentabilizar e distribuir os seus recursos humanos nos CSP, orientando-os com clareza para as prioridades em saúde que importa salvaguardar, comprometendo-se e responsabilizando-se por tais decisões. A prioridade imposta aos médicos de família de acompanharem os indivíduos Covid-19 positivos assintomáticos ou com sintomas ligeiros impossibilita o seguimento de doentes com maiores necessidades em saúde, como as pessoas com diabetes, doenças respiratórias crónicas e doença cardíaca, com impacto superior na morbilidade e na mortalidade. Os profissionais não podem continuar a circular, permanentemente, entre as suas atividades regulares, a vacinação contra a Covid-19, o acompanhamento e vigilância dos doentes através de telefone ou a sua assistência nas Áreas Dedicadas a Doentes Respiratórios. Esta sobrecarga de trabalho levará a uma incapacidade de resposta aos doentes não Covid com um aumento de doentes crónicos descompensados, doenças oncológicas diagnosticadas tardiamente e um aumento das taxas de mortalidade nos próximos anos. De referir ainda que a não resposta adequada dos CSP vai levar a um aumento de pessoas nos serviços de urgência a curto prazo e a internamentos a médio/longo prazo.

O Ministério da Saúde deve refletir sobre todos os atos administrativos e burocráticos associados à Covid-19 que impõe no presente aos profissionais e implementar estratégias alternativas que possam libertá-los para funções clínicas, tão prementes na fase que atravessamos. Um exemplo claro neste domínio, já descrito pela APMGF, é a absurda necessidade de os médicos de família terem de emitir uma baixa médica aos doentes com atividade laboral ativa, forçando os profissionais a passarem a baixa em papel, a digitalizá-la e enviá-la por correio eletrónico ao utente. O referido ato burocrático, que toma tempo valioso aos profissionais e serviços, poderia ser substituído pela desmaterialização destas baixas e sua emissão automática a todos os utentes que têm teste positivo.

A pandemia veio intensificar o peso de lacunas e insuficiências do passado. Relembramos a necessidade de reforço dos recursos humanos, nomeadamente nos CSP, de forma a dar resposta às necessidades da população. Num momento em que cada vez mais utentes procuram contactar a sua unidade dos CSP por telefone, o dispositivo instalado mostra-se pouco mais do que inútil. A APMGF tem, de forma recorrente, alertado o Ministério da Saúde para o facto de as linhas telefónicas nos centros de saúde serem antiquadas e não conseguirem dar resposta às necessidades. É imperioso investir nesta área e esse investimento tem de ser consubstanciado já, não só no material, mas também nos recursos humanos, não daqui a três ou seis meses.

É tempo de todos, de forma colaborativa, contribuirmos para manter a capacidade de resposta do SNS. É imperioso reforçar a importância da vacinação, dos cuidados de proteção individual como uso da máscara e a evicção de ajuntamentos. No caso de suspeita de doença, fazer o isolamento e só recorrer aos cuidados de saúde no caso de sintomas de gravidade e após contacto com a Saúde 24. Também a comunicação social tem uma função importante nesta fase de informação, recordando a toda a população, sem alarmismo, a melhor forma de se comportar perante esta pandemia. Preservar os recursos de saúde para quem deles necessita é função de todos nós e só assim conseguiremos ultrapassar esta fase.

A Direção Nacional da APMGF

 

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