Portugal necessita de CSP fortes para enfrentar consequências da pandemia

Durante o programa televisivo «É ou não é?», apresentado por Carlos Daniel e exibido na RTP1, o presidente da APMGF garantiu que “temos de ter cuidados de saúde primários (CSP) – falamos da Saúde Pública, médicos e enfermeiros de família – fortes, com as equipas dotadas dos recursos humanos de que necessitam. Esta realidade presente, que passa por termos unidades de Saúde Pública com poucos profissionais e centros de saúde que também não têm médicos de família (MF), enfermeiros de família e administrativos em número suficiente, faz com que em alturas de crise a capacidade de resposta seja menor. Se ainda lhes são atribuídas tarefas que poderiam ser automatizadas, ou desempenhadas por outros profissionais, então aí limitamos gravemente a capacidade de atender os nossos doentes, aqueles que verdadeiramente precisam de nós”.

Segundo o dirigente associativo, não faz sentido algum que os MF tenham de gastar grande parte do seu atual quotidiano agarrados ao telefone, a ligar para pessoas que se encontram bem ou para pessoas “que até não necessitam de contacto algum, que estão assintomáticas, apenas tiveram um teste positivo e vão necessitar de justificar a sua ausência ao trabalho, de saber como se processam os próximos dias de isolamento ou o que têm de fazer. Não é preciso contar com um MF para lhes transmitir isto! O MF precisa é de ter tempo para conseguir dar resposta aos seus doentes diabéticos, hipertensos, ou a outros doentes agudos que o procuram, por exemplo”.

No debate, no qual participaram também o epidemiologista Henrique Barros, o microbiologista João Paulo Gomes (Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge) e Maria João Brito, diretora do Serviço de Infeciologia do Hospital Dona Estefânia, Nuno Jacinto defendeu que embora o momento atual convide a que “não sejamos alarmistas, mas sim realistas”, é impossível negar a avalanche da procura sentida nos CSP após a entrada em força da quinta vaga: “imagine-se o que representam 95% destes cerca de 30 mil novos casos diários a aparecerem nos centros de saúde para serem seguidos. Tal representa uma enorme sobrecarga! Quando falamos em caos, não estamos a referenciar tumultos nas salas de espera ou filas em todos os locais, mas o que acontece realmente é que diminui muito a nossa capacidade de resposta para os doentes não-Covid, para as muitas crianças nos primeiros anos de vida, as grávidas ou as mulheres em idade fértil que vigiamos”. O resultado visível do alvoroço nos CSP, acentuado nos últimos meses, tem sido “uma redução muito significativa das consultas presenciais”, estimando-se no presente “que todos os dias vários milhões de pessoas não tenham acesso ao seu MF, ora porque ele está nas áreas de atendimentos a doentes respiratórios, nos centros de vacinação ou a fazer telefonemas a utentes que vão aparecendo na plataforma Trace Covid-19”.

Apesar de tudo, o presidente da APMGF frisa que a onda pandémica que hoje atravessamos é bem diferente daquela que caracterizava o inverno passado: “em 2021, por esta altura, estávamos imersos em surtos gravíssimos, muitos deles em lares de idosos, a viver aquela que certamente foi a nossa hora mais negra. Foram momentos dramáticos, em que assistimos a infeções muito graves em pessoas vulneráveis, que não estavam vacinadas ou faziam as primeiras doses. Hoje em dia a situação não é equivalente, o que temos é um grande número de pessoas com testes positivos, mas que não têm qualquer sintoma ou apresentam doença ligeira. Nesta vaga, as coisas processam-se portanto de forma diferente, o que não quer dizer que não tenhamos muito trabalho”.

Nuno Jacinto sublinhou que o atendimento urgente/emergente atingiu, pois, níveis inquietantes em todo o SNS, mesmo que a variante Ómicron gere menos casos sintomáticos graves, sendo importante retirar ensinamentos valiosos para a reestruturação futura dos serviços de saúde: “estamos numa situação limite de atendimento nos vários níveis de cuidados, ainda que seja certo que ano após ano, no inverno, todos nos queixemos de que os centros de saúde e os hospitais não conseguem responder porque estão assoberbados. É forçoso mudar o paradigma já. Deveremos, quem sabe, aproveitar esta pandemia para – em conjunto e com alguma calma – pensarmos naquilo que é importante fazer daqui para a frente, como desejamos lidar com situações sanitárias graves como esta, mas também com os picos da atividade gripal habituais nos invernos ou de outras infeções que acontecem sazonalmente em Portugal. Em vez de andarmos a reboque dos acontecimentos, torna-se obrigatório prevenir e atuar antes com a devida preparação”.

 

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