Retrato da MGF em várias latitudes… com sotaque português

No dia 31 de março a sessão «A MGF pelo Mundo» vai captar a atenção dos participantes do 39º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar (MGF), dando a conhecer múltiplas experiências da especialidade, moldadas por diferentes regiões do globo e sistemas de saúde. Segundo António Pereira, membro da Comissão Organizadora e Científica do evento e um dos co-organizadores desta mesa, em conjunto com a sua colega Ana Margarida Cruz, “a MGF é talvez a especialidade que mais diferenças tem na sua organização nas diferentes partes do mundo. Apesar de uma definição e objetivos comuns, as particularidades de cada país, a forma como os cuidados de saúde se organizam, os recursos existentes e a morbimortalidade local, contextualizam diferenças importantes que importa conhecer, discutir e aproveitar”. Assim, para esta sessão foram convidados a dar o seu testemunho três médicos de família portugueses que desenvolveram as suas carreiras fora de portas: Alexandre Gouveia (a trabalhar na Suíça) Alberto Pais (a exercer em França) e Marta Fragoeiro (que se mudou para o Canadá).

“Questões como a carteira básica de serviços, o horário de trabalho, o número de utentes, a organização do sistema de saúde e das equipas de CSP e a sua articulação com as restantes linhas de cuidados estarão em debate. Haverá também oportunidade de abordar sistemas informáticos em uso, gestão de burocracias ou a organização do internato de MGF e a formação”, explica António Pereira.

Comparar é meio caminho para melhorar

Segundo Alexandre Gouveia, integrado nos quadros do Centre Universitaire de Médecine Générale et Santé Publique – Unisanté (Lausana) e responsável naquela entidade pela Policlinique de Médecine Générale, “o sistema de saúde suíço tem uma organização relativamente complexa, uma grande multiplicidade de prestadores de cuidados e um custo de funcionamento bastante elevado. Contudo, os resultados obtidos em saúde são bons e existe uma grande adaptabilidade aos desafios por parte das instituições e profissionais de saúde, o que conduz finalmente a uma grande satisfação por parte dos utentes”. No arranque da sua atividade profissional na Suíça, em 2014, Alexandre Gouveia surpreendeu-se pela positiva com o “nível de participação dos cidadãos nas decisões relativas à saúde, quer no âmbito individual no contexto de uma consulta, ou como sociedade em termos de políticas de saúde”. Por outro lado, no que respeita aos aspetos menos conseguidos do sistema de saúde suíço e da sua prestação de cuidados de saúde primários, este jovem médico português destaca “a falta de financiamento e de estratégia nacional para algumas atividades preventivas”.

Já Alberto Pais de Sousa (que desenvolve a sua prática clínica na Região da Nova Aquitânia, não muito longe de Bordéus), convidado a detetar diferenças em Portugal e França, no que concerne à natureza do relacionamento e à confiança depositada pelos utentes nos seus médicos de família (MF), aponta para uma característica do sistema de saúde francês que ajuda a explicar muita coisa neste domínio: “sempre tive uma boa relação com os doentes durante o meu exercício em Portugal. No entanto, a relação dos utentes com o seu MF em França tem menos momentos de tensão na medida em que os utentes são livres de escolher o médico que bem entendem e com o qual se entendem bem, podendo mudar a qualquer momento. O MF também pode a qualquer momento – e por motivos vários – deixar de continuar a seguir determinado doente, e portanto a relação médico-doente é necessariamente uma relação de confiança e respeito mútuo”.

 

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