Jonathan dos Santos

Jonathan dos Santos – “Assim que coloquei o POCUS em prática apercebi-me da sua potencialidade real”

De acordo com o coordenador do Grupo de Estudos de Ecografia Point-of-care (GEco) da APMGF, Jonathan dos Santos, este novo grupo associativo está empenhado em contribuir para a generalização do uso da Ecografia Point-of-care – internacionalmente designada por POCUS (point-of-care ultrasound) – nos cuidados de saúde primários (CSP) portugueses. Isto apesar dos obstáculos que ainda persistem na implementação desta técnica nos centros de saúde, ao nível do tempo, formação e ausência de equipamentos.

Como surgiu a ideia de fazer um Grupo de Estudos dedicado à ecografia point-of-care?

Jonathan dos Santos – Foi em 2020, quando publiquei um artigo de opinião sobre esta matéria na Acta Médica Portuguesa. Nesse dia, recebi um contacto do colega Manuel Rodrigues Pereira, que partilhou da ideia em criarmos um grupo de estudos nesta área. As reuniões foram sendo regulares e novos elementos entusiastas na área foram integrando esta equipa. De momento, contamos já com 10 médicos de família (MF) dispersos pelo continente.

Este tipo de procedimento está ainda muito pouco generalizado nas unidades dos CSP portugueses. O surgimento do Grupo poderá, ele próprio, ajudar a transformar tal panorama?

Este grupo de estudos delineou um plano de atividades com objetivos a curto, médio e longo prazo. A curto prazo, pretendemos dar a conhecer esta técnica aos MF, partilhando estudos e casos clínicos e oferecendo pequenas formações. A médio prazo, gostaríamos de ver integrada a formação em POCUS no internato de Medicina Geral e Familiar (MGF) e ver equipamentos disponíveis nos centros de saúde. A longo prazo, vislumbramos a generalização do uso da técnica na prática dos MF. Para tal se concretizar, tencionamos articular-nos com grupos de estudos homólogos nacionais e internacionais, coordenações de internato e estruturas do SNS.

O que o atraiu, em termos pessoais, para esta esfera de competências?

Acima de tudo, dar jus à especialidade de MGF enquanto especialidade médica generalista e capaz de resolver a maioria das situações clínicas. Assim que coloquei o POCUS em prática apercebi-me da sua potencialidade real e do impacto na minha prática clínica, com influência na decisão e, acima de tudo, no benefício dos doentes. Tornou-me um médico mais capaz e enalteceu a minha relação médico-doente.

Quais são os principais desafios que os seus colegas encontram nesta área? Reduzido acesso a tecnologia no local de trabalho, falta de formação pós-graduada e contínua adequada, obstáculos que derivam da forma como estão implementados os ACeS e os CSP, em geral, no nosso país?

Do que fomos sondando, diria que haverá três grandes obstáculos: gestão do tempo, formação e disponibilidade dos equipamentos. Quanto à gestão do tempo, é certo que terão de despender mais uns minutos para esta técnica, mas vejamos noutro prisma: quantos de nós já não descurou um exame objetivo completo e recorreu à emissão de uma credencial de ecografia? Se confiam mais na ecografia, não será o POCUS útil para complementar a história clínica e para obter uma resposta na hora? Se emitirmos a tal credencial, vamos ocupar mais uma consulta ou um contacto indireto para analisar o resultado e intervir. Será de ressalvar que nem todos os doentes serão candidatos a POCUS e se numa determinada consulta houver outras prioridades e puder ser protelada a questão associada ao POCUS, conforme fazemos noutras circunstâncias, há sempre uma consulta seguinte para continuar o estudo.

Quanto à formação e disponibilidade de equipamentos, estas duas questões são síncronas, isto porque uma formação teórica sem prática não solidifica os conhecimentos. É o que acontece com o SBV (suporte básico de vida), mas ao contrário deste, os doentes para POCUS são diários e havendo equipamento podemos consolidar a aprendizagem teórica. Para a formação estaremos cá e existe uma grande oferta online. Para os equipamentos, também cá estaremos para comprovar a utilidade do POCUS às entidades responsáveis. Para quem se quiser aventurar, já existem vários ecógrafos portáteis (de bolso, com ligação ao smartphone) bastante competitivos e a preços razoáveis.

Em muitos países do mundo a ecografia point-of-care é uma realidade consolidada, algo que garante maior celeridade no diagnóstico e tratamento dos doentes. Acredita que é possível Portugal aproximar-se deste modelo de prestação de cuidados, que aposta num maior grau de autonomização das unidades de saúde de proximidade?

Não é preciso ir muito longe. Em Espanha já existe um longo percurso realizado nesta área. Já são vários os centros de saúde equipados com ecógrafos e a oferta formativa é vasta. Outros países como França, Suíça e Canadá têm já programas de informação implementados e com uma evidência robusta na utilidade do POCUS na prática clínica dos MF. Nestes países estão já consolidados grupos de estudo idênticos ao nosso.

Que iniciativas de formação e cooperação têm ocupado o vosso Grupo neste ano de 2022 e quais são as vossas propostas para os anos que se avizinham, quer ao nível formativo, quer noutras dimensões, como a editorial ou investigacional?

Com menos de um ano de oficialização do grupo, temos já dois momentos formativos realizados – um workshop no 38º Encontro da APMGF em Aveiro e um curso de ecocardiografia point-of-care em Lisboa. A participação foi excelente e denotou-se um grande interesse pelos colegas em saberem mais sobre POCUS. Temos também articulado com o grupo homólogo da SPMI (Sociedade Portuguesa de Medicina Interna), por intermédio do Dr. José Mariz, com quem prevemos trabalhar em conjunto no sentido de alcançarmos objetivos comuns. Nos próximos anos antevemos aumentar a capacidade formativa, publicar estudos observacionais e analíticos e participar em sessões formativas.

Para todos os seus colegas que possam considerar que a ecografia não tem lugar nos centros de saúde e unidades de CSP e na panóplia de competências de um MF, de que forma contra-argumentaria para defender a sua utilidade?

A auscultação e a palpação abdominal não fazem parte do exame objetivo? E o exame neurológico? Fazem-no para esclarecer uma questão clínica, certo? Se a ecografia point-of-care puder ajudar a esclarecer a questão no momento, evitando uma consulta subsequente, porque não consideram a ecografia útil? Será mais produtivo lutar contra as questões burocráticas desnecessárias e partilhar tarefas com o enfermeiro de família (educação para a saúde, reforçar o cumprimento terapêutico, etc.) do que contrariar uma técnica que pode otimizar os cuidados de saúde aos doentes e tornar-nos mais autónomos.

Quando se trata do recurso ao POCUS e inerentes mais-valias, que tipo de casos destaca na sua prática clínica?

Conto já com centenas de casos clínicos, assim como os meus colegas do grupo. Menciono alguns deles e tudo realizado no centro de saúde ou domicílio: confirmação de insuficiência cardíaca, deteção de uma colecistite alitiásica, diagnóstico de um pneumotórax sem recurso à radiografia, remoção ecoguiada de um dispositivo intra-uterino sem fios visíveis, deteção de um derrame pleural, deteção de um cálculo renal com hidronefrose e até a visualização do batimento cardíaco fetal, em vez da audição por doppler fetal.

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