20º ENIJMF encarou de frente os grandes desafios que se colocam aos jovens médicos

O derradeiro dia do 20º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família (ENIJMF) iniciou-se com um debate que não passa ao lado que qualquer interno de MF ou recém-especialista: se não for convidado para integrar uma USF, como posso ajudar a construir uma, ou que passos posso dar para ajudar a transitar a minha USF de modelo A para modelo B? Mariana Freire integra a USF Alvalade (ACeS Lisboa Norte), que em 2020 fez a transição de UCSP para USF modelo A, em pleno período da pandemia: “o facto de estarmos em processo de mudança, a construir uma unidade nova, deu-nos um estímulo para termos vontade de trabalhar todos os dias e de não estarmos tão focados na pandemia. Contar com um projeto a correr em paralelo foi um grande impulso para nos animar”.

Cátia Palha faz parte da USF Foco (ACeS Grande Porto VII – Gaia), que iniciou atividade neste verão. Durante todo o trajeto de criação da nova unidade, surgiram muitas dúvidas e ansiedades, especialmente antes da primeira reunião com a ERA: “o momento mais gratificante para mim coincidiu com a altura em que iniciámos atividade, perceber que aquilo estava mesmo a acontecer, ter a equipa toda a trabalhar e poder contar com a ajuda de um enfermeiro de família”, adiantou Cátia Palha.

A colega Margarida Borralheiro (USF Saúde Oeste, ACeS Cávado I – Braga) veio ao 20º ENIJMF relatar uma história um pouco diferente, a de uma equipa de saúde que tendo já feito o seu caminho tranquilo no modelo A, se abalançou ao tão ambicionado (e quase quimérico) modelo B das USF. Por entre os muitos conselhos práticos que deixou aos colegas que tencionam fazer o mesmo itinerário organizacional, a médica da USF Saúde Oeste sugeriu que as equipas procurem exceder os limites mínimos que lhes são impostos pela grelha DiOr-USF (Diagnóstico do desenvolvimento Organizacional nas Unidades de Saúde Familiar), a qual exige o cumprimento de 100% dos critérios de categoria A e 60% dos critérios de categoria B: “o que aconselho, face à prática que tivemos com a ERA e o nosso ACeS, é que quantos mais critérios tivermos assegurado melhor, quer em termos de qualidade na prestação de cuidados de saúde praticada na unidade, quer para fins da pontuação final, porque no fim de contas todos gostamos de passar com distinção”.

Magda Simões, membro da USF Linha de Algés (ACeS Lisboa Ocidental e Oeiras), a primeira unidade a entrar no processo de transição para o modelo B com base na nova grelha DiOr-USF, explica que uma das formas mais eficazes de manter as equipas com energia e motivadas, ao longo de processos tão difíceis e exigentes como o da mudança de modelo A para B, é a concretização de projetos inclusivos, como aquele que a USF Linha de Algés desenvolveu a propósito do Dia Internacional contra os Maus-Tratos a Crianças e Jovens e que implicou a construção de um laço com materiais reciclados: “apesar da auditoria que decorria então e de todo o trabalho que nos absorvia, as pessoas mostraram sempre muito entusiasmo. Não podemos estar focados apenas no cumprimentos de prazos e metas, devemos recordar a importância de trabalhar o bem-estar da equipa”.

Internato em perpétuo movimento exige agilidade e soluções criativas

Na mesa redonda centrada nas atualizações do Internato de MGF em Portugal e perspetivas de mudança para o quotidiano de internos e sobretudo de orientadores de formação, Denise Velho (médica de família na USF Santiago – ACeS Pinhal Litoral, diretora de Internato de MGF e representante de Portugal no European Academy of Teachers in General Practice/Family Medicine – EURACT) salientou um princípio de ouro para todos os orientadores ou prospetivos orientadores: “temos de nos recordar que estamos a orientar adultos, não crianças, que os internos têm as suas próprias expectativas, preferências e estilos de aprendizagem. Assim, é fundamental adequar o nosso método de ensino ao estilo de aprendizagem de cada interno”.

Paulo Santos, presidente do Colégio de Especialidade de MGF da Ordem dos Médicos e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, abordou no evento a nova grelha de avaliação curricular introduzida no internato, que tem gerado alguma apreensão entre orientadores e internos. O responsável considera que é “positivo que exista uma grelha, que esteja publicada e seja transparente”, algo que nem sempre aconteceu, mas que a mesma não deve ser olhada de forma inflexível: “a grelha tenta ser apenas uma forma de simplificar e homogeneizar as opiniões dos júris (…) podem existir conceitos na grelha que não estejam tão bem definidos como desejaríamos, mas a verdade é que os conceitos são indefinidos por natureza”.

Dolores Quintal, coordenadora do IMMGF no SESARAM e membro da Comissão do internato da Região Autónoma da Madeira, trouxe à consideração dos participantes no Encontro a experiência encetada na Madeira, região na qual os internos de MGF acompanham uma amostra (que pode ser aleatória ou de conveniência) de 500 utentes da lista do seu orientador. “Temos conhecido bons resultados, quer na alternativa de amostra aleatória, quer na de conveniência. Mas é uma situação para se discutir e para se pensar”, assegura Dolores Quintal.

MGF tem todas as ferramentas de base para lidar com doentes difíceis

Na reta final do evento, nota também para o debate em torno dos doentes difíceis ou muito utilizadores. Neste contexto, Victor Ramos (docente convidado da ENSP NOVA e da Universidade de Évora e presidente da Fundação para a Saúde – SNS) defendeu que a questão dos doentes difíceis ou muito utilizadores “não é para abordar em solidão. É para ser discutida e partilhada, com os colegas e a equipa. Nada de pensar que vamos sozinhos encontrar uma prescrição para este problema”. Para João Pedro Ferreira (USF Côrtes D’Almeirim – ACeS Lezíria), uma coisa é certa, o médico que se confronte com este tipo de interação com algum utente não pode ficar à espera de resgate externo: “é do nosso lado que está a estratégia. No local onde trabalho tenho muitos destes casos e a verdade é que se antes tinha de marcar consulta de mês a mês, agora já consigo agendar de três em três meses com muitos destes doentes. Conseguimos ir resolvendo as situações, até porque sabemos priorizar problemas de saúde”.

Na ótica de Rizério Salgado (USF São Julião de Oeiras, ACeS Lisboa Ocidental e Oeiras), a própria MGF está bem colocada à partida, enquanto especialidade, para transformar um utente difícil/sobreutilizador em alguém que é finalmente compreendido e cuidado de acordo com as suas especificidades: “na MGF há um tempo de aprendizagem e de conhecimento do outro, tempo para transmitir informação e melhorar a literacia do nosso paciente. Os utentes também vão progressivamente nos conhecendo e ficando cada vez menos ansiosos e mais seguros, até porque lhes negamos coisas que não fazem sentido mas lhes oferecemos outras em retorno. Isto permite que o paciente possa evoluir para o conforto na relação”.

O 20º ENIJMF encerrou com chave de ouro, com a entrega de prémios aos melhores trabalhos científicos e as bolsas de investigação APMGF/AICIB, bem como uma avaliação muito positiva de três dias de trabalho, realizada pelo presidente da APMGF, Nuno Jacinto: “tenho de agradecer a todos por terem transformado este Encontro naquilo que foi, um espaço aberto para a discussão de muitos temas, feito por internos e jovens MF para internos e jovens MF, mas que ainda assim acaba por se revelar também útil para quem está mais à frente na carreira médica”.

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