APMGF assegura que alargamento de horário nos CS não resolverá caos nas urgências hospitalares

Em declarações à SIC Notícias, o presidente da APMGF comentou a atual situação vivida em Portugal com o grande afluxo de utentes aos serviços de urgência hospitalar e as expetativas relativamente a uma maior intervenção dos cuidados de saúde primários (CSP) para atender os doentes não urgentes, com eventual alargamento de horários e intensificação de consultas abertas nos centros de saúde (CS), referindo que “as urgências estão cheias por vários motivos e não é justo imputar a culpa na sua totalidade à ausência de resposta dos CS”.

Nuno Jacinto recordou ainda que “existem locais onde efetivamente não há médicos de família e enfermeiros em número suficiente. Todos sabemos disto e há muito que alertamos para tal facto. Nesses sítios, a resposta dos CSP é mais deficitária e terá mais impacto nas urgências hospitalares. Mas é bom recordar que a esmagadora maioria da doença aguda continua a ser vista nos CS em Portugal, isto apesar de todas as dificuldades, da ausência de profissionais e de equipas incompletas”.

Relativamente ao pré-anunciado (pelo Ministro da Saúde) alargamento adicional de horários nos CS, para fazer frente ao acréscimo da procura sentido nas urgências, o presidente da APMGF esclarece: ”podemos olhar para a questão por dois lados. Nos locais onde já faltam profissionais, não adianta alargarmos os horários porque a resposta continuará a não existir, uma vez que os profissionais não estão lá. Por seu turno, nos locais onde existem profissionais (e felizmente são muitos), as equipas estão já a trabalhar em grande esforço, com enorme quantidade de horas de atendimento, até à custa de outras atividades programadas – como consultas de vigilância a doentes crónicos e grupos vulneráveis – para poderem dar resposta a esta doença aguda. E a experiência que temos tido no passado é que estes alargamentos de horário, por exemplo das 20h00 às 22h00, contam com uma afluência muito reduzida, por vezes com mais um ou dois doentes por unidade. De recordar que nos CS vemos situações ligeiras a moderadas – e é assim que deve ser – sendo que as situações ligeiras a moderadas podem e devem ser atendidas no horário em que muitas unidades funcionam regularmente, entre as oito da manhã e as oito da noite”.

Nuno Jacinto adiantou também que os CS estão claramente a dar o seu contributo para a gestão dos problemas sentidos pelos portugueses em consequência de infeções respiratórias tradicionais nesta época do ano, sublinhando que os CSP estão a atender “quase o dobro dos doentes em consulta aguda, face ao que atendiam antes desta elevação da atividade gripal”. No que respeita às soluções que a tutela irá adotar para mitigar a sobrelotação das urgências com o plano de contingência Outono/Inverno, o presidente da APMGF defendeu que “é preciso apostar mais cedo neste tipo de planos e perceber como nos devemos todos articular. Não podemos olhar somente para os números das urgências e dos CS, temos de ter outras portas de entrada no sistema e um SNS 24 que tenha um papel mais efetivo, um melhor fluxograma e maior capacidade de triagem, que lhe permita evitar que acabe por enviar quase todos os utentes que a ele recorrem para os CS e urgências hospitalares. Durante os meses finais da pandemia, os casos mais ligeiros eram colocados em auto-cuidados, sem necessidade de uma observação médica. Temos, agora, de voltar a apostar nessa medida de auto-cuidados, para situações ligeiras”.

Comentário TVI

Numa segunda avaliação, feita no programa «Esta Manhã», da TVI, o presidente da APMGF reforçou que é preciso investir nos auto-cuidados, relativamente às situações com sintomatologia ligeira: “todos nós, quando temos sintomas respiratórios ligeiros, que tenham começado há poucas horas, facilmente controlados em casa, devemos apostar nos auto-cuidados. Não é necessário ir desde logo ao centro de saúde, muito menos ao serviço de urgência, por termos tido um pico de febre, termos iniciado uma dor de garganta ou termos tosse durante uma manhã. Esta mensagem tem de passar de forma clara. É impossível o sistema de saúde responder a todas as solicitações, no imediato, quando estes quadros são ligeiros e têm poucas horas de evolução”.

Nuno Jacinto frisou, ainda, que a missão da Linha SNS 24 passa não só por destrinçar entre níveis de gravidade das situações reportadas, mas também por ajudar a preservar a integridade do sistema de saúde, por via de encaminhamentos racionais e equilibrados: “os diferentes níveis de cuidados têm de ser protegidos. As urgências – por maioria de razão e porque precisamos delas para os casos urgentes e emergentes – e os centros de saúde, porque têm de dar resposta aos casos que necessitam mesmo de uma primeira observação médica. Se eles tiverem inundados com pessoas que manifestam sintomas ligeiros e que poderiam ter sido resolvidos na farmácia, através da SNS 24 ou até automaticamente pelo próprio utente, então não conseguirão dar resposta a tudo o resto e esse resultado será refletido nas urgências hospitalares”.

 

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