Tempo de envelhecer e morrer… mas também para sorrir e ser feliz

Objeto da criatividade de um dos mais recentes consagrados da literatura portuguesa, Valter Hugo Mãe, o livro «A máquina de fazer espanhóis» será o fulcro da próxima sessão do Clube de Leitura APMGF, programada para o dia 20 de dezembro, pelas 21h00. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral de oito sessões). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.

«A máquina de fazer espanhóis» dá protagonismo um herói insólito. O Sr. Silva, barbeiro aposentado, esforça-se por sobreviver à perda da sua mulher e por resistir num lar de idosos em que um punhado de parceiros de viagem procura transformar esta fase derradeira da sua vida em algo mais do que um lento definhar, numa história em que se entre-cruzam fragilidade, desespero, abandono e solidão, mas também encantamento, surpresa e amizade.

“A obra de Valter Hugo Mãe é um hino ao envelhecimento, aos envelhecimentos e ao envelhecer. É uma obra magnífica que nos permite refletir não apenas enquanto médicos, mas, acima de tudo, como sociedade”, explica Ana Rita Magalhães, médica de família na USF Topázio e dinamizadora da sessão. Para esta médica existem alertas na narrativa que nos impelem a pensar com lucidez, enquanto nação, sobre o que pretendemos ser, quais os nossos valores de fundo e para onde caminhamos: “vivemos no quinto país mais envelhecido do mundo, temos obrigação de, como médicos de família, lidar com o envelhecimento dos nossos ficheiros. Sabemos quão desafiante pode ser a multimorbilidade, a sobremedicalização, a prevenção quaternária, os últimos estádios de Duvall (ninho vazio e terceira idade) e suas consequências. Este livro é uma reflexão deliciosa sobre o último estádio de Duvall, na perspetiva do Silva, tendo como mote a morte da sua cônjuge e a entrada no Lar de idosos Feliz Idade. A partir desse momento, acompanhando o ritmo lento e muita sátira à mistura, como leitores, levamos alguns murros no estômago, refletindo sobre cada personagem, sobre cada episódio”.

Entre os grandes triunfos desta gesta literária está, na ótica de Ana Rita Magalhães, “a criação de empatia pelas diferentes personagens do livro, mesmo por aquelas que podem ter ações muito questionáveis. É entender o outro como um todo, somando as partes. A solidão, por muitos vista como capataz da morte, está presente ao longo do livro, é sobre ela que o livro reflete, como é tão diferente a forma de se lidar com a mesma. Neste sentido, depois de o ler, senti-me com necessidade de olhar para o outro, e não necessariamente para o idoso, mas também para o filho do idoso, o neto do idoso, o cuidador do idoso, com a paciência e empatia que merecem. A verdade é que a enorme pressão assistencial a que estamos atualmente sujeitos pode ser muito frustrante, pois sentimos que muitas vezes o bem mais precioso que podemos dar a estes utentes é o tempo. Tempo este que escasseia a todos”.

A dinamizadora da sessão sublinha que este foi o primeiro trabalho de Valter Hugo Mãe com o qual tomou contacto, servindo-lhe até de inspiração: “li-o no mês que precedeu a entrada na especialidade de MGF e, foi de facto, o melhor preâmbulo possível para o que se seguiria. Depois deste seguiram-se muitos outros e se há coisa que o Valter Hugo transmite, é estranheza, incómodo. A sua escrita crua – mas sempre regada a humor e sátira – convida através do grotesco a uma profunda reflexão em sociedade”.

Ao recordar que o centro da ação está intimamente ligado à morte de Laura (esposa do Sr. Silva) e ao período de luto que se segue, Ana Rita Magalhães considera que o livro é, em si mesmo, um apelo para que todos façamos uma pausa e possamos entender o que significa, afinal, enlutar e o que não pode ser varrido para o lado, em nome da vontade de seguir em frente: “sinto, por vezes, que tendemos a querer acelerar o processo, esquecendo que é mesmo isso… um processo. Neste sentido, não posso deixar de admirar o funcionário Américo, um jovem vocacionado para lidar com os utentes do Lar Feliz Idade, que lhes respeita o tempo, o espaço, sem nunca os abandonar ou pressionar. Trata-se de uma personagem admirável. Também o doutor Bernardo, apesar de num registo mais frio e profissional, está presente nos momentos-chave. Na prática clínica, o médico de família inicia o acompanhamento ao luto, muitas vezes ainda em vida, preparando o próprio e a família para o final. Sinto que nem sempre consigo estar tão presente em todas as fases como seria desejável. No fundo, nestas fases, o papel do psicólogo seria um complemento determinante para as equipas de saúde”.

 

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