Paulo Santos – “Estas provas de agregação são também trabalho de todos os médicos de família portugueses que diretamente me acompanham”

O especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF), docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e presidente do Colégio de MGF da Ordem dos Médicos, Paulo Santos, concluiu recentemente com sucesso as suas provas de agregação na FMUP, passando a integrar um lote restrito de figuras com origem na especialidade que são professores agregados em universidades portuguesas. Durante dois dias de provas e perante um júri que integrou António Vaz Carneiro (arguente), Jaime Branco (arguente), Miguel Craveiro Sousa (arguente), Isabel Loureiro, Alexandre de Sousa Pinto, Rui Nunes, José Silva Cardoso e Altamiro da Costa Pereira (presidente do júri), o candidato apresentou e discutiu, como é tradicional nestas circunstâncias, o relatório pedagógico, o seu curriculum vitae e uma lição, intitulada «Adherence to medications with preventive intention in Primary Health Care». Na breve entrevista que se segue, explica o que este passo académico significou para si individualmente e o que pode representar em termos de reafirmação da MGF, na academia e na sociedade portuguesa.

Como encarou em termos pessoais este desafio e o que significa para si tornar-se professor agregado na FMUP?

Paulo Santos – A agregação visa atestar a qualidade do currículo académico, profissional, científico e pedagógico, a capacidade de investigação e a aptidão para dirigir e realizar trabalho científico independente. Significa o reconhecimento da academia pelo trabalho realizado numa determinada área de diferenciação, e a aposta na continuação desse trabalho. Claro que estas provas têm uma leitura individual sobre o meu percurso até ao presente momento, mas têm uma representação simbólica maior do que a simples avaliação pessoal, refletindo também o desenvolvimento da respetiva área de especialização.

Neste caso, as provas foram requeridas para o ramo do conhecimento de investigação clínica e em serviços de saúde onde fiz o doutoramento, mas não deixam de ser uma agregação em Medicina Geral e Familiar onde me revejo como especialista médico, como docente universitário e como parceiro social ativo na intervenção institucional em que estou envolvido. Neste sentido, estas provas de agregação são também trabalho de todos os médicos de família portugueses que diretamente me acompanham nos serviços em que exerço, nos grupos de ensino e investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a que estou ligado, na direção do Colégio de MGF que presido, na Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, e em muitas outras atividades onde vou colaborando. Mais do que o mérito e a honra de ter sido aprovado por unanimidade, estas provas são também uma responsabilidade acrescida para fazer mais e melhor no futuro, procurando contribuir para o desenvolvimento da nossa especialidade numa estrutura científica, capacitando-a para os desafios clínicos, organizativos, de gestão e éticos que se colocam e que se colocarão nestes novos tempos.

Como resumiria a lição englobada nas provas e por que razão escolheu esta temática?

As provas de agregação baseiam-se em três avaliações: a discussão curricular, a apreciação do relatório de uma unidade curricular e uma lição sobre um tema dentro do âmbito do ramo do conhecimento. Ao nível da discussão curricular temos uma apreciação em mérito absoluto, que significa um conjunto de quesitos mínimos sem os quais não poderia sequer propor-me a avaliação e que refletem a quantidade e qualidade da produção científica, a capacidade de condução de investigação e o empenho na docência, medido pelas orientações de estudantes de doutoramento e de mestrado. Esta discussão é depois alargada na avaliação curricular global, que reflete toda a atividade profissional, incluindo a clínica, a docência, a investigação e a representação. É neste curriculum que nascem os dois temas que abordei nas provas.

No relatório sobre uma unidade curricular propus nestas provas a introdução da disciplina de “Cuidados de Saúde Primários” no primeiro ano do curso de Mestrado Integrado em Medicina da FMUP. Da mesma forma que os cuidados de saúde primários são centrais na organização dos serviços de saúde pelas características que apresentam de globalidade, continuidade e acessibilidade às pessoas com saúde e, por vezes, também com doença, podem também ser centrais na estruturação de um ensino médico menos centrado na doença e mais atento à pessoa, e neste sentido menos orientado à patogenia e, portanto, menos centrado no ambiente hospitalar. Esta disciplina pretende mostrar desde o primeiro ano do ensino médico que a Medicina não se centra apenas no combate às enfermidades e que há mais mundo para além das doenças e dos compêndios que as resumem, além de expor os estudantes ao contacto com pessoas vivas e preferencialmente saudáveis, numa altura em que toda a atenção se orienta para o conhecimento das ciências básicas da biologia e bioquímica, da anatomia, da fisiologia e da farmacologia. Pretende criar oportunidades de integração destas matérias fundamentais na pessoa, corporizando o conhecimento teórico num corpo vivo e pensante. Além de permitir estruturar um eixo de aprendizagem das áreas dos cuidados de saúde primários, permitirá também uma melhor integração das disciplinas clínicas, quando no terceiro ano os estudantes começarem a estudar os sintomas de doença e o que representam na anormalidade da função.

Por fim, apresento a lição dedicada à adesão à terapêutica instituída com intenção preventiva nos cuidados de saúde primários. Trata-se de um tema fundamental na nossa especialidade, que revê a medicina preventiva, nos seus objetivos, forças, fraquezas, oportunidades e desafios, juntando-lhe o ponto de vista da terapêutica e percebendo que a melhor tecnologia falha se o doente não aderir. Se isto é verdade em toda a medicina, é particularmente preocupante na prevenção, onde o prémio do medicamento não é curar a doença, mas evitar que apareça, o que não é de todo tão visível. A prevenção não se impõe, propõe-se! Não se prescreve, aconselha-se! E não se adivinha, estuda-se! Infelizmente, há demasiada imposição, demasiada prescrição e demasiada adivinhação, que levam a algum descrédito das atividades preventivas, o que justifica, por exemplo, baixas taxas de adesão à terapêutica e a alterações de estilos de vida em prevenção primária. Interessa perceber os determinantes e atuar sobre eles no sentido de poder proporcionar às pessoas que nos procuram com as suas doenças também as melhores oportunidades de saúde, baseadas na melhor evidência existente, filtrada pelos seus valores, ideias e expectativas e pelo senso clínico da experiência dos seus médicos.

Considera que a MGF sairia mais prestigiada mediante o aumento do número de elementos oriundos da especialidade a tornarem-se professores com agregação em universidades portuguesas?

A nossa especialidade é das mais recentes na história da Medicina Portuguesa. Nasce no início dos anos 80, para dar resposta a uma necessidade de assistência médica na população até então praticamente inexistente. Fizemos em Portugal um excelente trabalho, que nos deve orgulhar a todos no acesso aos cuidados de saúde, promovendo a equidade e a coesão territorial, num marco fundamental para a estabilização da democracia. Foram muitos médicos envolvidos, alguns ainda no ativo, muitos já reformados, outros que infelizmente já não se encontram entre nós. Foram brilhantes e devemos-lhes este reconhecimento. A evolução natural é o desenvolvimento e este passa inevitavelmente pelo aprofundamento do saber, pela investigação, pelo sentido crítico e pela aplicação da inovação na prática clínica. É este o sentido último da diferenciação académica, permitindo equipar os profissionais com ferramentas capazes de gerar e responder a perguntas que melhorem o seu dia a dia, o dos doentes, dos serviços e das organizações em que se inserem. E isto é fundamental, ainda que as instituições de saúde em Portugal, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde primários, ajam como se a inovação e desenvolvimento fossem dispensáveis e até alvos a abater, apesar de um discurso aparentemente favorável, mantendo a investigação sem uma integração efetiva nos horários dos médicos e a colaboração com o ensino superior num plano meramente supletivo em relação à prioridade completamente absoluta da assistência aos utentes. Nos últimos anos temos assistido a um número crescente de doutoramentos na área da Medicina Geral e Familiar, ainda que com grande esforço pessoal e pouco apoio institucional, e teremos certamente mais progressões académicas com provas de agregação e possibilidade de concorrer a lugares de professor associado e catedrático de carreira, aumentando no meio académico o prestígio que os médicos de família justamente têm entre a população e na prática clínica.

 

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