Mia Couto – “Todo o médico trabalha no domínio da ciência, mas também naquilo que escapa ao exame objetivo”

O que pode oferecer um escritor num congresso médico? No caso de Mia Couto, que estará presente no encerramento do 40º ENMGF e numa sessão especial do Clube de Leitura APMGF em Vilamoura, a resposta é simples: perspetiva. Perspetiva de quem estudou para ser médico mas preferiu seguir outros desígnios, face à dessintonia com uma Medicina extirpada de afetos, de alguém que vive e cria numa comunidade na qual “as perceções sobre a saúde e a doença são inspiradas num diferente sistema de saber” e, por fim, de um homem e um autor ensinado pela vida a compreender a grandeza de não reduzir a pessoa ao paciente.

Sobre que tópicos essenciais gostaria de falar durante a sua comunicação no 40º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar?

Apesar de ser biólogo falarei sobretudo como escritor e como alguém que vive uma realidade humana e cultural bem particular em que as perceções sobre a saúde e a doença são inspiradas num diferente sistema de saber.

É sabido que frequentou o curso de Medicina durante a sua juventude, antes de ter optado pelo jornalismo e pela escrita. Que marcas lhe deixou tal experiência e de que forma olha hoje para a Medicina?

Eu fui para Medicina pensando que iria ser psiquiatra. Frequentei o curso apenas por dois anos e meio mas eu estava, sempre que podia, a visitar o hospital psiquiátrico da cidade de Maputo. Os médicos daquele estabelecimento achavam graça ao entusiasmo de um jovem intrigado pela ideia da loucura mas apostado em questionar as formas de liderar com a chamada insanidade mental. Recordo-me de um desses médicos me ter chamado e me perguntar: “sabes o que é um Stradivarius?”. Respondi que sim, que era uma das mais reconhecidas marcas de violinos. Ele disse: para seres psiquiatra precisas de ser um Stradivarius: sensível mas forte. E tu, acrescentou ele, apenas és sensível. Voltei para casa amargurado, mas sobretudo desiludido comigo mesmo por não fui capaz de dizer aquilo que pensava: que a sensibilidade é uma força. Um hospital em que falta esse sentido de empatia e afeto não é uma casa de cura. É uma oficina. Ou pior – e era esse o caso dos hospitais psiquiátricos da altura – é uma prisão.

Como caracterizaria os desafios atuais da Medicina Familiar e Comunitária e dos cuidados de saúde primários em Moçambique?

Moçambique é um dos dez países mais pobres do mundo. Toda a assistência médica está marcada por essa enorme limitação. Por outro lado, nós ainda hoje beneficiamos de uma política de saúde pública que foi instalada logo a seguir à independência e que, no quadro das opções socialistas daquele momento, colocaram todo o ênfase nos cuidados de saúde primários. Campanhas de vacinação foram massificadas logo nos primeiros anos e esse legado continua a ajudar não apenas na prevenção de doenças mas também na aceitação da necessidade e da eficácia das vacinas. Agora, na pandemia da covid 19, a adesão à vacinação em Moçambique foi bem maior do que em muitos países desenvolvidos. Um dos desafios nossos é o modo como a rede de cuidados sanitários se articula com os chamados médicos tradicionais que, para uma grande parte da população, continuam a ser a primeira porta de prestação de socorros.

Tem um médico de família e visita-o, com regularidade?

Não tenho, no sentido formal do termo. Estou casado há mais de 30 anos com uma médica. As visitas são diárias.

O livro “Veneno de Deus, Remédios do Diabo”, sobre o qual irá conversar durante o 40º Encontro Nacional de MGF, numa sessão presencial do Clube de Leitura APMGF, já é entendido por muitos com uma ferramenta extremamente útil na educação médica, por ajudar a refletir sobre o conflito que todos os jovens médicos podem ter de gerir em início de carreira, entre a suposta pureza/sagacidade absoluta da ciência e os mistérios que cobrem a realidade no mundo. Admira-o que a obra tenha feito este caminho, em paralelo com outros?

Todos os caminhos que um livro meu possa ter surpreendem-me sempre. Na verdade, quando escrevo não penso nunca num destinatário. Não é que escreva para mim mesmo, mas para um desconhecido que me habita e que se revela apenas no momento da criação. Por isso, o que me diz do “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” é realmente uma surpresa feliz. Gostei que tivesse referido, na sua pergunta, a necessidade de “jovens médicos” gerirem a sua carreira. Num certo sentido, todos os médicos permanecem sempre “jovens médicos”. Porque não esgotam nunca a necessidade de uma aprendizagem que é infinita.

De que forma olha para o crescimento da Medicina Narrativa e para a abertura da prática clínica e das escolas médicas a contribuições de outras áreas do saber como a literatura, a filosofia, a sociologia, no sentido de tornar o médico alguém mais capaz de interpretar as necessidades e a experiência do doente, indo além da mera avaliação dos mecanismos biológicos?

Todo o médico trabalha no domínio da ciência, mas também naquilo que escapa ao exame objetivo. É fundamental que ele tome noção da pessoa que está à sua frente que não pode ser reduzida a um paciente com uma “história clínica”. Recordo-me de, na minha infância, ir às consultas do médico de família dos Caminhos de Ferro na cidade da Beira. O homem nunca levantou a cabeça para me olhar a mim ou aos meus irmãos. Nunca nos olhou nos olhos e nunca nos concedeu mais tempo de escuta que aquele que lhe era estritamente necessário. Os outros médicos, que eram absolutamente o oposto, deixavam-me quase curado apenas pelo facto de me darem a atenção e me escutarem durante a consulta. Um médico renova sempre aquilo que se constituiu com uma presença primordial de uma mãe (ou de um pai) a que a criança recorre para ir mostrar um “dói-dói”. O conforto que essa voz e essa presença instauram é o primeiro passo para que essa dor deixe de existir.

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