Na montanha vive a realidade dura, mas também a promessa de um homem bom

Lançada na década de 40 do século passado, a coletânea «Novos Contos da Montanha» é provavelmente a obra mais conhecida do poeta, ficcionista e ensaísta Miguel Torga (pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha), a par de «Bichos», ou «Vindima». É, de facto, um marco do Presencismo, segunda geração do modernismo português que deve o seu nome à revista «Presença», caracterizando-se por uma escrita alicerçada num tridente poderoso: terra, vida e homem. Nos 22 contos da obra é fácil encontrar referências a imagética animal, personagens que encarnam forças da natureza, uma linha osmótica contínua entre o sagrado e o profano, muitos e bons exemplos de léxico popular, uso profícuo da alternância entre discurso direto e indireto e um ânimo escondido nas linhas do texto, que procura atrair o leitor para a luta contra as injustiças sociais e por uma liberdade primordial, roubada aos mais desafortunados.

Tal retrato de uma região interior de Portugal e de um povo que já não existe hoje (pelo menos na forma exata como foi desvelado na obra) nasce da visão única de um homem que nunca esqueceu as origens transmontanas e a dureza imposta às suas gentes, escritor, pensador, mas também médico devoto. Será o ponto de partida para o debate da próxima sessão do Clube de Leitura APMGF, programada para o dia 26 de abril, pelas 21h00. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.

Ana Sardinha, médica de família que irá dinamizar a sessão, não esconde o apreço de longa data por Torga, que a levou a escolher este livro para uma conversa literária com os colegas: foi, desde sempre, um dos meus escritores de eleição, talvez por ser médico, talvez por ter uma escrita tão simples e adequada a qualquer leitor, quer sejam pessoas simples, quer sejam pessoas complicadas (como ele próprio diz num dos prefácios destes «Novos Contos de Montanha»), talvez porque seja orgulhosamente transmontano. Apesar do seu ar duro tal como a torga (urze campestre com as raízes muito agarradas e duras metidas entre as rochas), escreve com um realismo afetivo e com uma humanidade que sempre me inquietou”.

Sobre o livro propriamente dito, a dinamizadora recorda que se trata de uma coletânea “que não aborda doenças nem se debruça sobre a relação médico-doente. No entanto, relata histórias que «nos falam» das relações humanas no seu melhor e no seu pior, de atitudes nuas e cruas de gente trabalhadora e do seu comportamento perante as adversidades da vida. Mas «fala» sobretudo de emoções e tem a capacidade de nos fazer «entrar nas montanhas e nas suas gentes». Estes Novos Contos são como o autor diz remendados, mas ninguém fica indiferente quando os lê!”.

Os “Novos contos da montanha” surgem marcados por um inegável pendor humanista e universal, apesar da imersão num mundo rural que já é estranho aos olhos de médicos de família mais jovens. Será a obra relevante e atual? Na ótica de Ana Sardinha, as mensagens transmitidas por estas histórias simples e intensamente gráficas conservam, ainda assim, um enorme valor: “apesar de me questionar muito se ainda seria interessante a leitura deste autor, sobretudo para os mais novos, acabei por entender que vale a pena conhecer os nossos autores sempre, e neste caso em particular este lado tão realista e humanista de alguém que lutou muito para ser médico, que nunca teve a vida facilitada e que talvez por isso, ou talvez não, tratava as pessoas como «gente»! Entendo que vale a pena refletir nestes tempos tão conturbados da Medicina e, se o fizermos, conseguimos perceber que as relações, emoções e atitudes que Miguel Torga tão bem descreve continuam muito atualizadas”.

Convidada a imaginar o autor, Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha) enquanto médico, Ana Sardinha faz uso de uma memória feliz e esclarecedora: “há alguns anos estive com sua filha, Clara Rocha, que me confirmou que seu pai era realmente muito afetivo e tinha com os seus pacientes uma relação médico-doente muito próxima, chegando a não levar dinheiro a quem ele percebia que o não tinha!”.

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