Médicos de família empáticos… mas a exigir respeito

Na conferência inaugural do 21º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família Teresa Tomaz (USF do Minho, ACeS Cávado I – Braga) abordou a forma como a narrativa, a literatura e a arte em geral podem ser fabulosos auxiliares para a atividade clínica, contribuindo para melhorar a relação empática com o doente e a própria satisfação dos profissionais. Uma estratégia que pode ser implementada por todos quantos desejem apostar nesta via inovadora, apesar das dificuldades sentidas no dia de muitos médicos de família, pressionados pelo tempo e a acumulação de tarefas. “É difícil após um longo dia de consultas ser-se empático” e é igualmente complicado encontrar tempo disponível para investir na capacidade de entrar na pele do outro, lembrou Teresa Tomaz, porém como a mesma indicou, “o estudo de narrativas pode-nos ajudar a perceber melhor estas competências empáticas que nos levam a estabelecer uma melhor relação entre médico e doente”.

A conferencista reconheceu atravessarmos uma fase delicada para a Medicina e para a MGF, à qual não é alheia, mas sublinhou a existência de um texto do escritor José Luís Peixoto que lê quase diariamente e que a deixa focada naquilo que é nuclear durante a consulta: “o mais relevante é importar-me de perguntar. Porque no momento em que deixar de me importar com as perguntas, então tenho de fazer um reset e pensar no que posso mudar. Assim, a minha arte ajuda-me a não esquecer. Convido-vos, também, a pensarem naquilo que vos ajuda a não esquecer de perguntar ao doente”.

O médico de família é e deve ser pois empático com aqueles que o procuram para conselhos e cuidados, mas essa mesma empatia já é menos devida a quem tem vindo a definir os parâmetros que regem o seu trabalho. Na abertura deste 21º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família, o presidente da APMGF frisou o facto de se intensificar no presente a falta de respeito pela MGF: “enquanto isto se passa, há quem se perca a reinventar a roda, sem perceber que o problema está na base, na valorização das nossas condições de trabalho e da nossa atividade”.

A ausência de empatia para com a classe dirigente é também fomentada pela circunstância de a evolução da carreira médica e a revisão remuneratória dos profissionais se encontrar num impasse, ao mesmo tempo que surgem nos meios de comunicação notícias descabidas sobre supostos aumentos de 60% na massa salarial dos médicos. Infelizmente, como atestou Nuno Jacinto, nada disto corresponde à realidade: “na APMGF fizemos algumas contas a partir de dados oficiais relativos a dezembro de 2022 e constatámos, sem surpresas, que não vamos todos enriquecer ou ter um aumento gigantesco. Aliás, estamos a deixar novamente muitos colegas esquecidos nas UCSP e USF Modelo A e até os colegas das USF em Modelo B correm o risco de regredir. Estamos, neste momento, numa lógica de nivelar por baixo e, estranhamente, parece que alguns de nós ficam satisfeitos por se aproximarem daquilo que tinham há quinze anos atrás”. Neste clima de absoluto descrédito, com muitos médicos de família portugueses a sentirem-se desamparados (face à indiferença para com as suas reivindicações laborais e ao cada vez mais reduzido ingresso de jovens especialistas nas unidades do SNS, onde poderiam fazer a diferença), as declarações de Manuel Pizarro sobre a intolerabilidade de filas às portas dos centros de saúde são ouvidas com indisfarçável incómodo, como testemunha o presidente da APMGF: “concordo com o Sr. Ministro, no sentido em que é inaceitável termos doentes à porta do centro de saúde durante a madrugada, ou utentes sem equipa de saúde familiar atribuída. Discordo é da análise que faz, já que o problema não reside apenas na reforma dos colegas que se aposentam, mas sobretudo na falta de capacidade de atrairmos e fixarmos os colegas mais jovens no SNS e inclusive no sistema de saúde português, não permitindo que estes deem o seu contributo enquanto especialistas em MGF”.

O dirigente associativo destacou ainda o carácter inclusivo deste Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família, que conserva de há alguns anos a esta parte um valor essencial, o de estabelecer parcerias com estruturas que estão próximas dos jovens médicos: “trata-se de um Encontro feito por vós e para vós, com uma colaboração próxima e íntima com as comissões de internos de MGF. O temas trazidos a Ponte de Lima traduzem as escolhas destas comissões e o sentir dos colegas que estão no terreno”.

O segundo dia do 21º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família acolheu pois várias sessões organizadas por comissões de internos de MGF regionais, destacando-se a sessão promovida pela Comissão de Internos de MGF do Norte, subordinada ao tema da «Inteligência artificial em MGF», um novo campo que promete revolucionar a forma como os médicos de família trabalham, poupando-lhes tempo e recursos. Neste âmbito, Susana Oliveira (diretora do mestrado em Gestão e Economia de Serviços de Saúde na Faculdade de Economia da Universidade do Porto e diretora da Pós-Graduação em Gestão e Direção de Serviços de Saúde na Porto Business School) confessa ter uma postura otimista sobre o disseminar deste tipo de tecnologia: “a inteligência artificial (IA) vai permitir aumentar a literacia em saúde, melhorar a comunicação com os doentes e facilitar as tomadas partilhadas de decisão, o que possibilitará gerar boas variações de resultados clínicos. Vai também melhorar o acesso ao conhecimento médico e, simultaneamente, contribuir para minimizar práticas injustificadas”. Mas existem, todavia, perigos próprios do desenvolvimento da IA que não podem ser escamoteados, assevera Susana Oliveira: “há que ponderar os riscos que surgem associados a este tipo de tecnologia. A começar pelas alucinações, já que por vezes aparecem referências a papers e livros inexistentes, em particular nas ferramentas que não foram desenvolvidas especificamente para o setor da saúde, questões de violação da privacidade, a omissão de dados não registados (como a aparência física do doente, o tom de voz, o estado de maior confusão, aspetos que apenas o médico assistente identifica) e, por fim, a limitação de algumas ferramentas que apenas conseguem analisar informação dentro de um período de tempo limitado”.

 

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