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Celebrar o Dia Internacional da Mulher é celebrar a marca feminina na MGF

No Dia Internacional da Mulher, comemorado a 8 de março, nada melhor do que conhecer a visão de duas mulheres, ambas médicas de família, de duas gerações diferentes, que combinadas nos ajudam a perceber a evolução da especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) no feminino, a sua força no passado, energia no presente e inovação para o futuro. Para tal, conversámos com Isabel Santos e Madalena Leite Rio.

Como foi a experiência de ser médica de família em Portugal durante as décadas de afirmação da especialidade?

Isabel Santos – Saliento aspetos ligados à ideologia de género, como o assédio sexual, a gestão de situações de violência, a perceção de competência ligada à idade e ao sexo, a liderança e as diferenças no modo de exercer Medicina, hoje já devidamente documentadas. Muitos desses problemas mantêm-se, mas não tenho dúvida que melhoraram. Diria que nas primeiras duas décadas esses problemas eram mais marcados. As mulheres ainda só representavam 30% da força de trabalho médico e é durante essas duas décadas que se instalam em zonas do país que nunca tinham visto mulheres médicas e jovens.

As mulheres médicas eram subestimadas, quer no local de trabalho pelos seus colegas homens, quer pelos próprios doentes. A demonstração das suas capacidades sempre representou um trabalho extra. Ser tecnicamente competente, ter autoestima, ser honesta, amável, humilde e assertiva ajudaram muito. O machismo, comportamento expresso por opiniões e atitudes que rejeitam e se opõem à igualdade de direitos entre homens e mulheres, favorecendo o género masculino em detrimento do feminino, não desapareceram por milagre pós 25 de Abril. Antes se tornaram mais visíveis, sobretudo nas profissões que foram invadidas por mulheres, como é o caso da Medicina e em particular da MGF. As anedotas e piadas nas redes sociais, que se contam nos intervalos de lazer, nos blocos operatórios, nas reuniões de serviço, nas redes sociais são disso forte exemplo. Hoje somos vigilantes com as anedotas e piadas racistas, mas não somos tão vigilantes nas piadas machistas, sendo que a cultura do machismo não é unicamente exercida por homens é, e muito, também exercida por mulheres que funcionam como perpetuadoras de um sistema que faz delas rivais.

Como descreveria a experiência de ser médica de família em Portugal, numa fase de tantas transformações para a especialidade e para o sistema de saúde?

Madalena Leite Rio – Posso começar pela perspetiva do copo meio cheio e dizer que é um privilégio. Sendo uma fase de mudança, satisfaz-me saber que posso fazer parte dela, ter uma voz e um papel ativo na defesa da minha especialidade. Já o copo meio vazio… vejo-o sempre que me sinto assoberbada com burocracias, sistemas informáticos obsoletos e ineficácia na gestão e distribuição dos recursos de que dispomos para prestar cuidados de saúde de qualidade.

Com que desafios e barreiras, mas também oportunidades, se deparam as mulheres nesta profissão?

Isabel Santos – Os desafios e oportunidades com que as mulheres se deparam na MGF têm muitas semelhanças noutras especialidades. A investigação mostra que os desafios enfrentados pelas médicas mais jovens não desaparecem com a idade ou com a antiguidade na carreira. Questões como o equilíbrio das responsabilidades familiares e profissionais, o assédio, o preconceito, ambientes de trabalho pouco saudáveis, propiciadores de esgotamento e desgaste médico, atravessam todo o percurso de vida de uma médica, mesmo quando são a maioria da força de trabalho. As mulheres continuam de forma significativa a ter maior responsabilidade nos cuidados aos filhos, no acompanhamento da sua escolaridade, nos cuidados de saúde a familiares e nas tarefas domésticas. Existe uma enorme pressão para que reduzam as suas horas de trabalho, talvez por isso exista nas mulheres médicas mais sintomas depressivos e de ansiedade.

Infelizmente, ainda hoje assistimos a situações em que na escolha de elementos para integrar as Unidades de Saúde Familiar se pergunta à mulher se esta pensa engravidar. Não tem havido suficiente denúncia destas situações nem o sistema de saúde tem querido enfrentar esta situação de uma forma clara e aberta. A organização e o planeamento de recursos humanos não contam com esta situação e não a previnem.

As mulheres que escolheram esta profissão (especialistas em MGF) encontram problemas diferentes dos que enfrentam outras mulheres na sociedade portuguesa?

Madalena Leite Rio – A meu ver, nos dias de hoje, nesta profissão (como em tantas outras!!), os contextos familiar e social de cada mulher ditam mais os desafios e as oportunidades do que a profissão propriamente dita. A possibilidade de investir, ou não, em formação; a existência de uma rede de apoio, quando há filhos na equação; e as próprias ambições de cada uma, podem colocar desafios diferentes a mulheres com trabalhos semelhantes.

Felizmente, a minha geração já não teve de lutar para que as mulheres pudessem votar, estudar, exercer Medicina… Mas nem tudo são rosas: vivemos agora numa fase em que a sociedade nos pressiona para nos aproximarmos do polo oposto e espera que nós, mulheres, estejamos e façamos tudo, em todo o lado e ao mesmo tempo. Diria que o maior desafio dos dias de hoje prende-se mais com o conseguirmos definir prioridades, traçar objetivos, pessoais e profissionais, sem irmos atrás da corrente e daquilo que a sociedade espera de nós.

Que futuro gostaria de ver para as mulheres em Portugal, na área da MGF?

Isabel Santos – O futuro das mulheres em Portugal na área da MGF depende, em primeiro lugar, das políticas de planeamento de recursos e de organização do trabalho médico que vierem a ser seguidas. No entanto é preciso atender a outros aspetos conducentes a uma melhor integração das mulheres, nomeadamente no respeitante às barreiras ligadas com a progressão na carreira e aos ambientes saudáveis (assédio, violência, por exemplo). Algumas das mudanças são de natureza sócio-cultural e abarcam toda a sociedade, mas outras são da exclusiva responsabilidade médica.

Se nos anos 90 a proporção de mulheres na Medicina era de 40%, em 2022 já era de 57%. Esta proporção não significa um crescendo proporcional da participação das mulheres em cargos de liderança. Alguns estudos já feitos no nosso país mostram que existe um “gap” de género na representação de mulheres nas organizações e nos eventos mais prestigiados das diversas especialidades médicas ou nos órgãos dirigentes. Ora sabemos que uma das manifestações da desigualdade de género é a fraca participação das mulheres em cargos de liderança e que a sua participação no corpo docente de congressos e reuniões científicas é um marco importante no reconhecimento e progressão da carreira médica. A visibilidade proporcionada pela participação nos eventos científicos e nas organizações constitui um importantíssimo mecanismo de criação e definição de modelos femininos. Ora, as mulheres quando presentes nas organizações de classe tendem a estar mais em cargos de menor relevância, ou com menor potencial. Na APMGF ou na Ordem dos Médicos ainda não tivemos nenhuma mulher no seu topo. Isto para não falarmos – porque desconhecemos números exatos – no lugar ocupado pelas mulheres em Portugal na direção executiva de hospitais, ULS, direção das faculdades médicas ou na chefia dos seus departamentos. Esta baixa presença na liderança verifica-se apesar de o número de graduados do sexo feminino ter vindo a aumentar, e mais de metade dos estudantes que terminam a faculdade serem atualmente mulheres. Esta situação faz com que as mulheres continuem a enfrentar maiores obstáculos na progressão das suas carreiras.

Como perceciona o futuro para as mulheres em Portugal na área da Medicina/MGF?

Madalena Leite Rio – Imagino alguns cenários possíveis mas se me perguntar qual o mais otimista, diria que um futuro em que cada mulher tenha mais apoio para poder desenhar o seu percurso profissional. Um futuro em que cada mulher possa escolher se quer dedicar-se mais à clínica, à investigação, à vida familiar.. Temos mais do que bons exemplos, em Portugal, de mulheres médicas que se destacam pelo papel que desempenham na sociedade científica e civil. Seremos ainda mais quando se assumir que esta milha extra pode e deve ser corrida dentro do nosso horário e não estar dependente do esforço e do trabalho feito “fora de horas”.

A MGF é uma das especialidades médicas em que a presença das mulheres é mais significativa. É uma coincidência?

Madalena Leite Rio – Não creio que seja uma coincidência. Sendo uma especialidade que, atualmente, no SNS, não prevê a prestação de cuidados durante o período noturno, permite conciliar mais facilmente o binómio família-trabalho. Acredito que esta particularidade da MGF seja valorizada por quem pretende apostar também na “carreira familiar” e que seja uma das principais razões pelas quais a MGF tem uma presença feminina mais significativa, quando comparada com a maioria das especialidades hospitalares.

 

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