Nuno Jacinto defende que o país tem de abandonar o foco nas urgências hospitalares

Com o plano de emergência do governo para a saúde, o futuro do SNS, as urgências assoberbadas e as pressões exercidas sobre os serviços de saúde em período estival como pano de fundo, o programa «É Ou Não É?» da RTP1 analisou a atual situação difícil vivida em Portugal e o presidente da APMGF relembrou neste fórum televisivo que “tem de existir forçosamente uma aposta nos cuidados de saúde primários (CSP), se queremos resolver os problemas do sistema como um todo”.

Nuno Jacinto adiantou que a debilidade do SNS se tem acentuado nas últimas décadas precisamente por “não termos olhado para os CSP como a base de todo o sistema e focarmos atenção sempre na outra ponta do espectro, as urgências, preferindo olhar para o telhado da casa, se assim quisermos, em vez de privilegiar os alicerces. Mesmo dentro dos hospitais, precisamos de encontrar outras respostas que permitam colmatar esta preocupação constante que vamos tendo com os serviços de urgência. Ao dia de hoje, continuamos focados na questão hospitalar e é imperativo que a sociedade portuguesa resgate o seu discurso da esfera exclusiva dos hospitais”.

Para o dirigente associativo, os CSP têm obviamente espaço para melhorar, mas já fazem muito entre nós, inclusive ao nível do atendimento da doença aguda, ao contrário do que afirmam alguns dos seus detratores: “não é justo dizermos que nos CSP nada funciona bem. Não é assim! Felizmente nos CSP a maioria das coisas funcionam bem. Aliás, se nos concentrarmos na doença aguda, nos locais em que existe cobertura de médicos de família para cada episódio de urgência hospitalar nós temos três consultas de doença aguda não programada nos centros de saúde dessa mesma área. Ou seja, a maioria da doença aguda é vista nos CSP e é incorreto continuarmos com esta dicotomia de dizermos que as urgências estão cheias porque os médicos de família referenciam mal os utentes para os serviços de urgência. Esta ideia em torno do nós e eles tem de acabar, de uma vez por todas!”.

Dito isto, as equipas dos CSP e os médicos de família poderiam ser mais eficazes, caso existisse continuidade e estabilidade nas soluções implementadas no terreno, como referiu Nuno Jacinto: “não estejamos sempre a tentar reinventar a roda e aproveitemos aquilo que já temos de bom. A solução está encontrada há muito (e esteve a funcionar bem no nosso país, aquando da reforma dos CSP, operada em 2005). Envolve ter médicos de família, enfermeiros de família e secretários clínicos nas nossas unidades, com um conjunto de outras profissões a trabalhar connosco. Quando andamos a tentar construir outras alternativas que não passam por este conceito básico, acabamos por diminuir o papel dos CSP e, ao fazê-lo, vamos como é óbvio criar novos problemas ao nível hospitalar e de todo o SNS. É isto que temos pedido à nova tutela, que olhe para o sistema de saúde como um todo e que nessa lógica aposte fortemente nos CSP”. Apesar deste desejo legítimo dos profissionais, o presidente da APMGF afirma não ver “quer no plano de verão, quer no plano de emergência, medidas concretas que levem ao reforço dos CSP. Não basta dizer que vamos abrir a totalidade de vagas para a MGF. De facto, poderíamos abrir todas as vagas que quiséssemos, mas se não dermos condições atrativas aos médicos de família para ficarem no SNS – condições essas que não passam somente pela remuneração – jamais vamos conseguir que os especialistas em MGF ali fiquem”.

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