Cuidados de Saúde Primários do outro lado da fronteira – Relato de uma experiência em Barcelona

Num internato marcado pela pandemia e limitações daí decorrentes, senti que, quando finalmente retomada a “normalidade”, seria importante complementar o meu percurso formativo, conhecendo outras realidades. Em particular, achei que seria relevante contactar com a organização dos serviços de saúde e as atividades dos cuidados de saúde primários (CSP) noutro país. Assim, em julho de 2023, realizei um estágio de um mês num “Centre d’Atenció Primària” (CAP) em Barcelona, o CAP Chafarinas.

Esta unidade serve um total de 18.104 utentes, residentes nos bairros de La Trinitat Nova e La Prosperitat. Esta população apresenta o menor rendimento familiar e a maior taxa de desemprego de toda a cidade de Barcelona. Trata-se de uma população envelhecida, com predominância do sexo feminino e com uma percentagem de pessoas que vivem sozinhas também superior à média da cidade. As doenças crónicas e problemas de saúde mental são muito prevalentes. Cerca de 29% da população era imigrante, a maioria proveniente da América Central e do Sul, países com rendimentos baixos.

Habitualmente, um médico de família (MF) em Espanha realiza consultas urgentes ou programadas a cidadãos a partir dos 15 anos, tendo a seu cargo em média 1200 utentes. Ao contrário do realizado em Portugal, a saúde infantil é da responsabilidade de pediatras e a saúde sexual e reprodutiva da responsabilidade de ginecologistas e da enfermeira-parteira, aos quais os utentes podiam aceder diretamente nos CSP.

Cada MF tinha alocado um período semanal para consultas ao domicílio, programadas ou de urgência, normalmente realizadas com o apoio de enfermagem, sendo aplicadas escalas de dependência e orientadas patologias agudas e/ou crónicas, assim como questões de âmbito social. Nos restantes períodos, eram realizadas consultas programadas e agudas, agendadas a cada 8 minutos, por iniciativa do médico ou utente. As consultas por baixas eram frequentes, pois além da consulta que motivava a baixa inicial ou prorrogação, a alta também era atestada pelo MF. Em relação aos MCDTs, análises, espirometrias e ECGs, eram realizados na própria unidade e os restantes, como radiografias ou ecografias, eram agendadas na secretaria do CAP e realizadas, preferencialmente, em hospitais públicos. O recurso a prestadores privados era muito pontual, ao contrário do que acontece em Portugal. A prescrição de medicamentos era desmaterializada, sem necessidade de papel ou sms, estando disponível para aquisição na farmácia através do cartão de saúde.

No CAP realizavam-se ainda procedimentos como infiltrações intra-articulares e havia também um dermatoscópio, para avaliação das lesões dermatológicas. Em caso de dúvidas ou necessidade de referenciação, as fotografias podiam ser enviadas ao dermatologista, através de uma aplicação móvel.

Para compreender melhor a vigilância da saúde infantil e da mulher, que fazem parte do nosso dia-a-dia em Portugal, acompanhei também outros profissionais. Realizei consultas com a pediatra geral, que fazia o seguimento das crianças da unidade, com o apoio da enfermeira, contactando com o programa nacional de vigilância, bastante similar ao nosso. Acompanhei ainda a enfermeira-parteira nas consultas de grávidas de baixo risco e rastreios ginecológicos. Era ela a responsável pela realização dos pedidos de MCDTs, avaliação do foco fetal e orientação das grávidas, assim como revisão do puerpério, durante a qual era ainda realizado aconselhamento e prescrição de métodos contracetivos.

Em relação a atividades não assistenciais, diariamente existia um horário comum entre todos os profissionais do serviço, em que se realizavam reuniões multiprofissionais ou atividades formativas, com temas pertinentes para a prática clínica. As atividades para a comunidade são ainda parte muito importante. No momento do estágio estava a decorrer um programa de promoção de saúde mental para a comunidade, orientado pelos psicólogos, com sessões de grupo sobre gestão de ansiedade e técnicas de relaxamento ou estratégias de comunicação.

Os internos de MGF participavam em sessões de grupo Balint, juntamente com uma psicóloga, em que se discutiam dificuldades na gestão da consulta/relação médico-doente e emoções relacionadas com o dia-a-dia de trabalho. Considero isto uma mais-valia, pois permite perceber que as dificuldades são comuns e transversais aos médicos, mas que há pequenas estratégias que podem facilitar este processo e por esse motivo penso que poderia ser uma atividade incluída no internato em Portugal.

A possibilidade da realização de um estágio numa unidade de saúde diferente, durante o internato, é indubitavelmente benéfica. O facto de o fazer também fora do país é ainda mais enriquecedor e permite o contacto com outra realidade, com uma organização e funcionamento distintos. A população migrante constituía uma percentagem importante dos utentes, o que me permitiu o contacto com diferentes culturas e crenças relacionadas com a saúde e doença. O rastreio e a abordagem de doenças infeciosas distinguem-se da nossa prática, pois o seu programa vacinal e o padrão de doenças endémicas existentes variam. Por outro lado, a população daquele bairro era mais pobre, com elevada percentagem de problemas de saúde mental. Situações como violência de género e adições era também frequente, havendo uma espécie de “via verde” para orientação de violência machista, em articulação com a polícia e serviços sociais.

Espanha, apesar de ser o nosso país vizinho, apresenta algumas diferenças na forma de organização. Destaco o facto de o médico de família orientar apenas adultos e adolescentes com mais de 15 anos e da saúde infantil e da mulher ser responsabilidade de outros profissionais. Refiro ainda o acesso mais próximo a alguns MCDTs, que são feitos no próprio centro de saúde e a responsabilidade da prescrição de análises e medicação, que também pode ser realizada pelo enfermeiro, ao contrário do que acontece em Portugal.

Sem dúvida que temos aspetos a aperfeiçoar e a partilha de conhecimentos e de metodologias de trabalho pode contribuir para a melhoria dos cuidados prestados à população. Como interna de MGF, considero que este tipo de experiências é essencial para a aquisição de competências, que só são possíveis através do contacto com uma realidade distinta. Principalmente nos dias de hoje, em que a globalização é cada vez mais evidente e em que a comunidade imigrante em Portugal é crescente, o facto de realizar o meu estágio com utentes de diferentes nacionalidades e de outros contextos é, sem dúvida, enriquecedor. Perceber que o que é aceite como correto depende das circunstâncias, torna-nos mais tolerantes e capazes de lidar com a diferença.

É impossível dissociar os ganhos profissionais do desenvolvimento pessoal que esta experiência me proporcionou, tendo sido uma excelente oportunidade de crescimento, só alcançado porque saí da minha “zona de conforto”, permitindo-me trabalhar num país diferente, com outro idioma e cultura. Por todos os motivos descritos, foi, sem dúvida, uma experiência que fez todo o sentido nesta fase final do meu percurso no internato em MGF e que recomendo a todos.

Sandra Igreja Cunha, Médica Interna de MGF na USF Marquês de Marialva

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