Educação para a Saúde – A experiência da Unidade de Saúde Familiar Buarcos

Autora:
Patrícia Cardoso (médica de família na USF Buarcos)

 

Com o lema “Unidade no Cuidar”, a Unidade de Saúde Familiar (USF) Buarcos abriu as suas portas aos utentes da Figueira da Foz a 11 de dezembro de 2007. O percurso até à sua inauguração foi pautado por um espírito de equipa e de complementaridade entre todas as profissionais, que idealizaram um projeto ambicioso para a prestação de cuidados de saúde primários centrados no utente, baseados no rigor, na qualidade e na humanização dos serviços.

A USF Buarcos é composta por seis médicas, seis enfermeiras e quatro assistentes técnicas. Recebemos, desde 2008, internos de formação específica (IFE) em Medicina Geral e Familiar e também alunos de medicina e de enfermagem, IFE em Pediatria e internos do Ano comum (IAC). Ao longo dos anos, estes elementos têm vindo a contribuir de forma consistente nas atividades da USF Buarcos, trazendo sempre novos desafios e ideias inovadoras que contribuem para o nosso crescimento.

Na USF Buarcos as profissionais estão organizadas por equipas de saúde (médica, enfermeira e assistente técnica) e existe uma equipa responsável por cada programa de saúde: risco cardiovascular, diabetes, saúde infantil e juvenil, planeamento familiar, rastreios da mama e cancro do colo do útero, saúde materna, saúde mental, cuidados domiciliários, rastreio do cancro colo-rectal, doenças respiratórias, doenças reumatológicas, promoção e controlo de infecções e de resistência aos antimicrobianos e promoção da alimentação saudável). São elaborados e revistos regularmente os circuitos do doente (diabetes, risco cardiovascular, alimentação saudável, saúde materna e infanto-juvenil) e folhetos informativos sobre vários temas no âmbito destes programas, definidos com base nas orientações e normas da Direção-Geral da Saúde.

Modelos de intervenção em educação para a saúde

A educação para a saúde é uma estratégia de promoção da saúde, definida pela OMS como uma ação exercida sobre os indivíduos no sentido de modificar os seus comportamentos, a fim de adquirirem e conservarem hábitos de saúde saudáveis, aprenderem a usar os serviços de saúde que têm à sua disposição e estarem capacitados para tomar, individual ou coletivamente, as decisões que implicam a melhoria do seu estado de saúde e o saneamento do meio em que vivem(OMS, 1969).

São vários os modelos de intervenção em educação para a saúde, desde formatos mais informativos de transmissão de conhecimentos, que não reconhecem a capacidade de escolha dos indivíduos, até à promoção da participação comunitária, responsabilizando o indivíduo pela sua própria saúde e capacitando-o para ser, ele próprio, agente de mudança na sua comunidade, passando por um modelo de negociação, em que os indivíduos podem ser orientados para uma tomada de decisão livre e consciente, depois de devidamente informados. Os modelos chamados de terceira geração decorrem da Declaração de Alma-Ata (1978) e designam-se por Educação para a Saúde Crítica. Nestes modelos é valorizada a capacitação dos indivíduos e das famílias, que passam a ter responsabilidades no que respeita à sua própria saúde, assim como na da sua comunidade. Segundo aquela Declaração, as populações têm o direito e o dever de participar individual e coletivamente no planeamento e prestação dos cuidados de saúde.

Na USF Buarcos são várias as formas encontradas para promover a literacia em saúde, começando desde logo pela inclusão de conteúdos de educação para a saúde nos espaços de atendimento da unidade. A USF Buarcos dispõe de vários painéis informativos, folhetos e portefólios, que contêm informação sobre os direitos e deveres dos utentes, aspetos relacionados com as normas de utilização do serviço e matérias relacionadas com a prevenção da doença e a promoção da saúde. Foi também elaborado um vídeo, a passar nos televisores das salas de espera, com várias informações relativas ao funcionamento da unidade e a temas como hábitos de vida saudáveis, vacinação, tabagismo, dislipidémias, atividade física, diabetes mellitus, entre outros.

USF Buarcos empenhada na educação para a saúde

Desde o início da sua atividade que a USF Buarcos desenvolve ações de educação para a saúde, promovendo a relação entre os utentes e os profissionais da unidade e tentando contribuir para a capacitação e responsabilização dos utentes na gestão da sua saúde. Aproveitando momentos comemorativos nacionais e internacionais, como por exemplo, o Mês do Coração, o Dia Mundial da Diabetes, o Dia Mundial da Atividade Física ou a Semana da Amamentação, a equipa promove ações dedicadas à informação sobre os temas com diversas metodologias, tentando proporcionar a participação ativa dos utentes e valorizar o papel destes na sua comunidade, como promotores de mudança.

Algumas destas ações têm-se repetido anualmente, o que leva à participação dos mesmos utentes em anos consecutivos e à necessidade de introduzir elementos inovadores. Tentamos, assim, a cada ano, melhorar a qualidade dessas formações, baseando-nos muitas vezes nas sugestões dos próprios participantes.

Como exemplo, temos a Semana do Coração em Maio, o Dia do Idoso em Outubro e as Olimpíadas da Diabetes em Novembro. A divulgação destes eventos é feita, habitualmente, através de cartazes expostos nas instalações da unidade, convites elaborados pelo telefone ou diretamente pela enfermeira ou médica de família no decorrer das consultas e através da página de Facebook e/ou web da unidade. Verificamos que o convite personalizado pela enfermeira ou médica de família tem um melhor resultado na adesão a estas atividades. Em Abril de 2019, para comemorar o Dia Mundial da Atividade Física, tivemos também o apoio das farmácias locais para a divulgação e inscrição na caminhada que se organizou nesse dia.

A Semana do Coração é desenvolvida para reforçar a importância da atividade física para a saúde do coração. No âmbito do Mês de Maio, Mês do Coração, esta semana integra sessões de formação em sala, uma caminhada e um peddy-paper. As sessões em sala são realizadas de forma a incentivar a participação ativa dos utentes envolvidos, tentando ir ao encontro das suas dúvidas e necessidades. Estas sessões abrangem temas diversos, que tentamos que sejam diferentes de ano para ano. Em 2019, os assuntos abordados foram o papel da atividade física na prevenção de doenças cardiovasculares, alimentação saudável, interpretação de rótulos e o impacto do tabagismo no risco de enfarte agudo do miocárdio e AVC.

A USF Buarcos localiza-se numa cidade privilegiada, que associa a serra à praia e que, por isso, dispõe de vários espaços propícios à atividade física. Na Semana do Coração, os utentes são convidados a caminhar com a sua equipa de saúde, aproveitando-se o efeito de grupo para promover a realização de caminhadas regulares. Muitas vezes, os utentes que se juntam nestas caminhadas acabam por partilhar experiências, dificuldades e estratégias para ultrapassar os desafios que a prática de exercício pode colocar. Este convívio contribui, também, para o combate ao isolamento de utentes mais idosos ou com patologia depressiva.

Para o peddy-paper os utentes inscrevem-se individualmente ou em grupo e participam num circuito pedonal definido pela organização, que tem lugar pelas ruas da cidade, aliando desafios relacionados com as tradições e história local a outros associados à prevenção e controlo dos fatores de risco cardiovascular.

Desafios colocados pelo envelhecimento populacional

O envelhecimento das populações e o aumento da esperança de vida tem levado à constituição generalizada de ficheiros clínicos com uma grande percentagem de idosos. A USF Buarcos não é exceção e a sua equipa reconhece o papel fundamental da educação para a saúde para estes utentes e seus familiares, no que concerne ao controlo dos seus problemas de saúde, à prevenção de agudizações das suas doenças crónicas e à promoção de um envelhecimento ativo e saudável.

Foi a pensar nestes utentes com mais de 65 anos que a USF Buarcos começou a dinamizar sessões de educação para a saúde no Dia Mundial do Idoso, mas, na verdade, eles acabam por fazer parte da população alvo de quase todas as outras ações promovidas na unidade. São, aliás, os utentes mais participativos nestas sessões, muito devido à inatividade laboral e à necessidade de combater o isolamento social. Em 2018, o Dia Mundial do Idoso incidiu na formação sobre a Violência no Idoso, através de cartazes e folhetos divulgados na unidade.

Para comemorar o Dia Mundial da Diabetes desenvolvemos anualmente as Olimpíadas da Diabetes. O objetivo principal das Olimpíadas é capacitar as pessoas com diabetes a gerir a sua doença. Mais uma vez, aliando a atividade física aos conhecimentos teórico-práticos sobre a diabetes mellitus tipo 2, os utentes inscritos são divididos em equipas de dois a quatro elementos, dão um nome à sua equipa e participam ativamente num circuito de vários jogos tradicionais, alternando com desafios sobre a história natural da diabetes, suas complicações e tratamento. No final dos jogos há uma sessão de esclarecimento em conversa com os profissionais envolvidos, que permite a discussão dos temas abordados durante os jogos ou outros que os utentes julguem pertinentes no âmbito da diabetes. Com a colaboração de professores de educação física ou de dança, há uma sessão de exercício integrada nas Olimpíadas, para demonstrar que, com as devidas limitações individuais, todos são capazes de o praticar. Os assuntos abordados nas Olimpíadas são selecionados com base no tema escolhido pela Federação Internacional da Diabetes, que para os anos 2018 e 2019 é “A diabetes e a família”.

Em cada sessão de educação para a saúde a equipa recolhe a opinião dos participantes, assim como sugestões para próximas edições, através da aplicação da ficha de avaliação da sessão. Verifica-se que nas sessões em sala é mais difícil a adesão dos utentes. De uma maneira geral, a opinião dos utentes em relação às sessões é muito positiva e todos consideram importante a realização mais frequente deste tipo de iniciativas.

Para algumas destas ações, nomeadamente as Olimpíadas da Diabetes, temos contado com a colaboração de uma associação local, que amavelmente tem cedido o espaço para as realizar, de professores de dança e de educação física, assim como de alguns comerciantes locais. Esta parceria com agentes da comunidade é uma mais-valia, no sentido em que aproxima as unidades prestadoras de cuidados à população e às suas necessidades em saúde.

Um chá muito proveitoso

Com o objetivo de construir um espaço de formação contínua e de troca de ideias, foi desenvolvido, em 2018, o projeto “Chá das 10, na USF Buarcos. Proporciona-se a criação de um espaço para uma conversa mensal entre alguns utentes e o formador, sempre de chávena na mão. Num ambiente acolhedor e informal, os utentes escolhem o tema a tratar e participam na partilha de ideias e de experiências, contribuindo para a interiorização da informação e para mudança de comportamentos. Em 2018 foram debatidos os temas Combater um inimigo: o sal”, “Açúcar – o doce que pode tornar a vida mais amarga”, “Hoje é dia de prestar atenção à tensão”, “Saúde – o seu lado musical”, “Um bom sono é um sonho possível”, “Sol com moderação para a aproveitar o Verão”, “Depressão: vamos falar para não deixar avançar”, “As diferentes faces das redes sociais”, “Saber envelhecer é saber viver” e “Amizade”. Em 2019, retomámos estas sessões em março e foram já abordados os temas memória e prevenção do cancro da pele.

Este tipo de metodologia parece ter vantagem em relação às tradicionais sessões em sala, em que o palestrante expõe um tema à audiência e esta muitas vezes se sente constrangida em participar. Os participantes são dispostos em círculo onde o dinamizador também se insere e é servida uma chávena de chá a cada um. A conversa acontece naturalmente, as pessoas encontram os seus pontos comuns, criam empatia e é criada uma ligação favorável à exposição de opiniões e à participação de todos os intervenientes.

Semelhante a este formato, também já desenvolvemos na USF Buarcos os Mapas de Conversação sobre a Diabetes. Tendo como mote um poster com vários temas relacionados com a doença, os diabéticos conversam à volta de uma mesa, colocam questões e resolvem, eles próprios, os desafios e problemas que vão encontrando ao longo da exploração do Mapa. Nestas sessões, o dinamizador tem o papel de moderador e é valorizado o utente como principal interveniente na discussão e no controlo da sua doença.

em 2019 teve início um outro projeto, Par-t-ilhas, desta feita direcionado a utentes idosos com perturbação depressiva, tentando complementar o tratamento médico através do combate ao isolamento e à solidão. Num formato semelhante ao Chá das 10, são implementadas várias técnicas de dinâmica de grupo, por forma a cativar os utentes e a desenvolver estratégias de relaxamento, auto-conhecimento e suporte social.

Todos têm noção da responsabilidade

A USF Buarcos reconhece o papel interveniente do cidadão na defesa da sua saúde e o seu direito e dever de influenciar as decisões que afetam coletivamente a população nesta matéria. Para exercer esta influência, o utente deve estar informado e pôr em prática essa informação através da adoção consciente de comportamentos que promovam a sua saúde e contribuam para o controlo das suas doenças crónicas.

Esta informação é dada sistematicamente no contexto de consulta, pelos médicos e enfermeiros de família, mas não é suficiente. As sessões em grupo, realizadas de forma regular, promovem a literacia em saúde e a capacitação dos utentes, de modo a aumentar a sua autonomia e responsabilização, além de que podem contribuir para melhorar a relação médico-doente e a adesão às medidas terapêuticas e aos planos de vigilância instituídos.

Cada médico de família deve ter condições para desempenhar a sua atividade em todas as suas vertentes, tanto no diagnóstico e tratamento de doenças como na promoção da saúde e prevenção da doença, abrangendo a maior percentagem possível de utentes da sua lista. Com a atual dimensão das listas do utentes e perante todas as funções que tem de desempenhar no seu dia-a-dia, algumas delas redundantes e plenas de burocracia, nem sempre o médico de família dispõe de tempo para dedicar à educação para a saúde, o que tem sido um desafio e uma barreira muitas vezes ultrapassada com a colaboração de médicos em formação na nossa unidade.

Os estudos existentes apontam para baixos níveis de literacia em saúde em Portugal. A investigação nesta área é fundamental para se perceber em que áreas é prioritário atuar, de forma a melhorar a capacidade dos nossos utentes de gerir e defender a sua saúde individual e a saúde coletiva. A educação para a saúde contribui para melhorar a capacidade dos utentes adotarem comportamentos que promovam a sua saúde e utilizarem de forma mais eficiente as instituições prestadoras de cuidados, o que, em última análise, irá trazer verdadeiros ganhos em saúde e contribuirá para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

Bibliografia:
Cuidados Primários de Saúde. Relatório da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde. Alma-Ata, 1978. OMS, UNICEF.
Despacho nº 3618/ 2016, Diário da República, 2ª série – Nº 49 – 10 de março de 2016
Queiroz, Sandra. Reflexões sobre Educação para a Saúde. Observatório das Políticas de Educação e Formação. Artigo publicado em dezembro de 2011 na página web do OP.Edu
Plano Nacional de Saúde. Revisão e Extensão a 2020. Maio 2015. DGS. Ministério da Saúde.

 

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