Intercâmbio Pré-Conferência do EYFDM e 28ª Conferência da WONCA Europa – Relato de Catarina Gomes Madeira

Entre os dias 4 e 10 de Junho tive a oportunidade de realizar o intercâmbio pré-conferência dinamizado pelo grupo European Young Family Doctors’s Movement (EYFDM) e de participar na 28ª Conferência da WONCA Europa, em Bruxelas. A partilha de conteúdo formativo aliada à discussão das diferentes realidades dos cuidados de saúde primários na Europa e no Mundo, foram uma oportunidade única de aprendizagem pessoal e profissional.

Durante o intercâmbio que realizei em Bruxelas, visitei um centro de interrupção de gravidez, que oferece apoio médico e psicossocial a grávidas que considerem esta opção. Na Bélgica a interrupção é possível até às 12-14 semanas e o procedimento pode ser realizado por um médico de família com formação e interesse nesta área. Visitei ainda um grupo contra a mutilação genital feminina que para além do apoio social, médico e jurídico a pessoas em risco e vítimas, promove o abandono desta prática na Bélgica e no mundo. Esta iniciativa é um pilar fundamental de apoio às vítimas e aos profissionais de saúde que identificam pessoas em risco, sendo uma realidade cada vez mais presente na Europa devido à migração.

O intercâmbio foi seguido por quatro dias de congresso onde participaram mais de duas mil pessoas de todo o mundo. Dos temas discutidos, destacou-se a importância do contexto social dos indivíduos. Uma das sessões que considerei ter mais impacto nesta área foi realizada pelo grupo de prescrição social da WONCA. Neste workshop foram promovidas iniciativas de prescrição social, onde os utentes são referenciados pelos cuidados de saúde primários a atividades na sua comunidade, com o objetivo de melhorar a saúde e o bem-estar.

Destaco a importância da abordagem da saúde sexual promovida durante a conferência. Neste contexto, apresentei o trabalho intitulado “Trabalhadores do sexo e cuidados de saúde: uma abordagem inclusiva”, que reflete nas consequências da estigmatização desta profissão, incluindo riscos acrescidos de infeções sexualmente transmissíveis, problemas de saúde mental associados a aumento de consumo de drogas e violência interpessoal. Durante a discussão foi reforçada a importância de cuidados de saúde abrangentes a esta população vulnerável.

Integrado no tema de saúde cardiovascular, tive a oportunidade de partilhar o trabalho de investigação realizado na USF onde sou interna, sobre os valores alvo de colesterol LDL nos utentes com Diabetes Mellitus e risco cardiovascular muito alto. Os resultados mostraram que apesar da maioria destes utentes se encontrar fora do alvo, existe renitência por parte dos médicos na intensificação terapêutica ou introdução de estatinas. Após a divulgação dos resultados, foram discutidas possíveis razões para a inércia médica e foi ainda questionada a evidência atual da prevenção primária com o uso de estatinas.

Por último, destaco uma das palestras realizada pela Dra. Huber Machteld, onde foi desafiada a atual definição de saúde da OMS e sugerida a noção de saúde como a capacidade para adaptação e autogestão, diante desafios sociais, físicos e emocionais. Considero que neste congresso foi promovida a partilha de contextos e experiências de trabalho que, aliada à discussão de conteúdos científicos, possibilita o desenvolvimento e crescimento da especialidade de Medicina Geral e Familiar e dos Médicos de Família.

Catarina Gomes Madeira (Médica de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na USF Benfica Jardim, ACeS Lisboa Norte)

 

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