Relato de Maria Inês Leal sobre a 27ª Conferência Europeia da WONCA

Este ano, a 27ª WONCA Europe Conference tinha como tema “Innovating Family Medicine Together for a Sustainable Future”, e assim, o objetivo de proporcionar uma atualização de conhecimentos médicos de forma diversificada, interativa e dirigida sobretudo à inovação em todas as vertentes da Medicina Geral e Familiar. Este congresso, pela sua diversidade e abrangência, oferece a possibilidade de uma vasta partilha de experiências entre colegas com contextos sócio-culturais muito distintos, bem como a discussão dos últimos avanços nas diversas áreas da Medicina Geral e Familiar. É por isso uma experiência extremamente enriquecedora para todos aqueles que nela participam.

Durante o congresso, tive o incrível privilégio de apresentar um trabalho, em sessão Science Slam: “Not all weight loss is cancer, not all late-onset diabetes is type 2”. Este tratava-se de um caso clínico sobre diabetes auto-imune latente do adulto (LADA), cujo propósito era realçar a importância dos diagnósticos diferenciais da Diabetes e relembrar as principais características e critérios diagnósticos desta patologia. Tinha, ainda, como objetivo enaltecer o papel essencial dos Cuidados de Saúde Primários na deteção rápida de patologias menos prevalentes, bem como na aplicação do tratamento mais eficaz. Desta forma, este congresso constituiu uma oportunidade extraordinária de valorização pessoal e profissional, não só como espetadora, aprofundando conhecimentos teóricos, mas principalmente como participante ativa, com impacto muito positivo na minha formação académica, enquanto interna e futura médica de família.

Tendo o programa científico como tema a inovação em MGF, a telemedicina surgiu como um dos principais tópicos em debate durante este congresso. Desde o desenvolvimento de aplicações e software de auxilio à prática clínica, às consultas via telefone ou vídeo-chamada, foram inúmeros os trabalhos a debater as vantagens, desvantagens e aplicabilidade deste lado mais moderno da Medicina.

Um exemplo que gostaria de destacar é a excelente apresentação da colega interna de Medicina Geral e Familiar Daniela Bento – “When the GP cannot change the outcome of the situation: A case report of tuberculosis in the covid era”. Este trabalho relata o caso clínico de um utente em prisão domiciliária com sintomas respiratórios, submetido a teleconsulta, dado o contexto pandémico à data. No caso em análise, percebemos que a telemedicina contribuiu, em parte, para um atraso no diagnóstico do quadro clínico de tuberculose, que culminou no seu internamento urgente por choque séptico, devido a tuberculose pulmonar cavitária. Assim, este constitui um exemplo de algumas desvantagens da telemedicina, nomeadamente a impossibilidade de observação pessoal e física dos utentes, com consequente insensibilidade para possíveis critérios de gravidade de doença. Além da telemedicina, foram ainda abordadas outras temáticas, tais como desigualdades em saúde, educação em saúde, desenvolvimento profissional, saúde planetária e sustentabilidade ambiental, entre muitos outros.

Dentro da categoria de desenvolvimento profissional, houve um trabalho em específico que despertou o meu interesse: “Narrative medicine, narrative-based practice, and training for narrative competence: conversations inviting change” um trabalho cujo objetivo era a divulgação de um workshop em comunicação. Este workshop – “Conversations inviting change”- ensina técnicas de comunicação baseadas na Medicina Narrativa que podem ser aplicadas nas consultas médicas e na educação para a saúde. A Medicina Narrativa pode ser explicada como prática e disposição intelectual que permite aos médicos perceberem para além dos mecanismos biológicos; ou seja adicionar à leitura de sinais físicos uma descodificação das narrativas e outros indícios verbais e não-verbais dos utentes. Tal habilidade requer uma abertura não apenas cognitiva, mas da esfera dos valores na experiência de ambos, médico e utente.

Segundo esta ideologia, todos nós, enquanto seres humanos, temos uma necessidade de contar histórias a fim de conseguir dar sentido à nossa experiência e ao mundo que nos rodeia. Neste sentido, incentivar os utentes a desenvolver uma história nova e mais esperançosa sobre si mesmos e sobre a sua patologia, através de uma comunicação menos científica e recorrendo maioritariamente a interrogações, pode fazer parte da cura, tanto quanto qualquer outro tratamento médico. O interesse da aplicação destas técnicas poderá ser ainda mais relevante em casos de doença crónica e incapacitante, como por exemplo a fibromialgia, em que os tratamentos convencionais não se revelam eficazes.

E, de facto, são já reconhecidos a importância e o poder de uma comunicação produtiva na Medicina em geral, mas especialmente na Medicina Geral e Familiar, garantindo uma melhor relação médico-utente e contribuindo para melhorar os cuidados de saúde centrados na pessoa. Por fim, considero relevante realçar o facto de Portugal estar entre os quatro países com maior representação na Conferência da WONCA Europa, com inúmeras comunicações orais e pósteres apresentados por colegas Portugueses. É com orgulho que percebo que os médicos de MGF Portugueses são dos mais ativos e participativos da Europa, contribuindo para a notoriedade da produção científica Portuguesa e dos Médicos de Família do nosso país.

Maria Inês Sequeira Leal
Interna de Formação Específica em MGF
USF Carvalhido – ACeS Porto Ocidental

 

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