Daniela Bento

Relato e reflexão sobre um Exchange do Vasco da Gama Movement em Londres e 27th Wonca Europe Conference

A vontade de conhecer outras perspectivas e sistemas de saúde, juntamente com o conhecimento do Movimento Europeu de Jovens Médicos de Família, contribuíram para me aventurar nesta experiência internacional. Assim, no 2º ano de internato surgiu a oportunidade de realizar um estágio nos cuidados de saúde primários (CSP) de 2 dias, em Londres, na semana anterior à conferência europeia da WONCA, juntamente com 14 colegas de Medicina Geral e Familiar (MGF), provenientes de diferentes países europeus. O estágio decorreu nos dias 23 e 24 de junho de 2022, numa unidade de saúde localizada na região sudoeste de Londres, o Springfield Medical Centre. Esta experiência revelou-se muito gratificante, permitindo-me contactar com uma realidade profissional e social que se demonstrou surpreendentemente diferente da nossa, existindo algumas diferenças que destaco de seguida.

Contrariamente à realidade dos CSP em Portugal, não existe uma lista de utentes definida por médico de família (MF), sendo que qualquer utente pode ser avaliado por qualquer profissional. Esta é constituída por uma equipa de quatro médicos especialistas de MGF, duas internas, duas healthcare assistants, três administrativos, cinco recepcionistas, uma farmacêutica, uma prescritora social e um coordenador. Ainda, no caso de o inglês não ser a primeira língua do utente, este dispõe de apoio de intérpretes.
O tempo disponível por consulta é de 10 minutos, sendo suficiente em muitos casos, já que o utente só pode trazer uma queixa/motivo por consulta. Em caso de o utente ter mais de um problema a ser abordado, ser necessário um intérprete ou em caso de consulta de saúde materna, é disponibilizado mais tempo de consulta e agendado em conformidade.

Relativamente ao sistema de prescrição, dispõem de um serviço de prescrição eletrónica, em que o MF ou a farmacêutica envia a receita eletronicamente para o local onde o utente efetuará a sua dispensa, local este, previamente selecionado pelo mesmo. Outra grande diferença comparativamente aos CSP em Portugal, são as consultas de saúde infantil, uma vez que as crianças apenas são vistas pelo MF até às 6 semanas. Posteriormente, são avaliadas em centros por enfermeiros especializados na área de saúde infantil, que sempre que acharem necessário entram em contacto com a unidade de saúde a que o utente pertence para serem vistos por um MF e estes avaliarem a necessidade de encaminhar para consulta de pediatria. Também as consultas de vigilância de hipertensão ou diabetes têm uma organização diferente comparativamente a Portugal. Estes utentes são vistos uma vez por ano pelo MF e são monitorizados pela equipa de healthcare assistants, e sempre que esta ache oportuno agenda consulta com o médico, para reajuste terapêutico.

Relativamente à realização de meios complementares de diagnóstico, os utentes são orientados para hospital de referência para sua realização. No entanto, o MF fica um pouco limitado no estudo de certas patologias, por exemplo, se entender que o utente deve realizar uma colonoscopia, por suspeita de patologia subjacente, deve referenciar para a consulta de Gastroenterologia.
Por outro lado, pude verificar que os CSP têm uma ligação mais estreita com os cuidados de saúde hospitalares, conseguindo obter de forma rápida através de um sistema de comunicação direta, opinião clínica, qual a melhor orientação a nível dos CSP ou eventual necessidade de referenciação aos cuidados de saúde hospitalar.

Assim, esta experiência foi bastante enriquecedora, tanto a nível pessoal como profissional, permitindo-me compreender que o MF em Portugal tem um papel mais ativo na vida e saúde dos seus utentes, mais autonomia na vigilância e acompanhamento, no diagnóstico e seguimento de certas patologias. Permitiu ainda confrontar-me com algumas ideias de gestão e de organização que poderiam ser implementadas no nosso país.

Nos dias 28 de junho a 1 de julho de 2022 decorreu, no Centro de Congressos Excel, em Londres, a 27ª Conferência Europeia WONCA. Esta conferência contou com a presença de médicos internos e médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar de 76 países de todo o mundo, sendo Portugal o 4º país mais representado. De facto, foram inúmeros os trabalhos que foram apresentados sob a forma de comunicação oral e póster, contribuindo assim para a notoriedade da produção científica Portuguesa e dos nossos Médicos de Família.

Esta conferência proporcionou uma formação médica diversificada e interativa, através de networking, permitiu o contacto com realidades e perspectivas diferentes sobre a Medicina Geral e Familiar e como é ser Médico de Família noutros países e ainda, troca de experiências, problemáticas, ideias e conhecimentos. Tal como o slogan do congresso nos diz – Innovating family medicine together for a sustainable future – a partilha e o debate de ideias, de visões e perspetivas diferentes contribui sempre para a melhoria, promoção e desenvolvimento dos cuidados de saúde primários tanto a nível nacional como global. Este congresso assentou não só numa pluralidade de realidades profissionais, como também numa diversidade de temáticas, desde telemedicina, desigualdades em saúde, inovação, melhoria da qualidade, educação em saúde, desenvolvimento profissional, saúde planetária e sustentabilidade ambiental, entre muitas outras, contando com ótimas apresentações e sessões plenárias.

A destacar a apresentação da colega interna de Medicina Geral e Familiar, Maria Inês Leal, que apresentou o tema “Not all weight loss is cancer, not all late-onset diabetes is type 2” em formato science-slam. Foi uma brilhante apresentação, partindo de um caso clínico, uma mulher de 57 anos, que por teleconsulta referiu perda de peso desde há um ano e astenia. Após duas medições elevadas de glicemia foi diagnosticada com diabetes mellitus tipo 2 e começou a tomar metformina+ dapagliflozina. Mesmo com a instituição do tratamento e de uma alimentação equilibrada, mantinha um mau controlo glicémico, tendo iniciado a insulina. Apesar disso, os valores alvo não foram alcançados e a utente mantinha um peso muito baixo. Posteriormente, foram realizados testes de autoimunidade, que demonstraram presença de autoanticorpos e níveis baixos de peptídeo C. Assim, foi feito o diagnóstico de diabetes autoimune latente do adulto (LADA), a otimização do tratamento com insulina, com consequente boa evolução da HbA1c e recuperação do peso. Este caso é muito interessante e chama-nos a atenção para a LADA, muitas vezes mal diagnosticada, não só por ser uma condição pouco frequente, mas também devido ao desconhecimento dos critérios de diagnóstico. Reforçou, ainda, o papel essencial dos cuidados de saúde primários na detecção rápida de patologias menos prevalentes e, adicionalmente, representou um exemplo prático do impacto que a pandemia de Covid-19 teve no acesso aos cuidados de saúde primários.

Outro tema que destaco, foi o tema da prescrição social, onde foi abordado a sua importância e os benefícios para os utentes. De facto, parecem existir já alguns estudos que demonstram evidência científica dos benefícios das intervenções da prescrição social. A prescrição social foi formalmente integrada na resposta do serviço nacional de saúde do Reino Unido em 2019. Visa abordar as circunstâncias sociais adversas que contribuem e têm repercussões nos problemas de saúde de base dos utentes e na sua saúde mental. Desta forma, procura ajudar os utentes a aceder a grupos comunitários, serviços de suporte disponíveis na comunidade, dando a conhecer eventos sociais, convívios, caminhadas, museus, frequentar a universidade sénior, entre outros, de forma a melhorar a sua saúde física e mental, bem-estar e qualidade de vida.

A prescrição social pode ser benéfica nos casos de solidão e isolamento social, em idosos, utentes com limitações motoras ou cognitivas, sedentarismo, doenças cardiovasculares, saúde mental, obesidade, diabetes, DPOC, pobreza, problemas de adição e em casos de sem-abrigo. Em Portugal, existe já um projeto de prescrição social desenvolvido pela USF Baixa e na USF Almirante – ACES Lisboa Central, que visa dar respostas sociais de acordo com os recursos da comunidade, de forma a otimizar a saúde dos seus utentes. Assim, toda a partilha de conhecimento, a alegria e entusiasmo sentidos, contribuíram para que esta conferência tenha sido uma experiência única e muito enriquecedora para o meu percurso profissional enquanto interna de Medicina Geral e Familiar e enquanto futura Médica de Família.

Terminando com uma frase que marca a cerimónia de encerramento… “Do the best you can until you know better. Then, when you know better, do better” – Maya Angelou

Daniela Filipa Almeida Bento
Interna de Formação Específica em MGF
USF Prelada, ACeS Porto Ocidental

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