Relato e reflexão sobre um Hippokrates Exchange no sul de França

Autoras:
Carine Silva¹ e Bárbara Chaves²
1 – Médica Interna de Medicina Geral e Familia – USF Águeda + Saúde
2 – Médica Interna de Medicina Geral e Familia – USCP Águeda V

 

Conhecer outras realidades e sistemas de saúde diferentes sempre nos despertou interesse. Através da participação de dois congressos europeus de Medicina Geral e Familiar (em Praga, no ano de 2017 e, posteriormente, na Polónia), fomos entrando em contacto com diferentes realidades, aumentando ao longo do internato a curiosidade em conhecer diferentes sistemas de saúde. No 4º ano de internato, surgiu a oportunidade de realizar um estágio no sul de França. Escolhemos Banyuls-sur-Mer por ser uma zona pouco solicitada pelos médicos portugueses, principalmente pela dificuldade na língua, sendo por isso uma realidade ainda pouco conhecida e explorada.

O estágio decorreu entre o dia 2 e 13 de setembro de 2019, orientado pelo Dr. Pierre Frances, em Banyuls-sur-Mer, zona turística e vinícola, com cerca de 4771 habitantes. O estágio decorreu numa unidade de saúde onde estavam a trabalhar três médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar e uma secretária clínica.

As diferenças entre o sistema de saúde português e o francês são inúmeras. A gestão de cada unidade de saúde é privada, sendo que qualquer cidadão que reside em França deve ter um seguro de saúde. O médico de família (MF) francês exerce a sua atividade de uma forma independente, sem apoio da enfermagem. Por esse motivo, é o médico de família que realiza vacinação, tratamento de feridas e realização de pensos.

Durante o nosso estágio observámos que apenas eram realizadas seis consultas programadas por dia (das 14h às 17h), sendo que o restante horário estava reservado a consultas de “urgência/agudos”, sem limite nem qualquer tipo de triagem. Alguns motivos de consulta não eram de patologia aguda urgente mas sim de pedidos de consulta de “rotina” ou de “vigilância” de doença crónica. Durante o mês de setembro, por ser o início de ano letivo, houve uma grande afluência de pedidos de certificados médicos desportivos, ou de atestados médicos para escolas. Entre as 8h00 e as 9h30, eram realizadas consultas de urgência ao domicilio. Não existem contactos indiretos, ou seja, tudo é tratado e resolvido presencialmente, inclusive a renovação de medicação crónica, emissão de relatórios clínicos ou continuação de tratamentos de fisioterapia.

Não existiam consultas de vigilância de hipertensão, saúde materna, diabetes, saúde infantil, sendo que o utente é que agenda consulta sempre que achar necessário. O MF sub-especializa-se numa área de interesse e direcciona a sua prática nesse sentido. O Dr. Pierre Frances dedicou a sua carreira à Dermatologia, sendo bastante procurado pelos seus utentes para resolução de problemas cutâneos. A zona de Banyuls-sur-Mer, por ser uma zona costeira, apresenta uma prevalência importante de neoplasias cutâneas. Durante o decorrer da consulta o médico raramente faz registos informáticos, dedicando o tempo de consulta à comunicação com o utente e à realização de um exame objetivo cuidado e direcionado. Por um lado, considerámos que tal valoriza a relação médico-doente, no entanto, para eventuais controlos de qualidade e até para “memória” do próprio médico, considerámos esta realidade pouco vantajosa, quando comparada com a nossa, apesar de todos os problemas que a nossa informática apresenta.

A decisão é na maioria dos casos partilhada e podemos observar que os utentes apresentavam uma grande literacia em saúde, mesmo os mais idosos, tendo a responsabilidade de agendar consulta. Além disso, foi notório o grau de autonomia e atividade que os idosos demonstravam durante a consulta. Os utentes têm autonomia para marcar consulta para o médico que desejarem, mesmo não sendo o seu médico de família. Podem até fazê-lo diretamente ao nível dos cuidados de saúde hospitalares. O pagamento é feito ao médico, no final da consulta.

A realidade dos cuidados de saúde primários franceses foi surpreendentemente diferente. Um ponto positivo do sistema francês é que é possível reservar um tempo de consulta de urgência ao domicilio, diário, que pode ser uma mais valia em situações específicas em que o utente, pela sua doença aguda ou agudização de doença crónica, não consiga deslocar-se ao centro de saúde

Na unidade de saúde onde estagiámos é realizado, sempre que necessário, tratamento recorrendo à mesoterapia, remoção de cerúmen e também acupunctura. Além disso, na clínica era possível realizar colheita de análises (pelo médico), o teste rápido de pesquisa de Streptococcus A e a realização de pequenas cirurgias/biópsias.

Em contexto de conclusão, consideramos o nosso Sistema Nacional de Saúde mais organizado, com uma boa articulação entre os profissionais de saúde, que através da equipa médico, enfermeiro e secretário clínico oferece mais qualidade nos cuidados de saúde que presta à população. A experiência foi bastante enriquecedora e construtiva a nível pessoal e profissional, permitindo-nos valorizar a prestação de cuidados de saúde realizados em Portugal e aquisição de algumas ideias que poderiam ser implementadas no nosso país, das quais destacamos a consulta diária de urgência ao domicílio.

Referências:
1. http://vdgm.woncaeurope.org/content/about-hippokrates

 

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