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22 Crónica
Luiz Miguel Santiago
Como lidam os médicos com a
polifarmacoterapia associada à
multimorbilidade
Na senda de dar a conhecer o que os futuros médicos a serem formados na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior discor-
rem sobre temas específicos, porque passam pela prática de unidades de saúde em Medicina Geral e Familiar, trago-vos um muito bom texto, com
organização “médica”. Havendo acordo para a publicação aqui vai, solicitando-vos a mais interessada leitura
A
multimorbilidade é uma realidade inegável nos dias de hoje e inexoravelmente associada a esta surge a polifarmacoterapia. Estes dois conceitos são uma das mais prementes proble-
máticas da atualidade no âmbito dos cuidados de saúde primários, uma vez que os médicos de Medicina Geral e Familiar são, por excelência, os gestores destas temáticas. Por todos
estes factos, escolhemos abordar a forma como os médicos lidam com a polifarmacologia. E achamos pertinente concretizar este trabalho como se de uma consulta estruturada se
tratasse, uma vez termos considerado esta uma abordagem mais sistematizada e até mesmo lúdica.
Registo SOAP da consulta de apoio à prescrição:
Utente – Dr. António
S Já não sei como gerir todos os medicamentos dos meus doentes (sic)
Utente vem por queixas de confusão ao nível da prescrição medicamentosa. Estas dificuldades são sentidas ao nível da prescrição e controlo dos fármacos em doentes com polifarmacologia. E refere também alguma
sensação de impotência, pois não consegue muitas vezes ajudar a 100% os seus doentes.
Após uma cuidada avaliação o utente não tem correta noção daquilo que constitui multimorbilidade e polifarmacoterapia.
A polifarmacoterapia consiste na utilização simultânea de múltiplos fármacos/medicamentos. Existem 2 tipos de farmacoterapia, a minor (2-4 fármacos) e a major (5 ou +). Muitas vezes este termo tem uma co-
notação negativa, que reflete a realidade de prescrição medicamentosa no dia-a-dia, com utilização inapropriada e irracional, múltiplas doses e consumo desnecessário de múltiplos fármacos num doente que leva
à iatrogenia. No entanto, não podemos esquecer que a polifarmacoterapia pode ser apropriada, como nos casos de diabetes mellitus ou hipertensão arterial.
Por sua vez, a multimorbilidade consiste na associação de uma doença crónica com qualquer outra doença aguda ou crónica, ou até mesmo um factor de risco biopsicossocial.
O Para se perceber melhor qual a dimensão do problema fomos procurar dados objetivos acerca da população portuguesa e o exame objetivo nesta situação revelou:
- Prevalência de polifarmacoterapia minor foi de 30,8%.
- Prevalência de polifarmacoterapia minor na população idosa foi de 39,6%.
- Prevalência de polifarmacoterapia major foi de 17,2%.
- Prevalência de polifarmacoterapia major na população idosa foi de 37,1%.
- Prevalência da polifarmacoterapia minor e major é maior nos idosos.
- Polifarmacoterapia maior nas mulheres.
A nossa avaliação do problema permitiu-nos identificar algumas lacunas que consideramos poderem ser desencadeadoras das dificuldades de gestão de carteiras medicamentosas volumosas. Salientamos os se-
guintes:
- Formação médica básica organizada de forma incorreta, na medida em que os principais focos na farmacoterapia são nos anos não-clínicos, enquanto que nos anos clínicos o ensino centra-se mais nos problemas
de saúde, na sua identificação e conhecimento geral da terapêutica, sendo descurada a integração dos fármacos específicos, os seus efeitos adversos, interações medicamentosas e aplicabilidade real.
- Formação médica em multimorbilidade e multipatologia rara nas faculdades médicas portuguesas.
A - Prescrição “ad-hoc”, pois a falta de conhecimento e integração de farmacologia nos anos clínicos leva à mimetização de prescrições de colegas mais experientes, que podem não se guiar pela melhor evidência
clínica, levando a erros médicos.
-Guidelines inadequadas a pacientes com multipatologia e multimorbilidade, focando-se em doenças específicas.
- Fraca interligação entre hospitais e médicos de família. Por exemplo, aquando de internamentos ou consultas programadas os clínicos das especialidades hospitalares centram-se muitas vezes na tentativa de
resolver o problema que lhes compete e não percebem o doente como um todo. Isto leva frequentemente a prescrição de medicação desajustada. E na nossa ótica, caso existisse uma comunicação eficaz entre o
centro de saúde e o hospital estas situações poderiam ser minoradas, e os riscos que delas advém para o doente seriam mitigados.
- P – drugs, ou seja um conjunto de medicamentos muito bem conhecido pelo médico prescritor, de acordo com os critérios de eficácia, segurança, conveniência, interação e custo, que este irá usar com maior
regularidade no dia-a-dia na consulta. Não impedindo que se usem outros, mas este pool medicamentoso permite com maior segurança prescrever fármacos corretamente, não indo em tendências de novos medi-
camentos em que são antecipados os benefícios e minimizados os riscos conhecidos e não conhecidos.
- Prevenir a medicação inapropriada nos idosos por recurso a ferramentas já estudadas e provadas como a melhor prática clínica, como é o caso da Lista BEERS, que têm em conta os factores que aumentam a
vulnerabilidade dos idosos aos fármacos (diminuição da capacidade funcional renal e hepática, diminuição do volume de distribuição e aumento da massa gorda, aumento da suscetibilidade aos medicamentos,
menos recursos económicos, entre outros).
- Utilização de acrónimos que orientam o processo de decisão farmacoterapêutico, como AVOID Mistake (A-alergias, V-vitaminas e medicamentos naturais, O- medicamentos antigos (old), I-interações, D-depen-
dências, M(endel) - história familiar e/ou farmacogenómica), NO TEARS (N - necessidade e indicação, O - perguntas abertas, T- teste e monitorização, E- evidência e guidelines, A - efeitos adversos, R - redução
P do risco e prevenção, S - simplificação e conveniência), levando a que quando um medicamento seja prescrito este seja o mais adequado ao doente evitando a iatrogenia ao mesmo e a sobremedicação.
- Suporte eletrónico melhorado (com todas as opções disponíveis no mercado, preços e etc.) e em cooperação com o INFARMED, que com maior segurança poderá levar a uma prescrição de medicamentos mais
eficaz, menos iatrogénica e em maior conformidade com as diversas patologias do doente. Ainda na parte eletrónica poderá ser feito um esforço e uma cooperação entre o governo e o INFARMED, com vista a criar
“alertas” quando fosse prescrito um medicamento e este interferisse na medicação habitual do doente.
- Inclusão no plano curricular das faculdades de medicina de cadeiras que abordem a polifarmacoterapia e a sua melhor gestão.
- Promoção de congressos, mesas redondas e investigação, permitindo assim a atualização dos médicos e por conseguinte melhor abordagem no dia a dia.
-Elaboração de normas de orientação clínica que especificamente regulem a polifarmacoterapia e atualização das normas pré-existentes de forma a que esta temática seja incluída.
- Criar uma via de comunicação eficaz entre hospital e centro de saúde. Concretizando, seria muito profícuo se ao iniciar o seu dia de trabalho o médico de família recebesse automaticamente uma notificação de
episódios de urgência ou internamento dos seus doentes. Desta forma, o médico poderia remeter ao hospital de forma rápida e resumida as patologias do doente e antecedentes importantes, bem como qual a
medicação que está a fazer. Este aviso automático deveria também existir sempre que algum medicamento diferente dos usuais fosse prescrito ao doente.
Agradecido, Leonor Gomes e João Fernandes
Setembro 2017

