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12    Opinião


                                                                  A importância do trabalho em equipa

                                                                  Mais do que um grupo de trabalho,


                                                                  um grupo de amigos!




                                                                          á alguns (não muitos) anos atrás, uma en-  ternato de MGF me reservava: o trabalho, as dúvidas,
                                                                          tão interna de Medicina Geral e Familiar   os receios, as angústias, as lágrimas, mas também os
                                                                   H(MGF) decidiu criar um grupo de trabalho   sorrisos, a partilha de material de estudo, as conversas
                                                                  com os internos da Unidade de Saúde Familiar (USF)   infinitas, o festejo das conquistas, as reuniões conver-
                                                                  onde estava a fazer o seu internato de formação es-  tidas em jantares convívio e, claro, os abraços no mo-
                                                                  pecífica. Este grupo teria como objetivo a articulação   mento certo! Desenvolvemos muitos trabalhos é certo,
                                                                  mais eficaz entre internos e especialistas da USF, bem   enriquecemos muito o nosso currículo, mas sobretudo
                                                                  como uma melhor adequação, qualidade e pertinência   aprimoramos o saber estar e saber sentir. Todos os dias
                                                                  para equipa da atividade científica desenvolvida por es-  vamos buscar aquilo que cada um tem de melhor em
                                                                  tes – estávamos em 2012 e nascia o Núcleo de Internos   prol do grupo, com o objetivo de limarmos arestas, tor-
                                                                  da USF Famílias (NIUF).                     nar-nos cada dia melhores... enfim, crescermos juntos.
                                                                  Quando integrei a equipa da USF Famílias, em 2015, já   Os primeiros meses do ano têm um sabor agridoce.
                                                                  sabia da existência deste grupo e, confesso... foi um fa-  Acolhemos mais um par de novos elementos, mas sa-
                                                                  tor com um peso bastante considerável na escolha do   bemos que é altura de ver alguém partir para a sua
                                                                  local de formação. Saber que teria um grupo de pares   nova vida... a vida de especialista; e entre as lágrimas
                                                                  vasto com quem trabalhar, que me iriam acolher nos   da antecipada saudade de não ter a sua presença diá-
                                                                  meus primeiros meses de constante busca pelo “o que   ria fica o sorriso envergonhado de orgulho pela con-
                                                                  é suposto fazer?”, “como devo fazer?”, foi algo que me   quista do outro.
                                                                  motivou ainda mais para procurar a USF Famílias.   Eles partem, mas não para sempre, pois as amizades
                                                                  Éramos treze quando eu entrei... treze é mesmo um nú-  verdadeiras perduram além das paredes da USF e não é
                                                                  mero de sorte! Hoje estamos nove, pois tal como tudo   a distância ou a repleção de trabalho que limita. É bom
                                                                  na vida, o mundo corre e cada um tem que procurar o   trabalhar  em  equipa!  Obrigada  amigas(os)  do  NIUF.
                                                                  seu caminho a seguir! E tal como dizia o poeta, “aqueles   Sem vocês não seria a mesma coisa.
                                                                  que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
                                                                  Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.                   Ana Catarina T. Rodrigues
                                                                  Foi este grupo que cedo me mostrou aquilo que o in-   Médica Interna de MGF na USF Famílias






       A cefaleia da resposta social

       Um caso de levar para casa…




              erça-feira  de  manhã.  Como  habitual,   ou estudos recentes que auxiliem na decisão. De
              fui receber a D. Rosa à porta. Com ela   acordo com as competências nucleares do médi-
        Tvinha um senhor que imediatamente e   co de família, este deve realizar uma abordagem
       com um tom agressivo se identificou como sendo   abrangente,  tendo  em  conta  uma  orientação
       seu primo. Já com alguma inquietação, talvez fru-  comunitária. Mas as dúvidas continuam a surgir,
       to da minha insegurança com o tom agressivo do   o que dispomos nós para ajudar a D. Rosa? Um
       familiar, convidei-os a sentar.         lar? Uma família de acolhimento? De que forma
       Enquanto  se  sentavam,  naqueles  milésimos  de   poderemos  nós  ajudar  a  D.  Rosa  respeitando  o
       segundos, aproveitei para os observar. A D. Rosa   que ela nos pede? Para agravar, o que temos nós
       com o seu ar sempre feliz, lenço negro à cabeça,   a sugerir com a sua reduzida reforma? Levamos
       pele  queimada  do  sol  da  veiga,  carregava  toda   estas  dúvidas  connosco,  pensamos  e  pensamos
       uma roupa igualmente negra, por todos os fami-  e mesmo depois de as escrevermos não sabemos
       liares que ela com os seus 83 anos já tinha visto   como cuidar.
       morrer. O seu primo, também com aparência de   É essencial que o médico de família conheça a es-
       80 anos, mas ainda com muita agilidade nos mo-  trutura de apoios sociais, estatais e não-estatais,
       vimentos, rapidamente se sentou.        que devia tratar-se de um sistema coordenado.
       “Então D. Rosa, como tem andado?”- comecei eu.   Mas as respostas não chegam para os problemas
       Pergunta gatilho para o primo, que de imediato   que  detetamos  no  nosso  consultório.  Estamos
       explodiu. “Tem que resolver esta situação. Eu não   longe de conseguir que a nossa população idosa
       aguento mais. Ou me ajuda ou eu deixo-a mesmo   viva com a dignidade que, de novos, idealizamos
       sozinha”.                               para ela.
       A situação atual em que a D. Rosa vivia era moti-  Como futura médica de família, a minha preocu-
       vo de preocupação para o seu primo. Vivia numa   pação e o meu compromisso são com a pessoa e
       casa velha, com más condições físicas, onde al-  não com a doença, integrar o doente na socieda-
       bergava também vários animais que ela cuidava   de de forma harmoniosa e com menos sofrimen-
       (entre  galinhas,  patos,  coelhos  e  possivelmente   to.  É  um  compromisso  sem-termo  e  a  solução
       outros), tudo dentro das mesmas quatro paredes.   muitas vezes não está na farmacologia tanto es-
       Passava o dia na veiga, comia o que apanhava dos   tudada na faculdade.
       quintais vizinhos e não aceitava qualquer tipo de
       ajuda. Dizia  “estou muito feliz assim”, “não me   (os nomes apresentados são fictícios)
       tirem a minha liberdade”. A MGF depara-se fre-
       quentemente com estas dificuldades na consulta.                Mafalda Cerqueira
       Aqui não há protocolos, guidelines internacionais   IFE MGF 3º ano, USF Lethes - ULSAM

                    Novembro 2017
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