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Personalidade  15


                                                                                                                     A morte de José

                                                                                                                     António Miranda


                                                                                                                     Perda




                                                                                                                     irreparável







                                                                                                                     O  médico de  família  José  António
                                                                                                                     Miranda, sócio nº 734 da Associação
                                                                                                                     Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

                                                                                                                     (APMGF), faleceu no passado dia 2
                                                                                                                     de outubro. José António Miranda
                                                                                                                     exerceu a sua profissão como chefe

                                                                                                                     de serviço de Medicina Geral e Fa-
                                                                                                                     miliar (MGF) no Centro de Saúde

                                                                                                                     dos  Olivais,  foi formador  na  área
                                                                                                                     de investigação no âmbito do Insti-
                                                                                                                     tuto de Clínica Geral da Zona Sul

                                                                                                                     e da Coordenação do Internato de
                                                                                                                     MGF, bem como membro do Conse-

                                                                                                                     lho Científico durante vários anos e
                                                                                                                     editor (entre 1991 e 2001) da então
                                                                                                                     Revista Portuguesa de Clínica Geral.

                                                                                                                     Deixa enormes saudades entre os co-
                                                                                                                     legas que o conheceram e um legado
                                                                                                                     de irreverência, criatividade e rigor

          O                          depois  outros  países,  mais  ricos  e   “Uma pessoa desconcertante”  da APMGF, com a sua liderança na   muito prazer, quer nos eventos as-
                recente  desaparecimento
                                                                                                                              sociativos, quer nas reuniões anuais
                de  José  António  Miranda
                                                                                                RPMGF  (tornando-a  uma  revista
                                                                   “O  adjetivo  que  me  ocorre  para  o
                                     com mais tradição na área da inves-
                consternou  a comunida-
                                     nação desse projeto. Ele ainda lutou
                                                                                                o  seu  envolvimento  na  formação
                                                                                                                              onde discutíamos sempre acalora-
                                                                   concertante”, afirma Paula Broeiro,
        de nacional da MGF. “O Miranda foi   tigação, se apropriaram da coorde-  descrever, enquanto pessoa, é: des-  científica credível) e sobretudo com   da  Rede  dos  Médicos  Sentinela
        um  grande  médico  de  família,  um   para que a coordenação ficasse em   médica de família que conhecia José   em investigação de milhares de mé-  damente novos projetos e ideias de
        sonhador, um homem bom, amigo,   Portugal porque o projeto era seu,   António Miranda desde a sua chega-  dicos de família na zona sul. Enquan-  investigação”. Para Jaime Correia de
        crítico,  pertinente,  com  sabedoria   mas perdeu e isso fê-lo abandonar   da à especialidade em 1991, como   to formador adaptou-se à evolução   Sousa, o seu colega agora desapareci-
        e  conhecimento,  despretensioso,   o  EGPRW  e  caminhar  sozinho.  O   todos  quantos  fizeram  os  cursos   das  pedagogias  e  às  necessidades   do terá sempre um lugar assegurado
        simples no trato mas complexo no   resultado do seu trabalho está pu-  de  investigação  na  zona  sul.  Paula   dos então futuros médicos. Inovou   em  todas  as  narrativas  futuras  que
        pensamento. Fico muito triste com   blicado  na  Revista Portuguesa de   Broeiro  reconhece  que  começou   e cedo percebeu o que nos impor-  se venham a contar sobre o desen-
        a  perda  deste  colega”,  declara  Rui   Clínica Geral”. Isabel Santos evoca   por sentir sobretudo muito respeito   tava, enquanto médicos – saber ler   volvimento  da  especialidade  entre
        Nogueira, presidente da APMGF.   ainda traços de personalidade mar-  por este homem, “quase medo, por   e aplicar conhecimento proveniente   nós: “foi, de facto, um dos pioneiros
        Também  Isabel  Pereira  dos  Santos   cantes  de  José  António  Miranda,   ser  tão  exigente,  rigoroso,  frontal   da  investigação.  Contribuiu  assim   da MGF em Portugal. Os colegas que
        (regente  da  disciplina  na  NOVA   que  tanta  admiração  geravam  em   na forma de expressar o que pensa-  para o desenvolvimento do pensa-  com ele cresceram para a profissão
        Medical School)  se  recordará  du-  quem  com  ele  colaborava:  “é  um   va sobre as coisas. Com os anos de   mento crítico e tornou a MGF, nova   e que com ele despertaram para as
        rante muito tempo desta figura ím-  médico para relembrar pela riqueza   convivência  fui  percebendo  a  pes-  especialidade  médica  em  Portugal,   lides  de  investigação  sabem  bem
        par da especialidade: “conheci mais   da sua personalidade e pela sua in-  soa inteligente, perspicaz, sensível e   par das restantes”.  como a sua forma irreverente e cria-
        de  perto  o  Zé  António  em  1989,   teligência. Pelo que fez e pelo que   capaz de ouvir, conhecer e respeitar     tiva de ver os problemas, nem sem-
        numa das várias residências de um   não fez. Pelas escolhas e pela deter-  o outro na sua diferença, valorizan-  A todos os níveis, um pioneiro  pre de forma alinhada pela maioria,
        curso de formação de formadores   minação, às vezes «casmurrice». É   do  o  potencial  individual,  mesmo   Jaime Correia de Sousa (coordena-  trouxe  com  frequência  novas  ideias
        (naquela altura de 220 horas) que   mais um bom exemplo dos valores   que implicitamente”.   dor da área de Saúde Comunitária   e projetos coletivos que ajudaram a
        co-organizei. Foi aí, para mim, que   éticos da profissão e da cidadania.   Acrescenta  que  José  António  Mi-  da  Escola  de  Medicina  da  Univer-  criar e a consolidar a MGF de hoje.
        ficou  expresso  o  seu  compromisso   Foi  sempre  inteiro  e  coerente.  A   randa  “não  passou  anónimo  pela   sidade  do  Minho)  é  outro  dos  re-  Durante  o  seu  mandato,  a  Revista
        futuro  com  a  educação  médica  e   sua diversidade e a sua unidade são   vida, nem pela profissão” e que era   presentantes  históricos  da  MGF   deu  um  enorme  salto  qualitativo,
        com o ensino da metodologia de in-  expressas  em  muitos  gostos  mas   alguém “naturalmente racional e li-  que  teve  a  felicidade  de  cooperar   com  um  corpo  editorial  mais  sólido
        vestigação. Depois, através do Insti-  talvez o mais unificador, para mim,   vre, livre no pensar e no agir, o que   e  aprender  com  José  António  Mi-  e aumentando o rigor do sistema de
        tuto de Clínica Geral da Zona Sul, foi   seja o seu gosto pela música e pela   o tornava seguro de si e desconcer-  randa: “conheci o José António há   revisão  interpares.  Foi  também  dos
        o nosso representante no EGPRW,   ópera.  Teve  várias  vidas  e  percor-  tante  para  os  demais”.  Por  outro   muitos  anos,  nem  sei  precisar  há   primeiros a pensar e a tentar sem êxi-
        onde  desenvolveu  e  viu  aprovado   reu muitos caminhos. Sabia de Me-  lado,  Paula  Broeiro  acredita  que  a   quantos. Foi com ele que dei os pri-  to a indexação da revista o que ainda   Novembro 2017
        o protocolo de estudo sobre «Car-  dicina, lia muito, sabia ler a ciência   própria especialidade vai ficar a de-  meiros passos na compreensão das   não se conseguiu até aos dias de hoje.
        ga de trabalho e uso do tempo nas   e a música, era dedicado e um bom   ver  muito  a  este  homem,  um  dos   metodologias  de  investigação  e  a   Recordo-o com saudade. Foi mais um
        consultas de clínica geral"» Quis que   amigo. É um orgulho tê-lo na gale-  seus expoentes máximos no nosso   arriscar  planear  um  estudo.  Reen-  dos bons que partiu precocemente.
        esse  trabalho  tivesse  uma  escala   ria dos médicos de família. Tê-lo-ei   país: “a MGF portuguesa enriqueceu   contrámo-nos com muita frequên-  Vai-nos fazer muita falta”.
        europeia  e  venceu  a  ideia.  Só  que   sempre comigo”.  com o seu contributo na construção   cia ao longo da vida, sempre com              TR
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