«Não Eras Tu Quem Eu Esperava» traz para o universo das novelas gráficas uma história pungente, a viagem (interior e pública) de um homem na descoberta das expetativas, frustrações e desejos mantidos em relação ao lar e à família, da aceitação da diferença naqueles que nos estão mais próximos, bem como sobre o amor e o seu poder irrefreável e sem preconceitos. O livro, escrito e ilustrado por Fabien Toulmé, é um relato autobiográfico que expõe como este jovem originário de Orleães – engenheiro civil de formação – aprende a viver com algo que não antecipava: a chegada de uma segunda filha (Julia) que nasce com trissomia 21. Por entre a convulsão de sentimentos antagónicos, sucessivos doces e amargos de boca, um pai procura ajustar-se à nova realidade, construída no início de surpresa, angústia, medo e interrogações. O testemunho, que nos leva num embalo da estranheza inicial à redenção apenas reservada às mais puras formas de afeto, marcará a próxima sessão do Clube de Leitura APMGF, agendada para 11 de fevereiro, pelas 21h00 e que terá como proponente Martino Gliozzi, médico de família em Lisboa. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.
Em «Não Eras Tu Quem Eu Esperava» somos convidados (mesmo que com incómodo e resistência da nossa parte à mistura) a acompanhar a jornada difícil, porém esclarecedora, de um homem que se confronta com um dos temores mais naturais na vida de qualquer pai: e se o meu filho nascer com algum problema? Do abalo, à raiva e rejeição do diagnóstico, dos olhares de pena que se procura evitar nos corredores ao peso da vergonha e julgamento alheio, nada é escondido do leitor, ou temperado com passagens mansas. Contudo, de modo gradual, o acento das palavras, a energia no traço e as cores mudam, com o autor a enamorar-se por uma criança que sem ser o esperado é, porventura, muito além do esperado e igual ou superior medida de felicidade.
As palavras e as imagens, em cada página, servem o mesmo propósito e estão em simbiose, cruas, diretas e descritivas. Em conjunto, ousam mostrar emoções que talvez não pudessem ser expressas de noutra maneira. São, também, uma aliança feliz para a missão a que se propõem: contar uma história de amor terna sobre o tema universal da diferença e sobre a aceitação de uma nova vida. Porque este é um livro sobre a beleza de tal dádiva, não sobre a trissomia 21.
“A arte permite-nos com mais facilidade colocar-nos no lugar dos utentes, empatizar e perceber o que se passa nas suas vidas. Podemos usar, no nosso dia a dia e nas consultas, imagens, narrativas, pinturas ou músicas, que se podem revelar terapêuticas e úteis. Por outro lado, o meu cérebro é muito visual e considero que, de facto, as imagens por vezes podem ser mais poderosas do que as palavras. Para mim, quer o cinema, quer a fotografia e a banda desenhada têm um impacto muito forte na tentativa de colocar-me no lugar de alguém que tem uma experiência diferente”, refere Martino Gliozzi, ao explicar a sua escolha por uma novela gráfica enquanto objeto de apreciação no Clube de Leitura.
O médico da USF da Baixa recorda que existem “várias graphic novels autobiográficas, que contam coisas tensas sobre a vida”, mas que certas obras deste género em particular podem permanecer ativas na nossa consciência, muito tempo depois de virada a última página: “quando me deparo com as pessoas que têm a coragem de partilhar tudo aquilo de complicado porque passaram, as suas histórias mexem comigo e, de alguma maneira, mudam a minha prática e possibilitam que com mais facilidade me coloque no lugar do outro. Veja-se, por exemplo, a circunstância de um pai que tem a abertura de compartilhar, como acontece em «Não Eras Tu Quem Eu Esperava», a dificuldade inicial de criar uma ligação com o filho recém-nascido e de amá-lo, são sentimentos complexos de transmitir com sensibilidade. Penso que a força deste livro está sobretudo na mensagem e na transparência a que o autor recorre para contar tudo o que o envolve”.
Sobre o livro de Fabien Toulmé, especificamente, Martino Gliozzi nota que o mesmo apresenta “uma ligação direta com a Saúde e descreve o contacto com o sistema sanitário. Ao longo da narrativa, o personagem (que é em simultâneo o autor), relaciona-se com ginecologistas, geneticistas, pediatras ou médicos de família. Assim, conseguimos entender um pouco melhor como, do outro lado, uma pessoa fragilizada se sente quando vai a uma consulta, a importância daquilo que fazemos e dizemos”. O médico proponente frisa ainda, para os colegas que possam estar mais desatentos face à evolução recente deste tipo de literatura, que na atualidade a oferta de livros e coleções direcionadas aos leitores não juvenis tem florescido: “o cenário mudou muito nos últimos anos. Antigamente, a banda desenhada equivalia quase só a strips dos Peanuts ou Charlie Brown, ao Corto Maltese, Lucky Luke e outros semelhantes. Ou seja, histórias de entretenimento mais direcionadas ao público infanto-juvenil, imersas num tempo que não passa, sem uma estrutura narrativa tradicional e sem ligação consequente entre os variados acontecimentos e personagens. Com o advento da novela gráfica, os autores começaram a explorar assuntos políticos, históricos, sociais com enorme qualidade. Aliás, quando hoje em dia visitamos grandes festivais de BD, como o Festival Internacional de Angoulême, em França, não encontramos adolescentes, mas sim leitores adultos que procuram obras com uma componente visual mas focadas em temáticas sérias, uma leitura transformadora”.
Acerca das confissões descritas e desenhadas por Fabien Toulmé neste livro, o médico de família da USF da Baixa acredita que as mesmas são entregues ao leitor com um tom de grande sinceridade e um espírito positivo: “é uma obra que nos traz muita esperança, quando acabamos de a ler, mas que ao mesmo tempo nos abre novas perspetivas sobre como podem reagir as pessoas que têm filhos com trissomia 21. Conseguimos também interiorizar todas as fases pelas quais passa o autor e, no final, tudo acaba com imagens bonitas, pelo que não considero ser esta uma obra pesada, no sentido mais restrito do termo. Além de que na literatura, tal como no cinema e em outras artes, é fundamental que falemos sobre estas questões, na medida em que fazem parte da vida real. Com toda a honestidade, o que histórias como esta me dão é energia positiva, não tristeza…”.
No que concerne à identidade estilística de Fabien Toulmé, Martino Gliozzi considera que esta surge vinculada a um certo minimalismo pictórico e sobretudo à vontade de transmitir emoções através da clareza visual: “ao contrário de outros, que privilegiam um tipo de desenho mais onírico, surrealista ou estilizado, Toulmé faz uso de desenhos muito simples, realistas e opta por um estilo direto. O livro tem ainda a particularidade de cada capítulo surgir ilustrado com uma cor diferente, com cada uma dessas cores a traduzir uma emoção predominante”.
Embora se tenha dedicado tarde no seu percurso de vida à banda desenhada e ao romance gráfico e seja, em Portugal, relativamente desconhecido, Fabien Toulmé merece com toda a justiça a designação de autor prolífico. Inicialmente publica online e em conhecidas revistas francesas de banda desenhada (BD), de que são exemplo Lanfeust Mag, Psikopat, Spirou, entre outras, e em antologias (Alimentation générale – Éditions Vide Cocagne, Vivre dessous – Editions Manolosanctis, Les autres gens – Dupuis, etc.).
Em 2014, alcança grande êxito junto do público e da crítica com a sua estreia no domínio da novela gráfica, por intermédio de «Não Eras Tu Quem Eu Esperava». Três anos mais tarde investe em «Les deux vies de Baudouin», também com a editora Delcourt. Um dos momentos mais marcantes do seu trajeto enquanto autor é provavelmente o lançamento da trilogia «L’Odyssée d’Hakim» (A Odisseia de Hakim), entre 2018 e 2020, produção tripartida que nos oferece as aventuras e desventuras de um jovem sírio deslocado pela guerra, que se tornou um bestseller internacional (com mais de 200 mil exemplares vendidos).
O primeiro volume desta trilogia permitir-lhe-á vencer o Prémio Region Centre-Val-de-Loire no festival de banda desenhada BOUM 2018, enquanto o terceiro volume foi distinguido com o prémio France Info para BD de atualidade e reportagem em 2021 e com o prémio Inspireo des Lycéens, em 2022. Em 2020, arrecadaria também o prémio Schlingo, em co-autoria com Caloucalou, pela obra «Cher Dictateur».
Em 2023 Fabien Toulmé, por esta altura colaborador regular e assíduo da revista Spirou e membro do coletivo L’atelier Mastodonte, publica «Inesquecíveis» com a editora Dupuis, uma série de contos que narram histórias reais onde o destino de vários personagens derrapa em curva inesperada e assume contornos dramáticos.











