O Hippokrates Exchange Programme é um programa de intercâmbio de duas semanas num país europeu para médicos internos e recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF). Apoiado pela WONCA e pela EURACT, o programa tem como objetivo incentivar a mobilidade entre jovens médicos, promovendo a partilha de experiências e boas práticas entre médicos de família europeus, permitindo um contacto direto com diferentes modelos de prestação de cuidados de saúde primários.
Tive a oportunidade de realizar o intercâmbio clínico na Áustria, em Steyr, uma cidade em Oberösterreich (Alta Áustria). Steyr tem cerca de 38 mil habitantes, mas uma elevada densidade populacional. Está localizada a cerca de 166km de Viena e conectada com toda a Áustria pela excelente rede ferroviária. A cidade, mencionada pela primeira vez em 980 como “Styraburg”, é dotada de uma história rica e é um pilar na economia austríaca pela indústria metalúrgica, automóvel e historicamente no fabrico de armas. Localizada na confluência dos rios Enns e Steyr, esta cidade prima pela sua beleza ímpar que apaixonou o compositor Anton Bruckner.
Portugal e a Áustria apresentam dimensões territoriais e populacionais semelhantes, bem como uma percentagem de investimento em saúde comparável relativamente ao PIB. Contudo, em valores absolutos, o investimento na Áustria é substancialmente superior, refletindo a maior capacidade económica do país e traduzindo-se numa maior disponibilidade de infraestruturas, equipamentos e recursos humanos e financeiros.
O intercâmbio foi facilitado pelo Dr. Jonas Rech e decorreu no Primärversorgungszentrum Neuzeug-Sierning (PVN), uma unidade de cuidados de saúde primários moderna, integrada e orientada para a eficiência, o bem-estar dos profissionais e a qualidade assistencial. Desde o primeiro dia, destacou-se o excelente ambiente de trabalho, com forte espírito colaborativo, instalações amplas e bem iluminadas, espaços comuns convidativos e uma clara preocupação com a ergonomia e a produtividade.
A unidade encontra-se particularmente bem equipada. Para além da disponibilidade de ecografia em cuidados de saúde primários, são realizados procedimentos como crioterapia para tratamento de verrugas, pequena cirurgia e infiltrações articulares. Existe ainda material para otoscopia digital, lavagem auricular, realização de ECG e uma sala dedicada a tratamentos endovenosos, permitindo evitar referenciações externas desnecessárias. Todas as salas estão equipadas com modelos anatómicos e fisiológicos atualizados, bem como tablets com aplicações de apoio à decisão clínica e promoção da literacia em saúde.
A organização física do PVN merece particular destaque. Perante doentes com sintomas respiratórios infeciosos, existe uma triagem diferenciada, sendo estes orientados para uma sala de espera distinta dos restantes utentes. A observação clínica decorre também em salas específicas, com utilização adequada de equipamento de proteção individual, permitindo reduzir o risco de contágio, uma prática simples, mas muito eficaz que permaneceu após a pandemia. A equipa clínica é composta por quatro médicos especialistas em MGF, sendo de referir que a MGF apenas adquiriu recentemente o estatuto de especialidade na Áustria, o que torna particularmente interessante observar o investimento atual neste nível de cuidados.
No mesmo edifício funcionam equipas multidisciplinares integradas no PVN, incluindo fisioterapia (com quatro salas de tratamento e resposta rápida até em patologia periarticular aguda), nutricionista, três psicólogas, terapia da fala, audiologia, enfermagem, serviço social e assistentes operacionais. Trata-se de um serviço público, mas em articulação com seguradoras,refletindo um modelo híbrido de financiamento.
Um aspeto organizacional particularmente interessante é a existência de uma coordenadora da unidade dedicada exclusivamente à gestão, não pertencendo à equipa clínica nem sendo médica. Esta profissional é responsável pela articulação externa, resolução de problemáticas organizacionais e negociação com seguradoras, libertando os médicos para a atividade assistencial.
A dinâmica da agenda médica caracteriza-se por consultas de 10 minutos, mas com facilidade de incrementar a duração de consulta. Atendendo à duração, as consultas apresentam elevada rotatividade e foco (geralmente) em apenas um problema por agendamento. De forma particularmente eficiente, existem salas de espera secundárias (wartezone) onde o doente deve aguardar, de forma a otimizar a consulta e reduzir a latência entre consultas.
Apesar do menor tempo por utente, existe disponibilidade diária de agendamento. O planeamento estratégico do dia médico divide-se em blocos bem definidos: consultas programadas de seguimento (maioritariamente grupos de risco); blocos de agendamento diário para situações agudas ou consultas no próprio dia; e blocos de atividade clínica não presencial, dedicados sobretudo à reavaliação clínica e análise de meios complementares de diagnóstico.
Na atividade não presencial, não é prática corrente a renovação de receituário, existindo uma cultura de corresponsabilização do utente. O utente pode adquirir a medicação crónica de forma autónoma, sem necessidade de renovação médica sistemática. O pedido de receituário pode ser validado diretamente na secretaria, por e-mail ou através de plataformas digitais, utilizando o sistema de leitura do cartão GIN-O. Assim, cabe ao médico a prescrição e garantir que a medicação crónica está atualizada em sistema, mas não é sobrecarregado pela necessidade diária de emissão de medicação crónica dos seus 1000 a 1200 utentes.
Interessantemente, as visitas a ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas) constituem outra diferença relevante face à realidade portuguesa. Na Áustria, os médicos de família mantêm a responsabilidade clínica pelos seus utentes institucionalizados, não existindo um médico exclusivo da ERPI. Estas visitas estão incluídas na jornada de trabalho, garantindo continuidade de cuidados ao longo do ciclo de vida.
A Saúde da Mulher é assegurada na totalidade pela Ginecologia-Obstetrícia, incluindo vigilância da gravidez, planeamento familiar e rastreio do cancro do colo do útero, o que contrasta fortemente com a prática portuguesa e despertou grande curiosidade e admiração por parte da equipa do PVN relativamente à nossa organização.
O Programa Nacional de Vacinação é semelhante ao português, embora com diferenças relevantes na vacinação contra o tétano e na inclusão da vacina para o Herpes Zoster. Ainda assim, a Áustria enfrenta desafios importantes em saúde pública, com taxas de vacinação inferiores às portuguesas, maior prevalência de partos domiciliários, consumo problemático de álcool (11,3 litros de álcool puro por pessoa por ano, com binge drinking em 48% dos jovens), tabagismo (20,6% dos adultos são fumadores diários), uso crescente de pouches de nicotina e violência doméstica (a afetar um terço das mulheres ao longo da vida).
A morte medicamente assistida é permitida na Áustria, levantando questões éticas e organizacionais relevantes, que mereceram reflexão ao longo do intercâmbio. Entre os principais desafios do sistema de saúde austríaco destaca-se a inexistência de um sistema informático integrado, com plataformas distintas entre unidades e hospitais, dificultando a continuidade de cuidados. Acresce ainda a utilização do ICD-10 nos cuidados de saúde primários, um sistema pouco ajustado à complexidade da prática da MGF. Em contrapartida, é notável o envolvimento dos doentes, que conhecem bem a sua medicação e frequentemente trazem registos clínicos hospitalares.
Os ganhos do intercâmbio vão além das duas semanas de contacto com a prática clínica. Para além da evidente partilha de conhecimentos, as experiências internacionais permitem uma compreensão mais alargada das diferentes formas de organização e prestação de cuidados de saúde. As diferenças observadas não decorrem apenas da disponibilidade de recursos, mas também da forma como o contexto social, cultural e económico influencia a abordagem às mais diversas situações clínicas. O Hippokrates Exchange Programme revelou-se, assim, uma oportunidade privilegiada para quebrar barreiras, promover a colaboração entre profissionais de diferentes realidades e estimular uma reflexão crítica sobre a prática clínica de ambos os países.
Esta visita durante a época natalícia permitiu viver os mercados tradicionais e celebrações únicas como Saint Nicholas e o Krampus. Isto permitiu um contacto próximo com tradições profundamente enraizadas na identidade local e conhecer o seu estilo de vida particularmente ativo, fazendo múltiplos trilhos pelas montanhas cobertas de neve e patinar no gelo. Steyr revelou-se uma cidade que oferece muito para além do contexto profissional. Existe nela uma sonoridade própria, uma musicalidade constante que nunca tinha experienciado em noutro lugar. Esta dimensão sensorial e cultural contribuiu de forma marcante para a vivência do intercâmbio, reforçando a ideia de que experiências internacionais são também uma oportunidade única de crescimento pessoal e de contacto com outras formas de estar e viver.
Por fim, não posso deixar de agradecer ao Dr. Jonas Rech, que foi um verdadeiro guia e amigo, acompanhando-me dentro e fora da unidade de saúde e proporcionando experiências que ficarão para sempre na memória. E à Dra. Inês Castro, que enquanto coordenadora nacional dos intercâmbios, tornou toda esta experiência possível apesar de todos os desafios. Este intercâmbio superou largamente todas as expectativas, permitindo alargar horizontes e repensar a prática da Medicina Geral e Familiar em contexto nacional e europeu.





























