Bruno Heleno vence prémio «Médico de Família do Ano» e galardão «Médico de Família ao Longo da Vida» é partilhado entre José Mendes Nunes e Luiz Miguel Santiago

Os médicos de família foram, uma vez mais, as estrelas na segunda edição da Gala MGFamiliar, momento em que são revelados os prémios Médicos de Família de Ouro. A cerimónia decorreu no passado dia 9 de janeiro, nas instalações da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos (Porto).

A organização, liderada por Carlos Martins (dinamizador do portal MGFamiliar e plataforma Dr. Share) anunciou os vencedores nas diversas categorias, com o prémio na categoria «Médico de Família do Ano» a ser entregue a Bruno Heleno (médico de família na ULS Santa Maria e docente na NOVA Medical School). O laureado recordou que a Gala MGFamiliar e os Prémios Médicos de Família de Ouro representam “um evento positivo da nossa especialidade” e mostrou grande esperança no futuro, sobretudo pelo número de doutorados da MGF (em número de 70 atualmente) e da presença da especialidade na academia: “estamos a chegar a uma massa crítica que permitirá que a MGF em Portugal não seja apenas excelente na clínica, na formação, mas que comece também a ganhar presença em projetos internacionais e a responder de forma cabal àquelas que são as dúvidas da nossa prática diária, para as quais não existe evidência e que deve ser gerada por quem está dentro”.

O prémio de carreira, designado por «Médico de Família ao Longo da Vida» foi atribuído ex-aequo a Luiz Miguel Santiago (o primeiro médico de família doutorado na Universidade de Coimbra, primeiro regente da cadeira de MGF naquela instituição académica e impulsionador da Clínica Universitária de MGF) e José Mendes Nunes (médico de família que fez grande parte da sua carreira na região de Sintra e que no presente desenvolve atividade na USF Alpiarça, é docente na NOVA Medical School e alguém com uma dedicação muito especial à área da comunicação em consulta). José Mendes Nunes garantiu que apesar de ser um dos dois vencedores do prémio, “este é sobretudo pertença dos internos” com quem trabalhou, porque “quem mais aprende é quem ensina” e agradeceu à APMGF por ter sido, desde o início, “um porto seguro”, onde encontrou colegas que o inspiraram e motivaram. Refletindo sobre o seu caminho de várias décadas, lembrou que teve nas mãos seis listas de utentes diferentes e que pese embora todos os avisos à navegação, nunca encontrou populações difíceis: “aprendi muito com os meus doentes e só lamento não ter aproveitado tudo o que tinham para me ensinar e algumas coisas que lhes prescrevi. O médico de família tem muito mais coisas que pode fazer para além de prescrever”. O premiado aproveitou também para deixar um recado a quem dirige os destinos do sistema de saúde: “acabem com os intermediários que possibilitam aos utentes falar com os seus médicos. O médico é, de facto, da família e dentro na família não há intermediários”.

Nesta gala foi também divulgado o prémio «Melhor Tese de Doutoramento MGF do Ano», entregue a Marta Fonseca, graças à tese «Mapeamento conceptual como ferramenta para facilitar o raciocínio clínico em casos complexos de multimorbilidade no ensino pré-graduado em cuidados de saúde primários», bem como distinguido enquanto «Melhor Artigo Científico» o trabalho «Prevalência da asma em adultos portugueses – o estudo EPI-ASTHMA, um estudo de base populacional nacional», de Dinis Brito e coautores.

Produção científica divulgada no portal MGFamiliar em 2025 primou pela excelência

Um dos objetivos centrais dos prémios Médicos de Família de Ouro passa por reconhecer a melhor ciência e investigação partilhadas durante o último ano no portal MGFamiliar, numa eleição em que todos os médicos de família podem votar.

Assim, na categoria «Melhor Artigo “A Não Perder”», o prémio foi para Rebeca Cunha (USF Trilhos Dueça), pelo trabalho «Esperar e observar é uma opção a considerar na litíase biliar sintomática sem complicações» e na categoria «Melhor Artigo de Prescrição Racional» a distinção coube ao artigo «Avaliação dos opióides no tratamento da dor lombar e cervical», de João Lopes Guedes (USF Santo André de Poiares).

Já na categoria «Melhor Algoritmo do Ano», os votantes optaram por valorizar o trabalho de Sara Andrade, Gabriela Oliveira, Ana Luísa Pereira, Mariana Faria e Rita Chavães, que criaram o algoritmo «Vigilância de Nódulos Tiroideus». A «Melhor Ferramenta de Apoio à Consulta» foi, de acordo com os colegas que participaram na votação, «Apoio à consulta – Vigilância da pressão arterial», de Miguel Bhatt Ambaram e Joana Abrantes.

Muito para celebrar no universo da MGF, apesar dos desafios diários

Segundo Nuno Jacinto, presidente da APMGF, torna-se hoje claro que “na nossa especialidade existem, felizmente, múltiplos trabalhos que se destacam pela sua excelência metodológica, relevância clínica dos seus resultados, contributo significativo para a melhoria dos cuidados que prestamos e que influenciam diretamente e de forma positiva a nossa prática clínica”, circunstância que , entre outras, legitima por completo uma iniciativa como os prémios «Médicos de Família de Ouro». Ainda na ótica do dirigente associativo, “a investigação feita pelos médicos de família reflete o compromisso de todos nós com a qualidade, a inovação e a produção de conhecimento que tem enorme aplicabilidade no dia-a-dia da MGF”. Nuno Jacinto sublinhou, em acréscimo, que “num dia em que se celebra a especialidade, é inteiramente justo que se celebre em particular a enorme qualidade da ciência que produzimos”.

Para André Biscaia, presidente da USF-AN, “a missão dos MF é cada vez mais desafiante. Muito mais do que qualquer enredo dos filmes do agente 007. Gostava de ver o 007 a gerir uma lista de utentes… salvar o mundo? Queria era vê-lo a preencher o RAUF! Vilões? Não há nenhum como o Dr. Não Burocracia ou SClínico Goldfinger…”. Na perspetiva do presidente da USF-AN, é de elogiar em especial “a bravura de quem entre consultas, PAUF’s e IDE’s, ainda encontra tempo para a investigação e trabalho académico”.

Por seu turno, Carlos Cortes (bastonário da Ordem dos Médicos) frisou que esta é uma oportunidade anual de “reconhecer o esforço, porque o reconhecimento dos profissionais é algo de fundamental para o desenvolvimento da nossa atividade enquanto médicos”. O bastonário acrescentou ainda que esta iniciativa dá ênfase ao valor da MGF e à sua importância para a “coesão social e territorial do país. A ligação fabulosa que os MF conseguem estabelecer com as pessoas é notória e o papel que têm desempenhado permitiu que o SNS – não obstante as dificuldades que atravessa e atravessou – tivesse obtido um enorme êxito e conseguisse transformar Portugal ao longo de quase 50 anos. Não teríamos o SNS que conhecemos no presente se não fosse a MGF”. Carlos Cortes defendeu que embora o trabalho dos MF não abra telejornais, ao contrário das crises nas urgências e no INEM, é ele é muito valioso e apreciado por quem está atento: “bem sei o esforço que desenvolvem, tudo o que fazem, em prol dos vossos doentes. Não conheço outra especialidade que reflita tão bem a visão, a estrutura e a imagem hipocrática da Medicina”.

O mentor e força motriz por detrás desta gala e dos prémios Médicos de Família de Ouro, Carlos Martins, considera que a iniciativa é e continuará a ser um sucesso graças aos alicerces sólidos em que se apoia e aos seus desígnios, mais do que justos: “é uma noite especial, em que nos reunimos para celebrar a nossa especialidade, identidade, missão e valores que nos unem e em que reconhecemos o percurso notável de colegas”.

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