Relato de Alexandra Pimentel sobre Intercâmbio Hipócrates nos Países Baixos

Tive a oportunidade de realizar um Intercâmbio Hipócrates nos Países Baixos em agosto de 2024, na clínica Het Doktershuis em Ridderkerk, sob orientação do Dr. Jos Van Heest. Procurei esta experiência pois sempre tive curiosidade em explorar e compreender diferentes tipos de sistemas de saúde. O intercâmbio permitiu-me uma visão comparativa e crítica sobre as diferentes abordagens na prestação de cuidados de saúde em Portugal e nos Países Baixos, levando-me a refletir acerca da organização do Serviço Nacional de Saúde Português.

O sistema de saúde dos Países Baixos é privado, tendo os utentes um seguro de saúde obrigatório, que cobre consultas com o Médico de Família (MF), cuidados hospitalares, cuidados de saúde materna e uma lista de medicamentos preferenciais, desde que sejam clinicamente indicados. Os utentes pagam os primeiros 385€ em despesas anuais de diagnóstico e terapêutica, sendo o restante valor coberto pelo seguro (sempre com necessidade de justificação clínica nos processos clínicos eletrónicos).

Uma das diferenças mais significativas que observei foi o rigoroso controlo do acesso ao Serviço de Urgência (SU), em que os utentes têm de ser triados pelo MF ou por um enfermeiro de triagem para serem admitidos no SU. Este modelo foi implementado de modo a evitar a sobrecarga dos profissionais e recursos do SU, garantindo que os cuidados urgentes e emergentes sejam reservados para as situações adequadas.

No que diz respeito ao papel do MF, constatei que nos Países Baixos há uma maior delegação de tarefas para outros profissionais, nomeadamente dos cuidados preventivos e de gestão de doenças crónicas. Os MF são responsáveis essencialmente pela resposta à doença aguda e supervisão dos outros profissionais de saúde com quem trabalham.

Em contraste, em Portugal, o médico de família desempenha um papel mais abrangente e é responsável pela vigilância de doenças crónicas, cuidados preventivos e promoção da saúde. Esta abordagem integral é, a meu ver, um dos aspetos mais gratificantes do nosso trabalho.

A colaboração entre os cuidados de saúde primários e secundários é mais eficaz e estreita nos Países Baixos, resultando em tempos de espera rondando as 1-4 semanas para consulta com a maioria das especialidades hospitalares. Esta é uma mais valia do sistema holandês, em que a resolução de qualquer dúvida do MF está à distância de uma chamada.

O Serviço de Saúde português poderia beneficiar de algumas mudanças, como a delegação de tarefas administrativas para outros profissionais (diminuindo a sobrecarga dos médicos), e a flexibilização dos horários de trabalho, o que poderia contribuir para uma maior satisfação pessoal e profissional e, assim, melhores resultados em saúde.

O Intercâmbio Hipócrates foi uma experiência que se revelou extremamente enriquecedora tanto a nível pessoal quanto profissional, realçando o papel do trabalho multidisciplinar e da satisfação profissional enquanto motriz para a satisfação pessoal.

Alexandra Pimentel
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na USF Garcia de Orta – ULS Santo António

 

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