Em novembro de 2025 tive a oportunidade de realizar um intercâmbio de duas semanas em Oslo, no âmbito do programa Hippokrates. Fui recebida no Bolteløkka legesenter, um centro de saúde situado no coração da cidade, onde tive contacto direto com a realidade dos cuidados de saúde primários noruegueses. O ambiente de trabalho, a organização dos serviços e o acolhimento por parte da equipa facilitaram a integração e permitiram uma experiência enriquecedora tanto a nível clínico como cultural.
A estrutura dos cuidados primários noruegueses apresenta diferenças relevantes face ao modelo português. Apesar de existirem listas de utentes atribuídas a cada médico, os centros de saúde são propriedade dos próprios médicos e parcialmente financiados pela autarquia e pelos doentes, que pagam cada ato médico até atingirem um limite anual. Outro aspeto distinto foi o papel dos assistentes de saúde, que acumulam funções administrativas com tarefas clínicas como colheitas de sangue, pensos, realização de ECG e espirometrias. Além disso, o acesso a exames rápidos no centro, como a PCR, facilita decisões clínicas e contribui para uma prática mais resolutiva.
Para além da componente organizativa, chamou-me a atenção a relação médico-doente e as expectativas dos utentes. De forma geral, os doentes valorizam uma “simples” conversa terapêutica com o seu médico de família, revelando confiança no julgamento clínico, mesmo sem a prescrição de exames ou medicação. O acesso aos cuidados de saúde a nível hospitalar e, por exemplo, à fisioterapia e psicoterapia, é muito mais facilitado do que no nosso país, reduzindo também a pressão sobre os médicos de família e melhorando a continuidade de cuidados. A interoperabilidade dos sistemas informáticos e a inexistência de longas listas de espera contribuem ainda para uma prática mais fluída e centrada no doente.
Esta experiência permitiu-me conhecer um modelo de cuidados primários mais leve e com menos barreiras organizativas, mas também reconhecer as forças do sistema português, especialmente no trabalho em equipa de família, composta por médico, enfermeiro e administrativo, em vez do médico de família isolado, como acontece na Noruega. Algo que foi também relevante para mim foi a importância dada aos pequenos momentos de partilha na dinâmica das equipas, algo muito presente na cultura de trabalho norueguesa, sendo que todos os dias a equipa se juntava para um almoço leve em conjunto. Recomendo vivamente este tipo de intercâmbio a colegas que queiram desenvolver a sua prática e conhecer realidades distintas, pois é uma oportunidade única de aprendizagem, reflexão e inspiração.
Mariana Cruz de Sousa











