A MGF possui mais um doutorado entre as suas hostes. Susana Pereira Costa, médica de família na Unidade Local de Saúde do Algarve e docente na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve, realizou no início de abril, na Universidade do Algarve, as suas provas de doutoramento em Investigação Clínica e Medicina Translacional, com a tese «Seeking Validity Evidence and Optimization of Frameworks for Entrustment Decision-Making in Medical Education of Junior Students with Patient Care Tasks».
O júri das provas foi presidido pela Prof.ª Isabel Palmeirim (MD PhD – Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve) e integrou como vogais a Prof.ª Huiju Carrie Chen (MD MSEd PhD – Kaiser Permanent Bernard J. Tyson School of Medicine, Pasadena, California, EUA) – arguente –, o Prof. Severin Pinilla (MD MEd PhD – Universidade de Berna, Suíça) – arguente –, o Prof. Hipólito Nzwalo (MD MSc PhD – Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve) e o Prof. Olle ten Cate (PhD – University Medical Center of Utrecht – Países Baixos). As orientadoras da tese foram a Prof.ª Ana Marreiros (MSc PhD – Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve) e a Prof.ª Marije Hennus (University Medical Center of Utrecht – Países Baixos).
A tese em questão teve como objetivo compreender e estruturar as decisões de confiabilização na formação clínica inicial em Medicina, tornando a supervisão mais explícita, consistente e fundamentada. Pretendeu-se clarificar conceptualmente como os supervisores ajustam níveis de autonomia a estudantes em fases precoces da aprendizagem, desenvolver referenciais pedagógicos adequados a esse contexto e produzir instrumentos de medição apoiados por evidência de validade.
A investigação integrou três estudos complementares. O primeiro, uma scoping review, identificou os principais fatores que influenciam decisões supervisivas no ensino médico pré-graduado, destacando a importância da relação supervisor-estudante, do contexto clínico e da intensidade de supervisão. O segundo estudo desenvolveu sete Atividades Profissionais Confiáveis (EPAs) para estudantes do primeiro ano de Medicina em cuidados de saúde primários, com definição explícita de limites de segurança e níveis de supervisão esperados. O terceiro estudo construiu uma escala retrospetiva de supervisão (RES), capaz de quantificar a supervisão efetivamente exercida e de se associar de forma significativa a avaliações prospetivas de confiabilização.
Globalmente, os resultados sustentam um modelo integrado de confiabilização precoce, no qual a supervisão progressiva constitui a expressão observável do desenvolvimento da autonomia clínica, reforçando o papel da Medicina Geral e Familiar como contexto privilegiado para aprendizagem clínica segura e longitudinal.
Segundo Susana Pereira Costa, o caminho que a trouxe até este doutoramento e que passou pelos meandros mais fascinantes da academia esteve sempre enraizado numa forte motivação pessoal: “desde muito cedo lembro-me de querer ser professora — mas professora de adultos. Mesmo antes de saber o que era uma universidade, fascinava-me a ideia de aprender ao longo da vida e de ensinar pessoas igualmente motivadas para continuar a crescer. Para mim, ensinar e aprender sempre fizeram parte da mesma vocação. Mais tarde, surgiu outra paixão: a investigação, primeiro ligada às ciências básicas e ao desejo de compreender melhor o ser humano, depois à vontade de contribuir para aliviar o sofrimento causado pela doença. Foi essa conjugação entre conhecimento, cuidado e curiosidade que me conduziu naturalmente à Medicina”.
A médica de família assegura que a sua ligação ao ensino médico se tem fortalecido nos últimos anos e que ajudar a formar novos colegas e potenciar a sua competência e criatividade é uma forma importante de contribuir para o avanço da especialidade: “ao longo do meu percurso profissional, desde o internato, a docência universitária na Universidade do Algarve e a educação médica, nomeadamente através dos cursos EURACT, foram ocupando um lugar cada vez mais importante. Percebi que formar futuros médicos é uma forma muito especial de cuidar de muitas pessoas através de cada estudante bem preparado. O doutoramento representou, por isso, a concretização de um objetivo antigo e profundamente alinhado com aquilo que mais me motiva; melhorar a formação médica com trabalho rigoroso, útil e com aplicação prática”.
Reconhecendo que o “percurso exigiu persistência, resiliência e entusiasmo, sobretudo perante desafios pessoais e profissionais muito exigentes”, Susana Pereira Costa acrescenta porém que vive “este doutoramento não apenas como uma meta alcançada, mas como a confirmação de uma identidade académica construída com convicção. Recebo agora este novo ciclo com gratidão e sentido de responsabilidade. Mais do que um ponto de chegada, vejo-o como uma oportunidade para continuar a aprender, ensinar e servir cada vez mais e melhor, contribuindo para a inovação curricular, a supervisão clínica e a formação em cuidados de saúde primários e para além deles”.

















