Nas 23ªs Jornadas de MGF dos Açores, que por estes dias congregam cerca de 160 inscritos em Ponta Delgada, mereceu especial relevo a sessão dedicada à Inteligência Artificial (IA), os riscos e oportunidades que apresenta aos profissionais dos cuidados de saúde primários.
Para Rita Abecasis, da Unidade de Saúde Familiar da Baixa, foi possível perceber que os colegas que assistiram a esta sessão saíram assustados, mas no bom sentido: “no campo da IA estarmos assustados equivale a estarmos atentos. E estarmos atentos implica que os nossos utentes vão depois ganhar com esse nosso maior escrutínio das ferramentas que estamos a utilizar”. A julgar pela auscultação feita no início da sessão, a generalidade dos presentes já tinha alguma experiência no que respeita ao uso regular ou diário de ferramentas de IA, todavia tal não significa que estivessem a par de muitas das condicionantes associadas a tais tecnologias, como frisa Rita Abecasis:”muitos não sabiam com rigor o que eu queria dizer com alucinação, o que significa que, provavelmente, apesar de já estarem a utilizar este género de ferramentas nunca tinham sido informados destes riscos, o que também reforça a relevância de termos abordado o tema nas jornadas”.
Rui Rodrigues, co-dinamizador da sessão e médico de família na Unidade de Saúde Familiar (USF) Carcavelos, entende que “para se tirar o máximo de potencialidade das diferentes ferramentas a que temos acesso é importante haver formação. Nessa parte, pareceu-nos que a maioria dos colegas não está a utilizar as oportunidades que acabámos por descrever da forma mais apropriada. A inteligência artificial pode ser utilizada em muitas áreas da MGF e do nosso contexto do dia-a-dia, tanto na dimensão do diagnóstico e da relação médico-utente, como no âmbito da governação clínica, da gestão administrativa e muitos outros… Existem, de facto, muitas potencialidades que nós explorámos aqui e que podem ser implementadas no nosso dia-a-dia enquanto médicos de família”.
Instado a escolher apenas uma das opções disponíveis no presente entre a panóplia de soluções baseadas em IA, face ao seu potencial de oportunidade, Rui Rodrigues não hesita: “tendo em conta a principal queixa dos médicos de família ser a carga administrativa, penso que a utilização das ferramentas de IA em relatórios clínicos e referenciações às especialidades hospitalares representa uma grande oportunidade, que pode ser implementada pelos colegas para diminuir tal carga administrativa”.
Por fim, o médico da USF Carcavelos sublinha que o recurso cada vez mais comum e preponderante da IA no quotidiano clínico impõe que se passe de um cenário em que os profissionais de saúde aprendem a usar as ferramentas numa base autodidata, para um contexto em que que são apoiados na aquisição de competências a este nível: “este não deve ser um caminho que se faça sozinho. O que acontece agora é que nos é exigido, de alguma forma, que utilizemos muitas ferramentas digitais sem que exista formação prévia. Resulta daqui que, muitas vezes, nos caem nas mãos ferramentas cujo potencial desconhecemos. Assim, o caminho tem de ser o da formação estruturada e as instituições têm de se preocupar em formar os profissionais na área da saúde digital. Essa é a via que a Rita e eu temos procurado desenvolver, para que tudo isto se revele uma oportunidade bem aproveitada, mas com as pessoas sempre conscientes dos riscos”.
Dias para celebrar… mas também para lutar por tratamento justo
Logo na abertura dos trabalhos, Gabriela Amaral, em representação do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de São Miguel, garantiu que este evento é uma oportunidade repetida no tempo através da qual os profissionais “partilham valores e desafios com o objetivo maior de melhor servir a comunidade, as famílias e as pessoas em todas as partes da sua vida. Com proximidade, competência e humanização de cuidados”.
Maria Inês Leite, vice-presidente do Conselho Médico da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Médicos, garantiu que as jornadas, na sua vigésima terceira edição, voltam a afirmar a vitalidade e a qualidade da Medicina Geral e Familiar na nossa região. O programa destas jornadas mostra bem a enorme abrangência da Medicina Geral e Familiar, desde a prevenção à doença crónica, das emergências à IA, da violência doméstica à migração e sempre com uma visão profundamente humana e integrada dos cuidados primários de saúde (…) Num sistema de saúde cada vez mais exigente, os cuidados primários continuam sempre a ter em conta a proximidade, a confiança e continuidade para os nossos doentes e famílias. A Ordem de Médicos reconhece e valoriza muito este papel, especialmente numa realidade insular como a nossa, onde tantas vezes os profissionais acumulam exigências clínicas, proximidade comunitária e enorme capacidade de adaptação”.
Já para o presidente da APMGF, Nuno Jacinto, a consistência da iniciativa e a capacidade dos organizadores da mesma manterem o entusiasmo é de louvar: “termos 23 edições de um evento científico é muito difícil, para mais de um evento científico organizado por uma delegação. É algo que merece claramente ser enaltecido!”. Segundo o dirigente associativo, verificou-se ainda uma coincidência temporal feliz que justifica nota especial: “estamos hoje perante um momento especial porque celebramos o Dia Mundial do Médico de Família, data que comemoramos nos Açores com muito gosto. Recordo que, este ano, foi sugerido pela WONCA o lema «Cuidar com compaixão num mundo digital».E ninguém melhor do que o Médico de Família para o fazer. Isto é, cuidar com compaixão, com empatia, num mundo onde a tecnologia vai entrar no nosso espaço e onde temos que trabalhar com ela (não há volta a dar). Eu acredito que a tecnologia digital não nos vai substituir, mas sim ajudar-nos a cuidar melhor de quem nos procura”.

Nuno Jacinto comentou, em paralelo, a atual situação dos especialistas de MGF e dos CSP, reforçando a mensagem de que o poder político tem de começar a traduzir em ações as frases bombásticas com que se apresenta na esfera mediática: “dizem sempre que somos a base do sistema, é verdade, que devemos ser defendidos, também é verdade, mas depois, na prática, falta algo que nós temos insistido muito, que é a valorização e o respeito pelo nosso trabalho. Em muitas ocasiões falam de remuneração – algo que é importante, sem dúvida – mas temos que falar de condições de trabalho, de flexibilidade do horário, de termos autonomia para fazer aquilo que sabemos fazer melhor do que ninguém, que só nós podemos fazer, de nos aliviarem da burocracia e do peso de indicadores que, muitas vezes, não fazem sentido. Enfim, nós continuaremos, na Associação, a lutar por esta especialidade que defendemos, que amamos, continuaremos a ser a voz de todos os médicos de família, quer estejam nos Açores, na Madeira, no Alentejo, em Coimbra, onde for. Continuem, portanto, a contar connosco, a APMGF, sobretudo com a Delegação dos Açores e com os grupos de estudo, porque são os grupos e as delegações que tornam a Associação mais próxima de cada um de vós”.
























