Foi apresentado na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) o livro «Medicina Preventiva», das Edições Lidel, coordenado pelo médico de família, professor da FMUP. investigador no RISE-Health e editor chefe da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Paulo Santos. Trata-se de uma obra que reúne contributos de 48 autores – muitos deles especialistas em Medicina Geral e Familiar – prefácio de Miguel Guimarães (ex-bastonário da Ordem dos Médicos) e posfácio de Altamiro da Costa Pereira (diretor da FMUP).
Tem como público-alvo preferencial todos os médicos, profissionais de saúde e interessados na área da saúde e versa sobre questões fundamentais como a saúde mental, a saúde materno-infantil, a realização de rastreios, a promoção de alimentação saudável e atividade física, a gestão do stress, os comportamentos aditivos, a sexualidade, ou os cuidados continuados, entre outros.
“A ideia deste livro nasce, em grande medida, da minha própria identidade como médico de família e da experiência quotidiana nos cuidados de saúde primários. Na prática clínica, torna-se evidente que prevenção e tratamento não são domínios separados, mas antes dimensões contínuas de um mesmo processo assistencial, onde a continuidade de cuidados, o acesso e a gestão dos percursos fazem toda a diferença, sempre integrados numa lógica social que envolve tanto a unidade familiar como a comunidade. No entanto, persiste uma dicotomia que tende a fragmentar esta visão: por um lado, uma prevenção demasiado orientada à população, nem sempre adaptável à singularidade de cada pessoa; por outro, uma abordagem centrada na prescrição individual, como se prevenir fosse apenas antecipar um tratamento e a respetiva prescrição. Este desalinhamento inquieta-me há muito tempo e motivou a vontade de pensar e organizar o tema de forma mais integrada, procurando precisamente reconciliar estas perspetivas, sem fundamentalismos, mas sem cedências no rigor científico”, explica Paulo Santos.
O docente da FMUP confessa que a coordenação editorial foi “um exercício exigente e profundamente colaborativo” e que “implicou articular diferentes sensibilidades e áreas de conhecimento, construindo uma narrativa coerente que respeitasse a diversidade de olhares, refletida também na escolha dos autores para cada capítulo, sem perder um fio condutor claro. Houve uma preocupação constante em equilibrar rigor científico com acessibilidade, de modo a tornar a obra útil para profissionais de saúde com interesse nesta área. No fundo, este desafio refletiu o próprio espírito da medicina preventiva: um trabalho necessariamente coletivo, que vive da integração de saberes e da capacidade de construir pontes”.
O investigador da RISE-Health está convicto de que a “obra procura acrescentar algo à medicina de forma transversal: uma reflexão mais integrada sobre o lugar da prevenção no processo assistencial. Ao invés de a tratar como um conjunto de intervenções isoladas ou como um domínio paralelo à prática clínica, como se fosse quase uma nova especialidade, o livro propõe reenquadrá-la como parte constitutiva do próprio exercício médico, em continuidade com o diagnóstico e o tratamento. Ao fazê-lo, procura também ultrapassar algumas tensões ainda presentes, entre abordagens populacionais e individuais, e entre protocolos e decisão clínica, oferecendo uma visão que valoriza simultaneamente o rigor científico e a adaptação à pessoa concreta, no seu contexto”.
Questionado sobre o que poderá trazer de novo esta obra em específico para os seus colegas da Medicina Geral e Familiar (MGF), Paulo Santos é claro: “a obra reforça o papel dos médicos de família como os profissionais que melhor conseguem integrar estas dimensões ao longo do tempo, dando sentido à prevenção no contexto da relação terapêutica e da continuidade de cuidados. Mas vai também mais longe, ao desafiar a nossa especialidade a assumir uma liderança que não se esgota na gestão dos percursos individuais de saúde. Trata-se, também, de influenciar positivamente as estruturas e os processos que sustentam esses percursos: desde a organização dos serviços à articulação com a comunidade e à intervenção nos determinantes sociais da saúde. Neste sentido, o livro pretende ser simultaneamente um instrumento de prática e um estímulo à afirmação da liderança da MGF como pilar estruturante de sistemas de saúde mais orientados para a prevenção”.
Para Sofia Baptista, docente na FMUP, coordenadora de MGF no Hospital CUF Porto e moderadora de uma das mesas redondas da apresentação pública do livro, a obra em causa oferece muito a quem a lê: “como o Dr. Hans Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, afirmou na WONCA World Lisboa, em 2025, o futuro da saúde será escrito nos cuidados de saúde primários. Ora, a obra «Medicina Preventiva» plasma essa vocação de continuidade, abrangência e proximidade dos cuidados à pessoa que estão no âmago da MGF e são justamente o fio condutor da academia à prática diária. Uma MGF forte precisa de atualização contínua e inovação nas dimensões da prática clínica, investigação e ensino. Este livro conjuga a melhor evidência e a experiência de diversos autores sobre diferentes temáticas da prevenção; assim, o médico de família que a consulte encontrará não só fundamentação científica, mas também um enquadramento que reflete a complexidade real do seu trabalho”.
Na perspetiva de Sofia Batista, o livro coordenado pelo seu colega Paulo Santos dá resposta a uma necessidade até agora não atendida: “vem preencher uma escassez de literatura orientada para a Medicina Preventiva; foi escrita por peritos que conhecem o terreno e o sistema de saúde, as comunidades e seus contextos. Em boa verdade – e partindo sempre da melhor evidência científica disponível – a Medicina Preventiva não é universal na sua aplicação, sendo indissociável do âmbito e aplicação das políticas de saúde, bem como dos recursos disponíveis e determinantes sociais da saúde. No posfácio, o diretor da FMUP, Prof. Doutor Altamiro da Costa Pereira, admite que procrastinou a sua escrita, mas com a virtude de assim nos oferecer uma reflexão mais atual. Não sei se a procrastinação terá acometido outros autores, mas parece-me que o livro chega num momento particularmente oportuno e pertinente”.















