Dançar sobre as ruínas

Colocado no prelo em 1985, «O Tango de Satanás» é no presente visto como um exercício de escrita que consegue um equilíbrio difícil, mas ambicionado por todos os escritores e apreciado por todos os leitores: é, no mesmo fôlego, uma história do seu tempo e uma história de todos os tempos, de como no seio da decadência de valores e da incerteza sobre o futuro pode brotar uma falsa esperança, capaz de fazer bailar entre a euforia e desilusão o mais sensato entre nós. Esta obra hipnótica, que faz de charlatães potenciais heróis e do mais corriqueiro observador emblema da fragilidade humana, será o ponto de partida para próxima sessão do Clube de Leitura APMGF, agendada para 24 de junho, pelas 21h00 e que terá como proponente a médica de família Joana Baptista. A participação no Clube de Leitura está sujeita a inscrição prévia, é gratuita para os sócios da APMGF e tem um custo de 35 euros para não sócios (valor que permite participar no ciclo integral). No final do ciclo, todos os participantes do Clube de Leitura que tenham assistido às sessões em direto receberão um diploma de participação entregue pela APMGF.

Instalada nas vésperas do colapso da cortina de ferro, a ação composta com minúcia e boa dose de determinismo pelo húngaro László Krasznahorkai, oferece-nos um olhar sobre a condição humana – por vezes com requintes de autópsia – que não se preocupa em esconder os sinais da decadência de uma comunidade rural e isolada no seu microcosmo. Tornam-se evidentes para quem lê, como feridas abertas, a perda dolorosa de referenciais, uma espécie de dissolução do tempo, as dúvidas e o vacilar face a um caminho novo, que ameaça redundar em distopia, o aparecimento de condições férteis para falsos profetas, que conquistam a alma de cidadãos abandonados ao seu estado mais vulnerável.

Tudo isto é desenhado nas páginas de um livro de cadência especial, inspirada nos passos do tango satânico que dá nome ao escrito, com os seis capítulos iniciais da primeira parte a mimetizarem passos em frente e os derradeiros seis, da segunda parte, a revelarem passos atrás (com a ordem capitular invertida), num movimento de avanço e recuo que por hábito associamos a um par de dançarinos em sintonia na pista de dança, mas que aqui é emprestado a cenário diferente, de uma sociedade asfixiada que procura fluir para o melhor dos mundos, timonada por alguém que não tem os seus melhores interesses em mente. Porém, atrás desta encenação desesperante e desesperada, vivida pelos campesinos húngaros, o autor trabalha sobre uma dimensão bem mais profunda, que é a tónica verdadeira de «O Tango de Satanás»: o eterno retorno. Krasznahorkai parece recusar a visão linear e progressiva da história e neste romance apresenta-nos um tempo estagnado, que evolui em círculos concêntricos e inevitavelmente reconduz as personagens ao ponto de partida, desprovidas de dinheiro, ilusões e dignidade.

A ação decorre numa cooperativa agrícola falida, algures nas planícies húngaras. O ambiente é dominado pela força quase mitológica da chuva outonal que dissolve os caminhos, corrói as estruturas e paralisa a vontade dos poucos habitantes que ali restaram. Estas personagens vivem num estado de torpor moral, consumidas por pequenas traições, suspeitas mútuas e alcoolismo niilista, que conflui sempre e sem bloqueios para a taberna local, como a água caída dos céus corre imparável para as valetas e diques. Tal miséria insustentável é enfim rasgada pelo rumor do regresso de Irimiás, um antigo habitante que todos julgavam morto. Na mente desesperada dos camponeses, Irimiás não é visto como o oportunista que é, mas antes como uma figura messiânica, um redentor capaz de os extrair do limbo. O fársico Irimiás, secundado pelo fiel tenente Petrina, insinua-se por meio de uma retórica brilhante mas manipuladora. Promete fundar uma nova comunidade utópica numa herdade vizinha, exigindo em troca que todos lhe entreguem as suas economias. A facilidade com que a comunidade se desfaz dos seus poucos bens demonstra um padrão psicológico profundo: o desejo humano de abdicar da liberdade individual e da responsabilidade em troca da promessa confortável de uma salvação externa.

Para vincar este sacrifício pleno mas vazio, que tudo abandona em troca de um punhado de nada, numa trajetória absolutamente irracional, Krasznahorkai escolhe um estilo que ignora convenções literárias como a pontuação tradicional e recorre a exposições de ideias longas, frases sinuosas que se estendem por múltiplas páginas e uma escassez deliberada de parágrafos. O efeito no leitor é quase físico: somos arrastados por um fluxo de consciência, uma torrente verbal que recusa pausas para respiração, espelhando a própria lama e a chuva ininterrupta que aniquilam a pequena comunidade.

O desfecho do livro — que estabelece uma ligação direta com as primeiras linhas do primeiro capítulo através dos cadernos do Doutor — fecha o círculo de forma magistral. A escrita revela-se, assim, como o único mecanismo de redenção contra a entropia total. «O Tango de Satanás» permanece como um monumento literário sobre o vazio, um exame impiedoso de como o medo do isolamento e a decadência espiritual tornam as sociedades desprotegidas face à tirania, ao embuste.

László Krasznahorkai nasceu em 1954 na cidade de Gyula, no sudeste da Hungria, dois anos antes da revolta popular contra o governo comunista esmagada com brutalidade pelas tropas soviéticas. Licenciado em Direito e Literatura, Krasznahorkai ganhou projeção no seu país natal com a publicação de «O Tango de Satanás» (Sátántangó), romance que consolidou uma forma de escrever inconfundível, atravessada por fluxos de consciência e uma atmosfera de iminente Apocalipse. Após a queda do bloco soviético, o seu nomadismo levou-o a viver na China, no Japão e em várias capitais europeias, experiências que expandiram os horizontes filosóficos de obras posteriores como «O Regresso do Barão de Wenckheim» ou «Herscht 07769». Distinguido com o Man Booker International Prize em 2015, Krasznahorkai entrou, em definitivo, no radar da ficção moderna ao vencer o Prémio Nobel da Literatura, em 2025.

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