Raquel Ascenção (especialista em Medicina Geral e Familiar, assistente convidada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa – FMUL –, docente no Laboratório de Farmacologia Clínica e Terapêutica daquela faculdade e atual vice-presidente do INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I. P.) concluiu as suas provas de doutoramento em Medicina (Especialidade de Farmacologia Clínica) na FMUL, apresentando a tese «Desenho e Avaliação de um Projeto de Reconciliação da Medicação na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo».
O júri das provas foi presidido por Luís Mendes Pedro (professor catedrático e vice-presidente do Conselho Científico da FMUL), desempenhando as funções de vogais do júri Natália Cláudio António (professora auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), Carlos da Silva Martins (investigador principal com agregação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), Joaquim José Coutinho Ferreira (professor catedrático da FMUL), João Parracho Guerra da Costa (professor associado da FMUL) e Mário da Silva Rosa (professor auxiliar da FMUL). Os orientadores da tese foram João Parracho Guerra da Costa (FMUL) e Paula Broeiro Gonçalves (NOVA Medical School).
O projeto de investigação que suportou este doutoramento teve como objetivo principal apoiar a prática da reconciliação da medicação em Cuidados de Saúde Primários (CSP), através do desenvolvimento de uma estratégia de implementação fundamentada na teoria e adaptada ao contexto da Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Com base numa abordagem multinível, incluindo uma revisão da literatura, duas análises a partir de dados da vida real e um estudo de métodos mistos do tipo explanatório sequencial, os autores comprovaram que a reconciliação da medicação em CSP é uma atividade exigente, cuja implementação e efetividade são influenciadas por fatores sistémicos, tais como a continuidade assistencial, a qualidade da prescrição nas transições de cuidados e a existência de infraestruturas digitais interoperáveis.
Recorrendo a modelos teóricos, foram selecionadas diferentes técnicas de mudança comportamental para apoiar a implementação da reconciliação da medicação. Embora alguns componentes possam ser operacionalizados ao nível local, outros requerem coordenação nacional e políticas de suporte. O envolvimento alargado das partes interessadas (incluindo profissionais de saúde, decisores políticos e utentes) foi visto como essencial para assegurar a relevância e viabilidade das intervenções. Neste processo, as universidades e os investigadores devem manter um papel ativo, contribuindo para a conceção, adaptação e avaliação contínua das estratégias, inclusive após a fase inicial de desenvolvimento, consideram os autores dos estudos que constituem a base do doutoramento.
A revisão sistemática incluiu sete estudos aleatorizados e controlados. Os resultados sugerem o potencial das intervenções de reconciliação da medicação, mas evidenciam heterogeneidade, inclusivamente na implementação das intervenções. Os estudos com dados do mundo real evidenciam a prevalência dos danos relacionados com medicamentos, bem como o potencial de mitigação daqueles evitáveis. O estudo de métodos mistos revelou a existência limitada de procedimentos formais de reconciliação da medicação nos CSP, mas também um forte apoio profissional aos seus princípios. Os médicos de família descreveram práticas informais de reconciliação, moldadas pelo contexto clínico, pela carga de trabalho e pela continuidade dos cuidados. Os principais domínios comportamentais incluíram “conhecimento”, “competências”, “papel e identidade social/profissional” e “contexto ambiental e recursos”. As técnicas de mudança comportamental propostas incluíram alertas eletrónicos e cronologias da medicação, listas de verificação estruturadas e mecanismos de feedback entre pares. No decurso deste projeto foi ainda possível contribuir para a revisão da norma de orientação da Direção-Geral da Saúde sobre reconciliação da medicação.
“Em resumo, este projeto demonstra que o reforço da reconciliação da medicação nos CSP exige o alinhamento de condições comportamentais, organizacionais e ao nível das políticas. A reconciliação da medicação liderada por médicos de família, embora adequada ao contexto, depende de fatores sistémicos mais amplos, como a infraestrutura de informação, as práticas de comunicação e a responsabilização partilhada”, explica Raquel Ascenção.
A vice-presidente do INFARMED acredita que o passo agora dado por si, mediante a conclusão do doutoramento, é uma sequência lógica de duas grandes paixões que tem vindo a alimentar: “ao longo da minha formação e atividade profissional, a Medicina Geral e Familiar e a Farmacologia Clínica foram-se afirmando como duas áreas complementares. A primeira aproximou-me da continuidade e complexidade dos cuidados, bem como das decisões terapêuticas tomadas no quotidiano da prática clínica. A segunda reforçou o meu interesse pela utilização segura e racional do medicamento. Este projeto de investigação permitiu-me aproximar estas duas dimensões através do estudo da reconciliação da medicação em CSP”.
Por outro lado, para Raquel Ascenção a superação deste degrau académico “representa o encerramento de um capítulo muito exigente, mas também a abertura de muitos outros. Ambiciono continuar a investigar sobre reconciliação da medicação e temas relacionados com a utilização racional dos medicamentos, bem como contribuir para o reforço da integração destes tópicos na formação médica pré e pós-graduada. Com gratidão a todos os que me acompanharam neste caminho e permitiram que chegasse a bom porto, em especial aos meus orientadores, família, amigos e colegas, sigo caminho com a mesma convicção com que comecei: ser médica de família de coração e farmacologista clínica de cabeça, procurando contribuir para cuidados mais seguros e centrados nas pessoas”.


















