Entre o final de setembro e meados de outubro de 2025, tive a oportunidade de realizar um intercâmbio ao abrigo do Programa Hipócrates na Huisartsenpraktijk Leonardus, em Helmond, nos Países Baixos, sob a orientação do Dr. Merijn Godefrooij. Motivou-me o interesse em conhecer um sistema de saúde distinto, reconhecido pela organização eficiente das suas equipas multiprofissionais e pelo papel central do médico de família como gatekeeper.
O sistema de saúde holandês assenta num modelo de mercado regulado, onde a cobertura universal é assegurada através de seguros de saúde privados. A minha experiência na Huisartsenpraktijk Leonardus permitiu observar de perto um modelo de cuidados de saúde primários onde a equipa multidisciplinar é o pilar do funcionamento diário. Assisti a consultas com os vários profissionais da unidade e acompanhei visitas domiciliárias diárias, o que me permitiu compreender a dimensão comunitária dos cuidados.
Uma das diferenças mais marcantes reside na distribuição de tarefas. A atividade clínica do médico de família é maioritariamente realizada em regime de “consulta aberta”, com uma duração de 10 minutos, focada na resolução de problemas agudos. Em contraste, a consulta programada — que abrange a vigilância de Risco Cardiovascular (RCV), Diabetes Mellitus (DM), Asma/DPOC ou osteoporose — é da inteira responsabilidade das enfermeiras de doença somática. Estas profissionais possuem autonomia para prescrever exames e medicação no âmbito das suas funções. Adicionalmente, as Nurse Practitioners (NP) e as Doctor’s Assistants (DA) estão devidamente capacitadas para a realização de consultas — sendo as das NP mais complexas — e diversos procedimentos, enquanto a unidade disponibiliza no próprio centro MCDTs como Raio-X, espirometria, eletrocardiograma e colheitas de sangue e urina, agilizando drasticamente o processo diagnóstico.
No que respeita à organização clínica, o sistema holandês beneficia de processos altamente informatizados, onde a comunicação médico-utente é facilitada por aplicações móveis e a gestão de medicação é assegurada por uma farmácia associada ao processo. O médico de família (MF) foca-se na atividade clínica direta, não sendo responsável pela emissão de baixas médicas.
Outro aspeto notável é a facilidade de articulação com os cuidados secundários e terciários. A resolução de dúvidas clínicas é frequentemente imediata, bastando um telefonema entre o médico de família e o especialista hospitalar – que tem acesso a todos os registos e MCDT pedidos pelo médico de família, o que contrasta com outros modelos mais burocratizados.
A experiência no Huisartsenpost (o serviço de atendimento fora do horário, em funcionamento das 17h-8h durante a semana e durante 24h, ao fim-de-semana) revelou-se fundamental para compreender a gestão de fluxos. Este serviço atua como uma barreira eficaz ao influxo excessivo nas urgências hospitalares: o utente é submetido primeiro a uma triagem telefónica rigorosa, seguida, quando necessário, de uma consulta presencial na instituição ou no domicílio do utente, realizada sempre por médicos de família (ou internos) da região. Apenas após esta avaliação especializada é realizada a referenciação para o serviço de urgência hospitalar, assegurando que apenas os casos de real necessidade ocupam esses recursos.
Por fim, o papel do MF nos cuidados de fim de vida é central e profundamente humano, exigindo um acompanhamento próximo e intensivo que o coloca, na prática, na posição de um paliativista. Nos casos em que se equaciona a eutanásia, o processo assenta num diálogo prolongado entre médico e utente, requerendo a avaliação obrigatória de um médico independente e um rigoroso controlo de legalidade por uma comissão regional após o ato.
Em comparação com a realidade portuguesa, o modelo neerlandês evidencia vantagens claras na distribuição de tarefas e na redução da carga burocrática do médico de família. Contudo, esta experiência permitiu-me também valorizar a abordagem integral e abrangente que praticamos em Portugal, nomeadamente na vigilância da saúde infantil e na gravidez, áreas onde o modelo holandês apresenta uma menor intervenção do médico de família, o que levanta questões sobre a continuidade longitudinal dos cuidados.
O intercâmbio Hipócrates revelou-se uma ferramenta de desenvolvimento profissional inestimável. Esta reflexão crítica sobre diferentes modelos de Medicina Geral e Familiar reforça a importância da abertura à inovação e da aprendizagem internacional, sendo uma experiência que considero essencial promover durante o internato.













