Tive a oportunidade e a honra de ser selecionada pela APMGF para receber uma das bolsas de apoio à participação na 30ª Conferência da WONCA Europe, que decorreu em Paris entre 29 de junho e 3 de julho de 2026. Durante estes dias participei na pré-conferência e na conferência principal, moderei sessões e apresentei uma comunicação oral. Mas, enquanto interna do último ano de Medicina Geral e Familiar, e fazendo agora também algum balanço do meu percurso de internato, esta experiência foi muito mais do que isso. Foi um momento de balanço, inspiração e reencontro com aquilo que me fez escolher esta especialidade.
A WONCA não é, talvez, o congresso que devemos procurar se o nosso principal objetivo for conhecer a última guideline, discutir o consenso mais recente ou ouvir apenas os grandes peritos de uma determinada área clínica. Para isso existem muitos outros encontros científicos, também importantes e ótimos! Mas a Conferência WONCA é outra coisa, diferente. É um espaço onde se fala de Medicina Geral e Familiar na sua dimensão mais ampla: a clínica, sim, também, mas acima de tudo os sistemas de saúde, as desigualdades, a formação e investigação, a sustentabilidade, a comunidade e relação médico-doente, a incerteza, a continuidade de cuidados e tudo aquilo que torna a nossa especialidade tão rica, tão vasta e tão diferente das restantes.
Este ano, o lema da conferência “Liberté, Égalité, Fraternité” não podia ter sido mais apropriado. Em Paris, estas palavras deixaram de ser apenas o mote de uma cidade ou de um país e passaram a fazer todo o sentido quando aplicadas à Medicina Geral e Familiar. Liberdade para pensar de forma crítica, mudar e fazer diferente. Igualdade no acesso, nos cuidados prestados e na defesa de sistemas de saúde mais justos. Fraternidade na forma como nos reconhecemos nos problemas uns dos outros, mesmo quando trabalhamos em países, culturas e contextos tão diferentes; mas também na forma como conhecemos pessoas, criamos amizades e construímos redes de contacto que continuam muito para além dos dias da conferência.
A minha participação começou na pré-conferência, que continua a ser, para mim, um dos espaços mais especiais destes encontros. Ao contrário da conferência principal, maior e naturalmente mais dispersa, a pré-conferência tem uma dimensão mais próxima, quase familiar. A maioria das sessões decorre em formato de workshop, com pequenos grupos, discussão aberta e partilha constante. Não estamos apenas sentados a ouvir: somos convidados a participar, a dar opinião, a falar da nossa realidade, a ouvir a realidade dos outros e a construir ideias em conjunto. É muito fácil começar uma conversa com a pessoa sentada ao nosso lado e, poucos minutos depois, perceber que temos dúvidas, frustrações, sonhos e desafios muito semelhantes.
Foi também nesse ambiente que voltei a sentir o impacto que estas experiências têm na nossa forma de olhar para o dia-a-dia. Muitas vezes, quando estamos imersos na rotina do internato e da USF, entre listas de utentes extensas e pressão assistencial e/ou objetivos de estudo ambiciosos e, não raramente, impressoras avariadas ou falhas dos sistemas informáticos nos momentos menos oportunos, é fácil sentir que os nossos problemas são enormes e quase impossíveis de resolver.
Depois, conversamos com colegas de outros países e percebemos que alguns enfrentam dificuldades muito parecidas; outros lidam com problemas ainda maiores; outros encontraram soluções simples para questões que nós continuamos a discutir há anos. Esta comparação não serve para desvalorizar aquilo que sentimos em Portugal, mas ajuda-nos a relativizar, a pensar melhor e a regressar com outra capacidade crítica.
Também me fez reconhecer, uma vez mais e conforme brilhantemente representado na Country Session, o caminho que a reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal nos permitiu percorrer. Temos problemas, naturalmente. Temos dificuldades diárias que nos cansam e, por vezes, desmotivam. Mas quando ouvimos colegas de outros sistemas de saúde falar sobre dificuldades de acesso, ausência de continuidade, fragmentação de cuidados ou ausência de equipas estruturadas, percebemos que a Medicina Geral e Familiar portuguesa tem muito de que se orgulhar.
Na conferência principal tive ainda o privilégio de participar de forma ativa, moderando três sessões e apresentando uma comunicação oral sobre o meu estudo caso-controlo acerca dos fatores associados ao internamento por exacerbação de DPOC. Este trabalho nasceu de uma “inquietação” muito ligada à prática clínica e ao nosso contexto: a forma como os internamentos por asma ou DPOC são considerados, na sua totalidade, como potencialmente evitáveis e, por isso, usados na avaliação do desempenho dos Cuidados de Saúde Primários. Naturalmente, este tipo de indicador pode ter vantagens. Pode ajudar-nos a estar mais atentos a determinados doentes, a rever terapêuticas, a identificar oportunidades de intervenção e a pensar no que pode ser feito para evitar novos internamentos. Mas, ao mesmo tempo, a análise destes casos mostra que nem sempre existem respostas simples. Nem todos os internamentos classificados como evitáveis (muito poucos até) resultam de falhas nos cuidados prestados pelos médicos de família. Alguns refletem apenas doença avançada, multimorbilidade, fragilidade e limites reais daquilo que pode ser prevenido. Foi precisamente essa reflexão que procurei levar à discussão.
Moderar sessões foi igualmente uma experiência muito enriquecedora. Estar “do lado de lá” obriga-nos a ouvir de outra forma, ligar ideias entre apresentações, estimular a discussão e valorizar o trabalho de colegas que, muitas vezes, trazem projetos muito ligados à realidade das suas comunidades. A WONCA tem esta característica especial: dá palco a médicos de família e internos de todo o mundo, com projetos mais académicos ou práticos, mas quase sempre nascidos de problemas reais. E isso torna a conferência particularmente próxima daquilo que fazemos todos os dias.
As keynotes, por sua vez, trouxeram aquele impulso que às vezes nos falta no final de um ano difícil ou reflexões acerca de temas complexos. Há pessoas que sobem ao palco e, mais do que transmitir conhecimento, partilham o percurso e escolhas, bem como as dúvidas, falhas e convicções. São momentos que nos recordam que a Medicina Geral e Familiar não se faz apenas de competência técnica, mas também de propósito, coragem, incertezas e capacidade de continuar a tentar melhorar.
Para mim, a WONCA é também reencontro. Reencontro com colegas portugueses com quem não estou diariamente e com colegas internacionais que conheci em conferências anteriores, intercâmbios e projetos. Todos eles conhecidos no contexto de experiências que só aconteceram porque existem organizações que criam estas pontes. Pertencer à APMGF é pertencer também diretamente a esta rede mais ampla que é a WONCA e, no caso dos internos e jovens especialistas, é também uma porta para conhecer o trabalho do EYFDM e de tantas iniciativas europeias que aproximam jovens médicos de família. Ao longo do internato, estas oportunidades permitiram-me conhecer pessoas extraordinárias, aprender com realidades muito diferentes da minha e perceber que a nossa especialidade é verdadeiramente global.
Ser selecionada para receber apoio à participação neste congresso, tanto pela APMGF como pela Comissão Organizadora da WONCA Europe 2026, foi uma distinção que muito me honrou. Mais do que um apoio financeiro, senti-o como um incentivo para continuar a participar, investigar, partilhar e, de certa forma, tentar representar um bocadinho do que é a Medicina Geral e Familiar portuguesa fora de portas da melhor forma possível.
Regresso de Paris com a sensação familiar de quem traz a mala mais cheia, não apenas de certificados e fotografias, mas também de ideias, conversas, contactos, perguntas e vontade de fazer melhor. Trago também algum balanço deste percurso de internato que se aproxima do fim: a certeza de que cresci muito dentro das paredes da minha USF, mas também fora delas, sempre que tive oportunidade de sair, conhecer, comparar, duvidar e voltar a pensar.
Aos colegas internos que nunca participaram numa conferência ou experiência WONCA, deixo o meu maior incentivo e desafio: vão pelo menos uma vez! Se puderem, vão até sozinhos! Não esperem encontrar apenas respostas prontas ou falar apenas com os colegas de que já são amigos. Vão para ouvir, falar, deixar-se surpreender e perceber o que fazemos bem e o que podemos melhorar. Vão para descobrir que os nossos problemas não são só nossos, que as nossas ideias podem interessar a outros e que a Medicina Geral e Familiar é feita desta troca permanente entre pessoas, famílias, comunidades e sistemas.
Em Paris, entre liberdade, igualdade e fraternidade, voltei a sentir-me profundamente grata por pertencer a esta especialidade. E, acima de tudo, voltei mais uma vez profundamente inspirada!












